Kim Kyung-Hoon/Reuters
Kim Kyung-Hoon/Reuters

Ouro sem garantia não reluz

Campanha No Dirty Gold, de ONG americana, consegue a adesão de 70 empresas para a mineração responsável

Karina Ninni, O Estado de S. Paulo

29 de setembro de 2010 | 15h28

O passivo ambiental da exploração do ouro é conhecido: contaminação da água, do ar, degradação dos solos, geração de resíduos tóxicos e conflitos com populações locais são algumas das faces indesejadas da atividade. Apesar de afirmar que a confecção de um único anel gera 20 toneladas de resíduos, a ONG americana Earthworks está tentando mostrar que mineração e responsabilidade socioambiental não são antagônicas. Criou a campanha No Dirty Gold (Sem Ouro Sujo), que já teve a adesão de 70 mineradoras e joalherias.

 

“Achamos que é possível realizar exploração mineral sem tanto impacto para o meio e as pessoas. Não falamos de mineração ‘limpa’ ou ‘segura’, e sim mais responsável”, diz Payal Sampat, coordenadora da campanha.

 

Um dos focos da mobilização é a indústria de joias, que, segundo a ambientalista, recebe 80% do ouro explorado no mundo. “Se as pessoas soubessem do impacto, não usariam joias de ouro e repensariam suas escolhas. Por isso, trabalhamos com as mineradoras, as joalheiras e os consumidores”, diz Payal.

 

Uma das joalherias procuradas pela ONG é a Tiffany & Co., primeira a aderir aos padrões de mineração responsável preconizados pela campanha, as golden rules (regras douradas). Entre elas estão garantir que a prospecção não contaminará solo, água ou ar nem forçará comunidades locais a deixarem suas terras, além de arcar com os custos do encerramento e da limpeza das minas após a exploração.

 

“Nossos clientes confiam na marca, pois sabem que a empresa fará o que é correto. Mas acredito que hoje a questão ambiental pesa mais na hora da decisão da compra”, afirma Anisa Kamadoli Costa, vice-presidente corporativa de Responsabilidade Social da Tiffany.

 

Para o médico brasileiro radicado na Alemanha Sérgio Dani, é impossível falar em “mineração responsável” quando se trata de minas a céu aberto. Ele é a pedra no sapato da canadense Kinross, que explora ouro em Paracatu (MG) há 11 anos. O problema lá, de acordo com Dani, é a contaminação por arsênio.

 

“Dos 16 tipos de ouro encontrados na natureza, só 4 não ocorrem junto com o arsênio, que é tóxico e perigoso. Em Paracatu, para cada grama de ouro são retirados 2 quilos de arsênio”, diz Dani. Segundo ele, a população corre risco de envenenamento pela água e pela poeira que paira sobre a cidade.

 

O caso é objeto de uma ação civil pública no Ministério Público de Minas. A empresa afirma que sempre monitorou a presença de arsênio na água e os resultados não revelam concentrações capazes de causar danos à saúde da população./ COLABOROU AFRA BALAZINA

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