Orgânicos, uma decisão pelo futuro
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Orgânicos, uma decisão pelo futuro

Incentivo ao consumo de produtos cultivados sem agrotóxicos enfrenta várias barreiras

Estadão Blue Studio, O Estado de S.Paulo

15 de junho de 2022 | 06h00

Há uma série de dificuldades para a maior inserção de alimentos orgânicos na dieta dos brasileiros. Uma delas é o desconhecimento ou a falta de importância dada ao assunto por parte da população, o que exige campanhas constantes de conscientização e divulgação dos benefícios. Outra é a dificuldade de acesso, pois o abastecimento com orgânicos exige uma logística mais frequente de ida aos locais de compra ou de entrega em domicílio. Por fim, e esta provavelmente é a questão mais relevante no momento, está o aperto no orçamento das famílias. 

A crise econômica é uma forte adversária da alimentação saudável – que, em geral, é mais cara, aponta Rafael Zavala, representante no Brasil da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura. “Com a pandemia, 20% da população da América Latina trocou alternativas saudáveis por outras menos saudáveis ou nem um pouco saudáveis, como os alimentos ultraprocessados”, observa o dirigente da ONU. A perspectiva para os próximos anos não é das melhores. A projeção é de que os países da América Latina e do Caribe cresçam apenas 2,5% em 2022 e 2023, o que fará a participação dessa região na economia global cair de 7,6% em 2019 para 7% em 2023, com inflação também acima da média global, fatores que corroem o poder de compra da população.  

O abandono da alimentação saudável traz riscos graves à saúde. Entre as consequências do consumo excessivo de ultraprocessados, estão obesidade, diabete, hipertensão, asma, depressão, doenças cardiovasculares e cânceres, lembra a nutricionista Maria Alvim, doutora em Saúde Coletiva e pesquisadora do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da Universidade de São Paulo (Nupens/USP).

Pesquisa do Nupens estabeleceu uma relação clara entre o maior consumo de ultraprocessados e o aumento da incidência de obesidade nas capitais brasileiras, que quase dobrou no período entre 2006 e 2020, passando da média de 11,8% para 21,5% da população. Para a nutricionista, é fundamental tornar a alimentação saudável mais acessível aos consumidores, com estratégias de todos os níveis governamentais e da iniciativa privada para que esses produtos possam chegar mais baratos à mesa dos brasileiros. Do outro lado, afirma a especialista, os alimentos ultraprocessados têm de ser submetidos a restrições e barreiras. “A produção, o comércio e o marketing desses alimentos precisam ser regulamentados.” 

Algumas das estratégias sugeridas pela pesquisadora são a implementação de rotulagem frontal de advertência nas embalagens dos produtos ultraprocessados, alertando para o risco associado ao consumo excessivo desses alimentos; a taxação (assim como ocorre com o cigarro); a restrição de propagandas, principalmente aquelas voltadas ao público infantil; e a proibição da venda desses produtos em locais estratégicos, como escolas. “Uma coisa que acontece, e que jamais deveria acontecer, é o subsídio do governo à produção desses alimentos. E claro que deve haver políticas no sentido contrário, relacionadas ao incentivo à produção, distribuição e venda de alimentos saudáveis, in natura ou minimamente processados”, descreve Maria Alvim.

A nutricionista lembra, ainda, que a reformulação dos alimentos ultraprocessados é apenas um paliativo, mas está longe de ser uma solução. “Apesar da possibilidade da redução de alguns ingredientes, como açúcar, sal e gorduras, os ultraprocessados reformulados continuam cheios de ingredientes químicos cosméticos, como saborizantes, texturizantes e emulsificantes, e seguem tendo muito pouco ou quase nada dos alimentos originais em sua compo­sição.”

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