Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Organização dos EUA afasta tese de que navio grego é o responsável por derramamento de óleo

Especializada em análises do mar via satélite, Skytruth diz que não há evidências de que o Bouboulina seria responsável pelo vazamento e empresa nega ser responsável pelo episódio. Governo não comentou o assunto

André Borges, O Estado de S.Paulo

13 de novembro de 2019 | 17h55

BRASÍLIA - O navio-tanque Bouboulina, embarcação da empresa grega Delta Tankers apontada pela Polícia Federal e Marinha como o principal suspeito pelo desastre do derramamento de óleo no litoral brasileiro, não figuraria entre os principais alvos que teriam originado o derramamento. A conclusão é da organização americana Skytruth, empresa especializada em análises do mar via satélite e que reúne, entre seus fundadores, diversas empresas e organizações, como Google e Oceana.

No dia 2 de novembro, a Polícia Federal deflagrou a “Operação Mácula” e cumpriu mandados de busca e apreensão em duas empresas no Rio - na Lachmann Agência Marítima e na Witt O Brien’s - que teriam relação com a empresa grega. A Delta Tankers negou ser autora da tragédia e se dispôs a colaborar com as investigações brasileiras. O governo divulgou o nome da empresa grega e, ao menos por enquanto, não voltou atrás em relação a essa posição na investigação.

Em entrevista exclusiva ao Estado, o presidente da Skytruth, John Amos, afirmou que, depois de analisar todas as informações divulgadas pelas instituições brasileiras sobre o assunto e de confrontar os dados técnicos com as investigações feitas pela instituição, que está baseada em Novo México, nos Estados Unidos, concluiu que não há evidência efetiva de que o óleo teria sido derramado pelo Bouboulina, como acusa a investigação da PF e Marinha.

“Não vemos por que o Bouboulina é considerado a provável fonte de óleo que vem lavando as praias do Brasil desde o início de setembro”, disse John Amos.

As análises sobre a embarcação, segundo a Skytruth, mostram que o Bouboulina transmitiu, de forma regular e sem interrupções, todas as informações de sua faixa de AIS (sigla de Automatic Identification System, um sistema de monitoramento de embarcações usado internacionalmente), depois que deixou o Porto de Jose, na Venezuela, onde teria abastecido seu tanque com uma carga de petróleo bruto. “Alguns desses navios não transmitem consistentemente um sinal de rastreamento público, o que é uma violação do direito marítimo internacional, mas o Bouboulina transmitiu essas informações”, afirma Amos.

A investigação da entidade mostra que a trilha percorrida pelo Bouboulina passou pela costa norte do Brasil, permanecendo principalmente em águas internacionais e chegando a menos de 150 milhas náuticas (278 km) da costa. O navio seguiu pelo oceano Atlântico até chegar ao porto na Cidade do Cabo, na África do Sul. O percurso, segundo a Skytruth, foi feito de forma estável e sem alterações de velocidade ou direção que pudessem indicar comportamento suspeito ou um grande problema mecânico. “Não há lacunas no sinal de rastreamento que possam ocultar comportamentos incomuns”, apontam os dados da organização.

A Skytruth também questiona as imagens de satélite divulgadas pelas investigações brasileiras, que mostrariam uma grande mancha de óleo na área pela qual o Bouboulina passou ao atravessar a costa do Brasil. Na avaliação dos especialistas americanos, a imagem não indica a presença de óleo. “Há padrões da cor do oceano que normalmente indicam variações na concentração de clorofila na água, o que é bastante comum em águas dinâmicas, onde duas principais correntes oceânicas se juntam. Não vemos nenhuma indicação de uma grande mancha de óleo nessas imagens.”

A origem do óleo, para a empresa, segue desconhecida. Não se descarta a possibilidade de um naufrágio, de derramamento de uma embarcação ou mesmo o vazamento de um poço, por causa de falha ou perda de controle durante a perfuração. Essa última possibilidade, porém, lembra a organização, contradiz as declarações do governo de que o petróleo seria uma combinação química de petróleo venezuelano, e não brasileiro.

“É por isso que pensamos que os dados da análise química realizada em amostras de óleo retiradas das praias devem ser divulgados”, afirmou Amos. “Esses dados devem ser disponibilizados para especialistas em todo o mundo, que poderão fornecer assistência para identificar uma fonte e confirmar as declarações feitas pelas autoridades brasileiras.”

Na semana passada, uma análise da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) realizada a partir da plataforma Marine Traffic, provedora mundial de trajetórias de navios, também indicou que o vazamento de óleo bruto não teria sido causado pelo petroleiro grego, como aponta o governo brasileiro, mas sim por um navio fantasma, que costuma desligar seu sistema de rastreamento por satélite para não ser detectado pelas autoridades.

O Estado questionou a Marinha sobre os apontamento da Skytruth e, por enquanto, não houve um posicionamento. A empresa de Brasília que apoiou as investigações brasileiras e apontou o Bouboulina como a origem do derramamento, a Hex Tecnologia Geoespacial, também foi procurada, mas não se manifestou sobre o assunto.

Em nota, a Petrobrás informou que "não faz parte da investigação sobre a ocorrência que originou o vazamento de óleo no litoral nordestino". A empresa reafirmou que as "análises realizadas no Centro de Pesquisas da Petrobras (Cenpes) indicam que o óleo coletado tem características compatíveis com os óleos provenientes de campos da Venezuela". "A Petrobras reitera que este óleo não é produzido nem comercializado pela companhia", declarou.

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