Painel da ONU vira prévia de acordo global

Documento é discutido linha por linha e, por isso, só 20% do texto foi fechado em 3 dias

Andrei Netto, Enviado especial / ESTOCOLMO, O Estado de S.Paulo

26 Setembro 2013 | 02h03

Já preocupados com um futuro acordo multilateral sobre mudanças climáticas, delegados governamentais de 111 países transformaram a reunião do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), em curso em Estocolmo, em prévia da Conferência do Clima de Paris (COP21), marcada para 2015.

Desde a segunda-feira, os representantes políticos negociam com cientistas palavra a palavra do relatório. Até a noite dessa quarta-feira, 25, terceiro dia de discussões, pouco mais de 20% do documento havia sido debatido. As discussões ferrenhas foram relatadas ao Estado por integrantes do IPCC. A reportagem apurou que os debates se concentram na forma de apresentação, mais do que nas estatísticas, que têm sido preservadas.

Um exemplo foi a suposta "desaceleração" do aquecimento global nos 15 anos entre 1998 e 2012. Objeto de controvérsia internacional nas últimas duas semanas, o assunto foi debatido na terça. O documento preservará a informação de que "a taxa de aquecimento nos últimos 15 anos (1998-2012, de 0,05ºC por década) é menor do que a tendência desde 1951 (1951-2012, de 0,12ºC por década)". Mas, em troca da manutenção do tema, as divergências foram resolvidas com a inclusão de uma referência que fala sobre a insignificância científica do dado. "Tendências de curto prazo não são uma boa base para avaliar tendências de longo prazo", dirá o documento.

"Foi resolvido facilmente. Fica claro que há uma tendência de aquecimento global de longo prazo", diz um delegado governamental que pediu para não ser identificado. No início dos debates, países como Brasil e Alemanha chegaram a cogitar a retirada do tema do relatório final, mas aceitaram o acordo.

Maratona. Nessa quarta, delegados e cientistas se reuniram às 8h e invadiriam a madrugada desta quinta-feira, 26. "Está muito demorado, lento demais, uma surpresa", diz Suzana Kahn, presidente do comitê científico do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas e membro do IPCC. Há risco de que a entrevista coletiva final, prevista para as 10h de sexta-feira, seja mais uma vez adiada.

"Como está próximo do início das negociações do clima, todo mundo está sendo muito cuidadoso", diz Suzana. Para a pesquisadora brasileira, o IPCC de 2013 está antecipando as discussões do futuro acordo climático, que passará pela Conferência do Clima de Varsóvia, na Polônia, em novembro. "É uma reunião de negociação."

Vice-coordenador do IPCC, Jean-Pascal van Ypersele confirmou ontem, via Twitter, que os temas técnicos são objeto de acordo. "Cientistas do clima têm largo consenso em assuntos centrais: o aquecimento global é mais por atividades humanas e o clima vai continuar a aquecer, a menos que emissões de gases de efeito estufa sejam seriamente cortadas."

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