Ed Ferreira/AE
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Países ricos tentam inverter papéis, diz Dilma em Copenhague

Ministra classifica de 'escândalo' proposta que inclui nações em desenvolvimento como financiadores de fundo

Lisandra Paraguassu e Andrei Netto, O Estado de S. Paulo

13 Dezembro 2009 | 20h31

A ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, acusou os países ricos de tentar "inverter papéis" e tratar as nações em desenvolvimento - incluindo o Brasil - como se fossem desenvolvidas. Dilma, que participou neste domingo da primeira reunião de ministros da 15ª Conferência do Clima das Nações Unidas (COP-15), em Copenhague, classificou como "um escândalo" a proposta de que países em desenvolvimento contribuam também com financiamento para um fundo global de combate às mudanças climáticas.

 

"Sinto uma inversão de responsabilidades aí. Digam quanto vocês (os países desenvolvidos) vão colocar (no fundo), a responsabilidade é de vocês. Aceitar que desenvolvidos e em desenvolvimento tenham o mesmo tratamento é um escândalo", afirmou a ministra. Ela chegou no sábado, 12, a Copenhague para a última semana da conferência, que busca um novo acordo internacional de combate às mudanças climáticas.

 

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Apesar das críticas, Dilma disse que sentiu avanços nas negociações. Mas ficou claro que a questão do dinheiro é um nó que está longe de ser desatado. A ministra enfatizou que o Brasil não só não planeja colocar recursos em um fundo como ainda pretende ter acesso a financiamentos - algo que propostas recentes dos países ricos tentam evitar, barrando o acesso dos emergentes e reservando o dinheiro somente para os mais pobres.

 

"Hoje, no Brasil, estamos nos financiando com dinheiro próprio. Estamos fazendo a nossa parte. Se houver financiamento (internacional), vamos fazer mais rápido", disse a ministra. "Quem achar que tem dinheiro, que contribua. Mas tem de ter muito dinheiro ou então não cumpre as próprias metas. Nós não vamos dar um passo maior que a perna."

 

PRINCÍPIOS BÁSICOS

 

A discussão vai além. Financiar ações nos países em desenvolvimento e definir metas claras de redução de emissões domésticas são atribuições definidas pela Convenção do Clima para os países desenvolvidos. E são essas atribuições e a responsabilidade de cada um que estão sendo desviadas em Copenhague, segundo Dilma. O Protocolo de Kyoto fala em responsabilidades históricas dos ricos pelas emissões e, como consequência, a parcela maior de sacrifício também caberia a essas nações industrializadas.

 

"Eles (os países desenvolvidos) não aceitam. Eles contornam essa questão. Mas não é possível ir adiante sem falar nisso", disse Dilma. "É um absurdo pensarmos em abrir mão da responsabilidade histórica", respondeu a ministra ao ser questionada se os países em desenvolvimento poderiam esquecer a questão em nome de um acordo maior. "O que está em jogo é se acreditamos ou não que houve acúmulo de emissões, que não há diferença per capita, se há pobreza ou não. Se eu puder passar por cima de tudo isso eu transformo todos os países pobres em ricos, abro mão de tudo que vamos negociar. Não poderia nem voltar para casa."

 

A própria Convenção do Clima, de 1992, lembrou Dilma, diz que as ações de mitigação nos países em desenvolvimento "dependem" de financiamento dos desenvolvidos. "Ninguém abre mão da convenção e ninguém abre mão do Protocolo de Kyoto", afirmou.

 

Algumas das negociações em Copenhague sugerem abandonar Kyoto - o que agradaria aos Estados Unidos e outros países ricos. O protocolo é o único instrumento legalmente vinculante da Convenção, que estabelece as metas obrigatórias de redução de emissões para os desenvolvidos. Os EUA nunca ratificaram o protocolo e não aceitam participar dele.

 

A conferência de Copenhague vai até sexta-feira. Nos últimos dois dias ocorrerá a cúpula de chefes de Estado, com participação de vários presidentes.

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