Washington Alves/Estadão
Professor Paulo Christiano Garcia, pesquisador que encontrou rã desaparecida no Parque Nacional de Itatiaia.  Washington Alves/Estadão

Os bichos ressurgiram: tartaruga, marsupiais e anfíbios que estavam desaparecidos voltam à cena

Diabo-da-Tasmânia selvagem e possível centenária de Galápagos ganharam destaque porque podem recuperar populações de espécies consideradas extintas; no Brasil, pesquisadores localizam animais desaparecidos e procuram 'sumidos'

Pablo Pereira, O Estado de S.Paulo

05 de junho de 2021 | 05h00

Cientistas têm encontrado bichos que se pensava estarem extintos na natureza, despertando interesse mundo afora. Animais raros como o diabo-da-Tasmânia (Sarcophilus harrisii) em estado selvagem, um mamífero marsupial da Austrália, e uma tartaruga de Galápagos (Chelonoidis phantasticus), “queridinha sumida” dos seguidores do naturalista britânico Charles Darwin, deram as caras no mês passado como recém-nascidos e reservados anciãos. As surpresas não param aí. Recentemente, pesquisadores brasileiros localizaram animais que estavam desaparecidos em algumas áreas do País.

Um estudo de pesquisadores de herpetologia do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) do Departamento de Zoologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) no Parque Nacional de Itatiaia, Rio de Janeiro, concluído em 2020, revelou o “ressurgimento” da rãzinha-verrugosa-da-serra-de-luederwaldt (Holoaden luederwaldti). O pequeno anfíbio, coberto de bolinhas, não era visto naquele local desde 1957. 

A rã mede entre três a cinco centímetros e integra a lista nacional das espécies ameaçadas de extinção do Instituto Chico Mendes de Conservação e Biodiversidade (ICMBio). É avaliada como “espécie com dados insuficientes”. “A gente acreditava que ela não existisse mais no Parque Nacional de Itatiaia”, diz Paulo Christiano de Anchietta Garcia, que coordenou o estudo, financiado pelo CNPq e pela organização internacional The Mohamed bin Zayed Species Conservation Fund, dos Emirados Árabes, ao lado da pesquisadora Bárbara Zaidan. 

A descoberta  ocorreu em área de divisa entre os municípios de Itamonte (MG) e Itatiaia (RJ) no Parque Nacional do Itatiaia, área de morros (entre Rio e Minas Gerais). O cientista explicou que há registros da presença desse pequeno animal em outros locais do Brasil, mas a rãzinha não era vista no parque havia 60 anos.

“Agora, vamos para outra fase do projeto para tentar entender o desaparecimento mesmo dentro de ambientes ainda íntegros”, explica o pesquisador. A proposta é aumentar a área de busca dentro e fora do parque para avaliar se o animal é da mesma espécie de anfíbios encontrados em outras áreas de mata e se há possibilidade de ampliação da população.

Antes da rãzinha-verrugosa-da-serra-de-luederwaldt, outra espécie, igualmente desaparecida na região por décadas, a Hylodes regius, havia sido encontrada pelo projeto “Diversidade desaparecida - procura de espécies de anfíbios consideradas desaparecidas no Parque Nacional de Itatiaia”, coordenado por Garcia na pós-graduação em Zoologia e em Ecologia, Conservação e Manejo da Vida Silvestre.

Segundo o professor, há histórico de ocorrência da espécie desde São José dos Campos, mais precisamente São Francisco Xavier, municípios paulistas, até Itamonte (MG). “Já estava sendo considerada extinta no parque. De 2009 para cá, tivemos registros da espécie em Sapucaí Mirim e Campos do Jordão e em outras localidades do nordeste e no sul de Minas, na Serra da Mantiqueira”, afirma.

Diabo e tartaruga

Para o cientista Paulo Garcia, as localizações de animais que se supunha estarem perdidos para sempre na natureza são fatos científicos importantes. No caso da tartaruga de Galápagos, porém, a localização de um único indivíduo não pode ser vista como recuperação da espécie. 

“Encontrar uma tartaruga não significa que a espécie não está extinta, porque se ele não tem como se reproduzir, não está formalmente extinto, mas quando esse representante morrer, ela estará, sim, extinta”, afirma. “Uma espécie extinta, que foi redescoberta, com base num único indivíduo?”, questiona. “Precisamos ver se há condições de reprodução”.

Já Luís Fábio Silveira, ornitólogo do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo, o caso da reprodução do diabo-da-Tasmânia na Austrália não se qualifica como um caso de extinção porque a espécie, de fato, nunca desapareceu por completo. “Na Austrália continental, a espécie havia sido extinta há 3.000 anos e os exemplares que foram reintroduzidos lá se reproduziram, como esperado. Nada de mais, mas sempre uma boa notícia”, diz o pesquisador do Museu de Zoologia da USP.

Para Silveira, o caso da tartaruga de Galápagos é o que chama mais atenção. “Sim, é um fato notável”, afirma. “É um caso clássico de uma espécie que era dada como extinta e que um indivíduo foi reencontrado”. Mas ele faz uma ressalva: “Do ponto de vista técnico, apenas um indivíduo não ajuda muito, porque a possibilidade dessa espécie se reproduzir é nula, a não ser que seja uma fêmea grávida”, pontua. “Aponta para a possibilidade de procurar por novos indivíduos remanescentes no mesmo habitat onde este animal foi encontrado”.

Sumiço da pararu-espelho

Silveira é um estudioso da vida animal e um especialista em aves. Na última semana de abril, com um grupo de cientistas, publicou um artigo na revista científica Frontiers in Ecology and Evolution sobre um raro pombo de floresta, a pararu-espelho (Paraclaravis geoffroyi). Esta ave da região da Mata Atlântica não é vista na natureza pelo menos desde os anos 1990. 

“Os registros inequívocos da presença dessa espécie na natureza datam da década de 1990. Depois disso, mais nada”, afirma o pesquisador do Museu de Zoologia, que assina a pesquisa com colegas. Os dados atuais e as modelagens apontam para uma situação crítica da espécie.

A ave tem como preferência ambientes com a presença de bambu, que fornece alimento para a espécie com sementes, floração e brotos.

“As principais áreas de ocorrência foram bastante trabalhadas, sem sucesso em encontrar a ave. Há algumas poucas áreas que não suficientemente inventariadas no Brasil e na Argentina, e que eventualmente podem abrigar alguns poucos indivíduos. Mas, dado o esforço de busca e os dados que temos disponíveis, a espécie deve ser considerada como provavelmente extinta”, diz o cientista. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

‘Pandemia não acontece só com a gente’, diz pesquisador

Paulo Garcia, que estuda anfíbios no Parque Nacional de Itatiaia, explica que 'sumiço' de espécies pode estar relacionado à fragmentação ambiental, entre outros fatores

Pablo Pereira, O Estado de S.Paulo

05 de junho de 2021 | 05h00

A localização de animais que ficaram muito tempo desaparecidos é mais comum do que pode parecer. A opinião é do pesquisador Paulo Garcia, que estuda anfíbios no Parque Nacional de Itatiaia, onde encontrou um exemplar da rãzinha-verrugosa-da-serra, que não era vista naquela área desde 1957. 

O sr. acaba de coordenar um estudo que localizou uma pequena rã que não era vista no Parque Nacional de Itatiaia desde 1957. Outros pesquisadores também anunciaram descobertas semelhantes. O que está acontecendo?

Olha, o que está ocorrendo, aqui no Brasil, com anfíbios, que a gente tem redescoberto algumas espécies, é basicamente duas coisas: primeiro, o que a gente chama de viés de pesquisa. Mesmo os pesquisadores mais experientes, sempre que a gente vai buscar informação, a gente vai no local onde a espécie foi encontrada. E o que acontece, em muitos casos, é que no local, por alguma razão, a espécie desapareceu. Mas isso não quer dizer que ela esteja desaparecida totalmente. Ela pode ter tido um declínio no local. O que falta, às vezes, é aumentar o viés de procura. Examinar áreas próximas, mas que não sejam aquelas originais. Então, o que ocorre, às vezes, é um erro amostral, do próprio pesquisador, que tende a buscar sempre no local da última vez que localizou o animal e não expande a área.

E o outro motivo?

A outra coisa é que eventualmente você conhece populações abundantes, mas acontece alguma coisa com eles, que entram em declínio, com redução de indivíduos. E não se encontra mais os animais. Mas essas populações podem retomar o crescimento e reaparecer. É o que chamamos de flutuação populacional. Isso é comum em várias espécies. Um ano mais seco, alterações do ambiente. Isso varia também no tempo, pode ser cinco anos, dez anos, 20 anos. E, de repente, a população começa a se recuperar e eles voltam. Isso é comum e natural acontecer.

O sr. está acompanhando algum projeto por agora?

Sim. É para essa espécie mesmo. A gente está com um projeto sendo construído para várias áreas. Estamos mapeando, com programas para áreas propícias, que terão planos para colocar equipamentos, como gravadores, câmeras, para monitorar. Porque também há o caso de você ir naquele período e o bicho não está ativo ali. Na natureza, é difícil ter precisão sobre quando vai encontrar.

É fundamental manter os hábitats, então?

Com certeza. E esse é o grande problema. Muitos desses declínios têm sido gerados por fragmentação ambiental, acesso de pessoas, aumento de caça, de doenças. Esta, inclusive, é uma das hipóteses do sumiço no Itatiaia. Um fungo que atacou anfíbios em todo o mundo é uma das hipóteses que estamos verificando para explicar o declínio ou extinção de espécies daquela área. São hipóteses. As pandemias não acontecem somente com a gente. E isso é gerado, em parte, por ação humana. Fazer ciência não é fácil. Há ainda problemas de falta de recursos para trabalho de campo. Muitas vezes as agências de fomento querem respostas mais rápidas. E não permitem monitoramento de longa duração.

O que está sendo feito agora?

Estamos entrando em contato com equipes que trabalham no parque, pessoal que trabalha com turismo de montanhas, das trilhas, para dar cursos e palestras mostrando a importância disso. Para que eles nos ajudem a monitorar e localizar. É uma forma de atrair a comunidade a participar também.

Isso funciona, é novidade, professor?

Na realidade, mais recentemente, o turismo de montanha, de trilhas, tem explodido no parque. Com ajuda dos parques, esse pessoal também nos ajuda. E a gente começou a juntar essas coisas. Eu mesmo vou para lá daqui duas semanas. E vamos conversar com donos dos sítios e fazendeiros da região. Eles já estão lá e podem nos ajudar a colocar os equipamentos, proteger os equipamentos, eventualmente trocar as baterias dos equipamentos. E eles vão participando. É importante a política de parques e também a comunidade local.

Quanto custa um estudo desses?

O custo é alto. Mas depende do que você quer exatamente. E do tempo do estudo. Tem alimentação, deslocamento, permanência do pesquisador no local, equipamentos. E os custos de análise, de laboratório. Hoje, com análise molecular, você consegue precisar a origem de cada indivíduo. Se pertence à mesma espécie de indivíduos de outra região, da Serra da Mantiqueira, sul de Minas Gerais. Se existe ligação gênica entre os indivíduos de São Paulo com os de Itatiaia. Para saber se são da mesma espécie, se podemos colocar juntos para se reproduzir, para uma eventual repovoação da espécie. Então, o custo pode ir de R$ 10 mil a R$ 100 mil por ano. Mas o primeiro passo é identificar as áreas e tentar proteger esses ambientes. Para depois fazer os estudos.

Há recursos para esse tipo de pesquisa?

Sim. Há recursos. O meu primeiro projeto foi mantido por uma instituição estrangeira. Isso despertou interesses aqui no Estado. Agora temos um projeto submetido à Fapemig (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais) em avaliação. Se aprovado, teremos recursos para outra etapa da pesquisa. Há fundações que estão sendo criadas no País. Mas ainda é pouco para a iniciativa privada. Quase tudo é recurso de governo. O País precisaria ter mais participação das empresas, da iniciativa privada.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.