WILTON JUNIOR / ESTADÃO
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Operação de engenharia tenta resgatar um dos símbolos do Império no Rio

Engenheiros buscam salvar o último exemplar da árvore do imperador, cujos frutos eram apreciados por d. Pedro I e d. Pedro II

Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

13 de abril de 2022 | 05h00

RIO - Dois engenheiros florestais se uniram para salvar o único exemplar centenário catalogado da árvore do imperador (Chrysophyllum imperiale) no Rio. A espécie é considerada criticamente ameaçada de extinção. Seu último indivíduo, localizado no Campo de Santana, no centro, apresentava rachaduras em dois galhos que ameaçavam sua integridade. A árvore foi plantada pelo paisagista francês Auguste François Glaziou (1828-1906), responsável por projetos de parques criados pela Corte portuguesa no País.

No mês passado, o engenheiro florestal Sydney Brasil, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), escalou os mais de 12 metros da árvore para fazer um cabeamento. É uma espécie de sustentação das rachaduras com cabos de aço, para evitar o avanço de danos. O próprio Sydney havia identificado o problema já em 2019. Na ocasião, ele esteve no Campo de Santana a convite do colega Flávio Telles, que trabalhava na Fundação Parques e Jardins da prefeitura carioca.

“Como a árvore é de interesse histórico, muito rara e ameaçada de extinção, ele me pediu para escalar e dar uma olhada para ver se havia alguma frutificação”, explicou Brasil. “Não havia frutificação, mas aproveitei para fazer uma avaliação da copa e encontrei duas cavidades na madeira, o que enfraquece os galhos e, eventualmente, pode levar à morte da árvore.”

Também conhecida como guapeba imperial e marmeleiro-do-mato, a árvore foi originalmente descrita pelo alemão Friedrich Von Martius (1794-1868). O naturalista chegou ao Brasil em 1817 na comitiva da arquiduquesa austríaca Leopoldina, futura mulher de dom Pedro I. A planta, originária da Mata Atlântica no Rio de Janeiro, foi premiada em algumas exposições internacionais. Tornou-se símbolo da luxuriante vegetação dos trópicos.

A convite de dom Pedro II, o paisagista francês Glaziou chegou ao Rio em 1858. Veio coordenar a diretoria de Parques e Jardins da Casa Imperial. Foi responsável por vários projetos, como o do Passeio Público, do Palácio do Catete e da Quinta da Boa Vista. Em 1871, foi encarregado de criar o Campo de Santana. É a maior área verde no centro, palco de momentos históricos do País. Foi onde se deu, poucos anos depois, a Proclamação da República.

O francês sabia da admiração da família real pela árvore. Por isso, fez questão de colocar pelo menos um exemplar em cada jardim que projetou. Consta que tanto Pedro I quanto Pedro II gostavam muito do fruto da árvore do imperador. É similar ao abiu, da família do sapoti, com casca amarela e polpa translúcida e muito doce. “Não é tão incomum quanto parece, muitas frutas se perdem ao longo do tempo”, afirmou Flávio Telles, diretor regional da Sociedade Brasileira de Arborização Urbana. “Muita gente come acerola e se esquece da pitanga, que também tem muita vitamina C e é mais saborosa. Comemos jabuticaba, mas esquecemos da grumixama, muito parecida.”

Dom Pedro II tornou-se uma espécie de embaixador da árvore. Enviou mudas para vários países. Atualmente, existem exemplares catalogados nos jardins botânicos de Sidney, Lisboa, Buenos Aires, Bruxelas e Florença.

A destruição da Mata Atlântica e o crescimento desordenado da cidade contribuíram para o desaparecimento da árvore, que foi se tornando cada vez mais rara. Acredita-se, sem base documental, que depois da Proclamação da República muitos exemplares teriam sido derrubados propositalmente. O motivo é que teriam se tornado uma espécie de símbolo do Império derrubado em 1889.

“Eu pesquiso a história da arborização do Rio e não encontrei nenhuma fonte histórica afirmando isso, embora seja a história que se conta”, explicou Telles. “Com a reabertura do Arquivo Nacional e do Arquivo da Cidade, terei a chance de retomar a minha pesquisa”, disse.

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