Alexander Lees/Divulgação
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País pode ganhar US$ 1,5 bi por ano salvando florestas

Brasil será o maior beneficiado se mecanismo de compensação for aprovado em Copenhague

Karina Ninni, especial para O Estado de S. Paulo

11 Dezembro 2009 | 00h01

A floresta em pé nunca valeu tanto. Em tempos de aquecimento global, cada hectare conservado de mata nativa pode significar menos gases causadores do efeito estufa (GEE) lançados na atmosfera. Ao menos é esse o raciocínio por trás da Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal (REDD), mecanismo que está sendo discutido na Conferência do Clima de Copenhague, a COP-15, como forma de atenuar o aquecimento global.

 

A REDD funciona por meio da remuneração de emissões evitadas de carbono. A ideia é recompensar países que coíbam o desmatamento. Dono da maior floresta tropical do planeta, cuja queima responde por 1,5% dos GEEs emitidos no planeta todo ano, o Brasil tem tudo para ser a bola da vez. O governo federal começou a catalogar projetos que podem se candidatar a recursos da REDD. Segundo o Serviço Florestal Brasileiro, só os 17 projetos já mapeados têm um potencial de arrecadação de US$ 1,5 bilhão por ano. A área total deles é de 320 mil quilômetros quadrados, mais de dez vezes a de Sergipe.

 

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A compensação pela manutenção da floresta pode vir de doações (REDD voluntária) ou pelos polêmicos créditos de carbono negociados no mercado (REDD compensatória). O cálculo é feito tomando como base o valor de US$ 5 por tonelada de gás carbônico que deixa de ser emitida, segundo Marco Conde, gerente de Fomento do Serviço Florestal.

 

A REDD pode ser a grande estrela de um mercado que já recompensa quem deixa de poluir, o de créditos de carbono, que movimenta por ano US$ 89 bilhões, segundo o Banco Mundial. Apesar disso, o governo era contra o uso da REDD compensatória. Só mudou de discurso após negociação com governadores da Amazônia.

 

“Em Copenhague, estamos propondo o seguinte: aceitamos a REDD voluntária sem restrições. Mas sugerimos que só poderão lançar mão da REDD compensatória as nações que já cumpriram 70% de suas metas de redução da poluição”, esclarece o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc. “Esses países poderão usar o mecanismo para compensar, no máximo, 10% de suas emissões. E devem fazer doações aos fundos de adaptação (às mudanças climáticas mantidos pela Organização das Nações Unidas).”

 

Apesar da proposta brasileira, a REDD ainda é um ponto de interrogação em termos de critérios. “Ela não conta ainda com uma definição clara de seu escopo ou referências metodológicas no âmbito da Convenção do Clima da ONU”, admite Thaís Linhares Juvenal, diretora do Serviço Florestal e negociadora do País na COP-15.

 

A maioria dos projetos mapeados pelo Serviço Florestal está em fase de elaboração ou captação de recursos. O mais antigo, de preservação da mata atlântica em Guaraqueçaba, litoral do Paraná, sobreviveu ao longo de dez anos graças a doações de grandes empresas, como General Motors e Chevron, e tenta agora se adaptar ao padrão da REDD. “Compramos uma área de 18 mil hectares e as empresas fecharam conosco um contrato de 40 anos para preservá-la”, diz Clóvis Borges, diretor-executivo da Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental, que concebeu o projeto.

 

A entidade tem outra iniciativa do gênero, criada para salvar o que resta das araucárias no Paraná – essas árvores ocupam hoje 0,8% da cobertura original. “Começamos como um projeto de adoção de áreas verdes por empresas. Ao agregarmos o apelo das mudanças climáticas, sensibilizamos mais gente”, diz o biólogo Guilherme Karan. Hoje, 20 donos de áreas de 100 hectares recebem R$ 2 mil por mês para conservá-las. Mas a Amazônia é o grande polo de interesse para as iniciativas de REDD. Dos projetos catalogados pelo Serviço Florestal, 14 ficam na região. Para aproveitar esse interesse e estimular a preservação da floresta, o governo criou, no ano passado, o Fundo Amazônia, com recursos doados pela Noruega.

 

Um dos projetos beneficiados pelo Fundo Amazônia, com R$ 19 milhões, é o Bolsa Floresta. Criado pelo governo do Amazonas e pela Fundação Amazonas Sustentável, ele distribui recursos entre 6.800 famílias em 14 unidades de conservação. Antes do apoio oficial, já tinha como parceiros a rede de hotéis Marriott e a Coca-Cola. “A meta é evitar a emissão de 3,5 bilhões de toneladas de gás carbônico até 2016”, diz Virgílio Viana, diretor-geral da fundação.

 

Sebastião Brito de Mendonça, que vive na comunidade de São Sebastião do Saracá, às margens do Rio Negro, acabou de entrar no Bolsa Floresta. “Estamos esperando a aprovação do nosso plano de manejo no Instituto de Terras do Amazonas. Tirávamos madeira ilegalmente. Agora, temos a chance de explorar dentro da lei.”

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