País terá de abrir novas áreas para soja no Cerrado

O plantio de soja já vem ocupando áreas de pastagens, como aconteceu nesta safra em Mato Grosso. Mas na opinião dos consultores, a produção brasileira não poderá crescer sem o uso de novas áreas, destacadamente as do Cerrado. Esse movimento, entretanto, depende de os preços permanecerem em patamares elevados como os vistos atualmente, devido ao alto investimento para a implantação de novas lavouras. De acordo com Dall´Agnol, dos 207 milhões de hectares do Cerrado, 130 milhões são agricultáveis. Cerca de 20 milhões de ha são utilizados atualmente para a agricultura.

Camila Moreira e Ana Conceição, Agência Estado

09 de fevereiro de 2011 | 18h49

"Se os preços compensarem, o produtor pode facilmente dobrar, triplicar a área de soja, sem derrubar a floresta amazônica", disse Dall'Agnol. "A área está crescendo todos os anos, só que o custo de produção também. Então o produtor só abre áreas novas quando tem certeza de que vai vender a um preço bom. E é isso que está acontecendo neste ano", acrescenta.

A soja negociada em Chicago está em torno de US$ 14, nos maiores níveis em dois anos e meio, devido à demanda forte e ao aperto da oferta. Com esse preço, o produtor não recupera no primeiro ano o custo que teve para derrubar a vegetação nativa, corrigir o solo e transformar a região em área agricultável. Nas contas de Dall´Agnol, esse processo custaria em torno de R$ 2.500 a R$ 3.000 e o produtor ainda gastaria mais R$ 1.500 para instalar a lavoura.

"Colhendo 50 sacas por hectare e vendendo a R$ 40 a saca, que é o preço praticado hoje no Centro-Oeste, daria R$ 2 mil por hectare. Ou seja, é preciso dois anos colhendo bem para cobrir essa conta. Não é fácil para o produtor decidir abrir uma grande área se não tiver uma perspectiva de bons preços, então ele vai aos poucos", disse o pesquisador, lembrando que a lei permite que 80% da vegetação do Cerrado seja transformada em lavoura, contra 20% da Amazônia.

André Pessôa, da Agroconsult, destaca um ponto: o bom momento também para a pecuária de corte. Os altos preços da arroba do boi estimulam a pecuária atualmente e podem limitar a liberação de áreas de pastagens para o plantio de soja. "Além disso, recuperar o pasto degradado está ficando caro", acrescenta sobre a necessidade de preparar o terreno para receber a oleaginosa.

Biotecnologia

Enquanto isso, as soluções em biotecnologia criadas exclusivamente para aumentar a produtividade devem demorar. Atualmente esse resultado é indireto, já que as variedades transgênicas de soja disponíveis no mercado e a maior parte dos estudos atuais são voltados para a resistência a herbicidas, a insetos ou à seca.

"Nenhuma dessas tecnologias aumenta diretamente a produtividade, mas sim de forma indireta devido ao melhor controle das ervas daninhas, à redução dos custos e do uso de inseticidas. Não é que falte interesse em melhorar a produtividade, mas essa é uma característica muito complexa. Estamos apenas na ponta do iceberg (dos estudos nessa área) e ainda há muita coisa evoluindo", disse Alexandre Nepomuceno, pesquisador da Embrapa Soja.

Segundo ele, que também é membro da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), o único estudo atualmente conhecido no mercado para uma soja geneticamente modificada de alto rendimento é da Monsanto. A empresa já pediu a liberação para testes em condições de campo, mas não há qualquer previsão para resultados iniciais.

"Vamos ter que esperar mais dois, três anos para ver os resultados desse estudo da Monsanto", disse Nepomuceno. A Monsanto não dá mais detalhes sobre esse estudo e também não fala em prazos.

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