Os cinco erros apontados no relatório do IPCC

Problemas de revisão e cálculo são indicados na seção sobre derretimento de geleiras do Himalaia

Seth Borenstein, Associated Press

21 Janeiro 2010 | 14h12

Cinco erros gritantes foram descobertos em um parágrafo do relatório de maior autoridade do mundo sobre o aquecimento global, obrigando os cientistas do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), vencedor do Prêmio Nobel, a pedirem desculpas e prometerem ser mais cuidadosos. 

 

Os erros estão em um relatório de 2007 do IPCC, um organismo filiado à Organização das Nações Unidas (ONU). Todos os erros aparecem em uma subseção do estudo que sugere que as geleiras do Himalaia poderiam derreter completamente até o ano 2035 - centenas de anos mais cedo do que os dados realmente indicam. O ano de 2350, aparentemente, foi invertido para 2035. 

 

O IPCC e até mesmo o cientista que divulgou o erro disseram que os erros não são significativos em comparação com todo o relatório, nem foram intencionais. E eles não negam o fato de que, em todo o mundo, as geleiras estão derretendo mais rápido do que nunca.

 

Mas os erros abriram as portas para mais ataques de céticos das mudanças climáticas. "A credibilidade do IPCC depende do rigor com que os procedimentos sejam respeitados", disse o secretário da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, Yvo de Boer. "Os procedimentos foram violados no presente caso. Não se pode permitir que isso aconteça de novo porque a credibilidade da política de mudanças climáticas só podem ser baseadas em ciência credível." 

 

O incidente divulgado esta semana reabre uma polêmica do final do ano passado sobre um vazamento de e-mail em que cientistas do clima falavam sobre supressão de dados e chamando atenção de céticos do aquecimento global. E, além disso, o atual período de frio intenso no hemisfério norte fez algumas pessoas questionarem se o aquecimento global existe. 

 

Em um comunicado, o painel de cientistas lamentou o que chamou de "estimativas mal fundamentadas'' sobre as geleiras do Himalaia. "O IPCC estabeleceu uma reputação de ter um verdadeiro padrão de ouro na avaliação, e isso é uma infeliz mancha negra", disse Chris Field, um professor da Universidade de Stanford, que assumiu em 2008 a chefia dessa parte das pesquisas do IPCC. "Nenhum dos peritos disseram que esses números foram mal fundamentados. Da minha perspectiva, é uma área onde temos uma oportunidade de fazer muito melhor.'' 

 

Patrick Michaels, um cético do aquecimento global e intelectual do Cato Institute, uma organização libertária, convidou o chefe do IPCC, Rajendra Pachauri, a se demitir-se. "Eu gostaria de saber como essa afirmação absurda passou pelo processo de revisão. Está obviamente errada", acrescentou.

 

No entanto, um número de cientistas, incluindo alguns críticos do IPCC, disse que os erros não invalidam a principal conclusão de que o aquecimento global é, sem dúvida, provocado pela atividade humana e uma ameaça. Os erros não foram descobertos por céticos como Michaels, mas por alguns dos próprios cientistas - inclusive um deles é co-autor do relatório do IPCC. 

 

O relatório em questão é o segundo de quatro emitidos pelo IPCC em 2007, sobre o aquecimento global. Este documento de 838 páginas teve capítulos sobre cada continente. Os erros estavam em uma seção do capítulo sobre a Ásia. A seção entendia erroneamente a forma como rapidamente os milhares de geleiras no Himalaia estão derretendo, disseram os cientistas. 

 

"É uma seção escrita de má qualidade", disse Graham Cogley, um professor de geografia e geleiras na Trent University, em Peterborough, no Canadá, que trouxe o erro à atenção de todos. "Não foi revisado corretamente."

 

Cogley escreveu uma carta sobre os problemas à revista "Science", publicada na internet na quarta-feira. já estes erros. O IPCC diz que "as geleiras do Himalaia estão derretendo mais rápido do que em qualquer outra parte do mundo". Mas Cogley e Michael Zemp, do Sistema Mundial de Monitoramento das Geleiras, disseram que as geleiras do Himalaia estão derretendo aproximadamente à mesma taxa de outras geleiras. 

 

O relatório também diz que, se a Terra continuar a se aquecer, a probabilidade de que as geleiras desapareçam "por volta de 2035 ou até mais cedo é muito elevada". " Em nenhum lugar da literatura científica é mencionado o ano de 2035. No entanto, existe um estudo da Rússia que diz que as geleiras poderiam chegar perto de desaparecer em 2350. Provavelmente, os números da data foram invertidos", disse Cogley. 

 

Outro parágrafo do relatório diz: "A sua área total provavelmente diminuirá dos atuais 500.000 para 100.000 quilômetros quadrados no ano de 2035". Para Cogley, há apenas 33.000 quilômetros quadrados de geleiras no Himalaia. 

 

O parágrafo inteiro é atribuído ao World Wildlife Fund (WWF), quando, na verdade, apenas uma frase veio do WWF, de acordo com Cogley. E mais: o IPCC gosta de dizer que seus estudos são baseados em verificação da ciência pelos seus pares, não em relatórios de grupos de defesa. Mas Cogley disse que o WWF citou a ciência popular como sua fonte. 

 

Uma das tabelas mostra que, entre 1845 e 1965, a geleira Pindari encolheu 2.840 metros. Em seguida, há um erro de matemática: o relatório diz que isso representa uma taxa de diminuição de 135,2 metros por ano, quando realmente essa taxa é de apenas 23,5 metros por ano.

 

"Estou convencido de que a grande maioria dos trabalhos relatados no IPCC era confiável e ainda é agora, como era antes da detecção do erro", afirmou Cogley, ainda assim. Ele deu crédito ao climatologista John Nielsen-Gammon, do estado do Texas, nos Estados Unidos, como a pessoa que lhe contou sobre os erros.

No entanto, o professor de ciência ambiental e política da Colorado University, Roger Pielke Jr., disse que os erros apontam para uma a uma "avaria sistemática nos procedimentos do IPCC", o que significa que poderia haver mais erros. 

 

Alguns cientistas apontaram que, ao final, ninguém está questionando se as geleiras do Himalaia estão encolhendo. "O que está acontecendo agora é comparável com o Titanic afundar mais lentamente do que o esperado", disse Yvo De Boer. "Mas isso não altera as conseqüências inevitáveis, a menos que medidas rigorosas para reduzir as emissões de gases com efeito de estufa sejam tomadas."

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