Países retrocedem no debate do clima

A 48 horas do fim da reunião, EUA paralisam debate, africanos reagem e presidente da COP-15 é destituída

Andrei Netto e Afra Balazina, enviados especiais de O Estado de S. Paulo

17 Dezembro 2009 | 09h57

Quando as discussões sobre o acordo climático deveriam caminhar para uma solução na 15ª Conferência do Clima (COP-15) das Nações Unidas, os Estados Unidos impuseram, a 48 horas do fim, um retrocesso. O caos vivido ontem foi provocado pelo veto norte-americano ao texto-base que vinha sendo discutido desde sexta. A intransigência custou caro: um bloqueio da África ao debate e a contestação pública da Dinamarca, que teve um novo texto recusado sem ser lido pelo G77.

 

O confronto veio a público às 7h, depois de uma madrugada inteira de negociações. Insatisfeitos com a sessão sobre mitigação no texto-base – que previa o equilíbrio das metas de redução de emissões de CO2 entre o Protocolo de Kyoto e um eventual Protocolo de Copenhague –, os EUA anunciaram que não negociariam. A alegação era de que, nos termos em que vinha sendo discutido, o texto não seria aprovado no Congresso, gerando desgaste ao presidente Barack Obama.

 

O argumento levou o maltês Michael Cutajar e o brasileiro Luiz Alberto Figueiredo, coordenadores do grupo que trabalha na elaboração do tratado, a escreverem uma versão desidratada do texto publicado na sexta. Questões cruciais, como a meta global de redução de emissões de CO2 para 2050 e o estabelecimento de uma data para que as emissões atinjam seu pico, foram postas entre colchetes. Na prática, parágrafos inteiros estavam ameaçados.

 

Inconformados com o que consideraram um retrocesso, os países africanos, membros do G77 (grupo de nações em desenvolvimento) vetaram o texto. No fim da manhã, em pretenso esforço de mediação, o governo da Dinamarca entrou em ação, provocando mais caos. A primeira iniciativa foi a destituição da presidente da COP-15, Connie Hedegaard, em favor do primeiro-ministro Lars Rasmussen. A decisão, conhecida com antecedência, teria como objetivo elevar o nível do comando. “Com tantos chefes de Estado reunidos, é apropriado que o primeiro-ministro presida”, disse Connie.

 

A demissão, porém, gerou uma onda de rumores. Connie, de 49 anos, ainda respondia a críticas sobre um primeiro texto dinamarquês, considerado tendencioso. Mas ela era depositária de um fio de confiança dos países em desenvolvimento. Já Rasmussen, em seu primeiro ato, anunciou que a Dinamarca, usando sua prerrogativa de organizadora do evento, publicaria de forma unilateral um novo texto, reunindo as negociações sobre a renovação de Kyoto e sobre a criação de um eventual Protocolo de Copenhague. “O mundo está esperando de nós algum tipo de acordo, e não só discussão de procedimentos”, argumentou. “Nós temos fazer algo avançar.”

 

A iniciativa fez explodir a insatisfação. Os grupos de trabalho pararam e centenas de diplomatas passaram o dia de mãos amarradas. O impasse abriu dúvidas sobre o documento que deve ser submetido aos chefes de Estado.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.