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Países ricos farão sacrifícios?

'O Norte terá a inteligência de compreender que o futuro do CO2 estará condicionado pelos sacrifícios financeiros que o mundo rico deverá fazer em favor do mundo em desenvolvimento?'

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

01 Dezembro 2015 | 03h00

O início foi bom. Todos se colocaram de acordo, o presidente americano Obama, o francês François Hollande, a chanceler alemã Angela Merkel, o russo Vladimir Putin, o chinês Xi Jinping: a terra está ameaçada pelos gases de efeito estufa. Melhor ainda: esses homens poderosos que têm nas mãos as chaves da nossa sobrevivência exigem a adoção de medidas ferozes para bloquear o mal e serão os primeiros a aplicá-las em seus países respectivos. 

Hosana! Gloria in excelsis Deo! Escapamos: o trem maluco do mundo disparava na direção do abismo e no último instante uma graça iluminou os grandes cérebros de todos os dirigentes do planeta. Salvos!

Já era tempo. Mas não existe nada surpreendente: estes mesmos chefes, que normalmente brigam por qualquer coisa, no dia em que se defrontam com um inimigo ao mesmo tempo terrível e universal, o CO2, esquecem suas diferenças. E juntam os braços e bloqueiam o apocalipse.

No entanto, este breve instante de graça foi bruscamente arruinado. Um outro homem poderoso, o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, que dirige um país catalogado como o terceiro poluidor mundial, depois de China e Estados Unidos, assinou no Financial Times um artigo discordante. Ele sublinhou um aspecto sutil que, parece, escapou dos seus nobres colegas: a questão do financiamento é a principal causa do bloqueio de todas as negociações sobre o clima.

Embora concorde com a malignidade do carbono, para o premiê indiano os países ricos não se esforçam o suficiente. E ele defende os países em desenvolvimento. “A justiça exige que com o pouco de carbono que podem ainda queimar com segurança, os países em desenvolvimento sejam autorizados a crescer.”

O grito de Modi é forte. A Índia na verdade mantém uma posição ambígua. É uma das grandes potências do mundo. Seu crescimento superou o da China no ano passado, mas o país tem 300 milhões de pobres. Portanto, tem necessidades que os países ricos ignoram. Em princípio, para compensar o atraso o país terá de dobrar suas emissões de gás de efeito estufa até 2030.

Narendra Modi conclui seu artigo afirmando que “os códigos de vida de alguns não devem impedir as oportunidades daqueles que ainda estão na primeira fase de desenvolvimento”.

Na realidade, mesmo que o grito do premiê indiano seja uma nota dissonante, ele não faz nada mais do que repetir o que já se sabe e que tem provocado o fracasso, há 20 anos, de todas as negociações climáticas (em particular a reunião de Copenhague, em 2009).

Na verdade, o fracasso ou a glória da COP 21 dependerá da resposta a esta questão: o Norte terá a generosidade e inteligência de compreender que o futuro do CO2 estará condicionado pela oposição entre os países do Norte e os do Sul, pela ajuda ou sacrifícios financeiros que o mundo rico deverá fazer em favor do mundo em desenvolvimento?

Uma equação de difícil solução. Os sacrifícios que os ricos devem se propor a fazer são enormes, centenas de bilhões de dólares. É este também o desafio climático: a falta de instrumento de medidas para calcular, repartir, diluir os fluxos financeiros monumentais que as ações envolvendo o clima devem impor.

O capitalismo, depois de tentativas, erros, desastres, vitórias, ajustes, conseguiu se dotar de instrumentos contábeis aptos para regular os itinerários das riquezas. Mas na questão do clima entramos num mundo desconhecido. Estamos de certo modo como capitães de navios que se lançam em mares desconhecidos sem bússolas, sem mapas, sem instrumentos para medir a força das correntes marítimas, a circulação dos ventos ou das nuvens. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

GILLES LAPOUGE É CORRESPONDENTE EM PARIS

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