ONU suspende planos de 'fertilizar' oceanos para absorver CO2

Quase 200 países acertaram nasexta-feira a suspensão do projeto de acrescentar nutrientesaos oceanos para combater o aquecimento global ao incentivar ocrescimento de algas que absorvem gás carbônico. O acordo inesperado surgiu 12 dias depois de discussõestravadas em uma conferência da Organização das Nações Unidas(ONU) chamada Convenção sobre Diversidade Biológica. O Brasil,a Austrália e a China opuseram-se à adoção da medida, barrandoo polêmico plano da "fertilização dos oceanos". Os adversários da idéia argumentam que o processo poucotestado implica riscos desconhecidos que poderiam ameaçar avida marinha ao tornar os oceanos, por exemplo, mais ácidos. Osdefensores do plano dizem que ele poderia representar uma novaarma na luta contra o aquecimento global. O ministro alemão do Meio Ambiente, Sigmar Gabriel, quepresidiu as negociações, anunciou o acordo no último dia daconferência, em meio à qual cerca de 5.000 delegados de 191países tentaram chegar a um consenso sobre formas de proteger avida animal e vegetal em terra firme. "Trata-se de uma idéia muito estranha a de que a tecnologiapode solucionar tudo. Isso é muito arriscado e mostra o que osseres humanos estão dispostos a fazer. Fico feliz com o fato determos chegado a uma moratória de fato", afirmou o ministro arepórteres. Durante a conferência, delegados e ambientalistasdeclararam por diversas vezes que as ações da humanidade e aemissão de gases do efeito estufa provocavam o mais grave surtode extinção de seres vivos desde que os dinossaurosdesapareceram da face da Terra, 65 milhões de anos atrás. Três espécies desaparecem a cada hora, afirmaram. Esse fatopossui graves consequências econômicas e serviu para aumentarainda mais a inquietação gerada pelo recente e acentuadoaumento do preço dos alimentos -- especialistas afirmam que afauna e a flora selvagens são essenciais para asustentabilidade de longo prazo das safras. Segundo Gabriel, a conferência havia tido sucesso aocolocar a questão da biodiversidade na agenda política devários países. Na opinião de ativistas, no entanto, o progressonessa área caminha de forma lenta demais. LESMA "A cúpula de biodiversidade da ONU avança de centímetro emcentímetro como uma lesma, e isso enquanto os animais e asplantas vêm sendo eliminados a uma grande velocidade", disseMartin Kaiser, chefe da delegação do Greenpeace no encontro,realizado em Bonn. A moratória sobre o plano de fertilização dos oceanosrepresentava uma das poucas áreas em que algum tipo de medidafoi adotado. Os delegados aprovaram um documento que, segundo disseram,seria repassado à Convenção de Londres para oferecer diretrizesa respeito da questão da fertilização. A Convenção de Londres,que regulamenta o despejo de materiais nos mares, diz que afertilização dos oceanos só deveria ser iniciada quando oscientistas conseguirem determinar melhor o impacto dessamedida. Várias empresas tentam desenvolver a idéia, e a Climos, dosEUA, avalia a possibilidade de colocar enchimentos de ferro nosoceanos a fim de incentivar o crescimento das algas. Entre as outras possibilidades aventadas, inclui-se a deadicionar à água grandes quantidades de nitrogênio, umingrediente usado em muitos fertilizantes para o solo. Um risco citado é o de que o dióxido de carbonoacrescentado aos mares os tornará mais ácidos, fazendo com queostras, caranguejos e lagostas tenham maior dificuldade paraformar suas carapaças protetoras. Isso tornaria esses animais mais vulneráveis à ação depredadores e interromperia a cadeia alimentar dos oceanos. "Parece que houve um reconhecimento dos riscos envolvidosna reengenharia dos oceanos e do fato de que isso poderia criarum precedente perigoso. Alguns delegados ficaram horrorizadosao ouvir a respeito desse plano", disse à Reuters Pat Mooney,da entidade ambientalista ETC Group.

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