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IPCC: planeta vai esquentar 1,5ºC uma década antes do previsto e terá eventos climáticos extremos

Painel Intergovernamental sobre o Clima (IPCC) mostra que janela de oportunidade para limitar efeitos dessas mudanças está se fechando; secas e queda da produção agrícola são problemas esperados para o Brasil

Emilio Sant’Anna , O Estado de S.Paulo

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A Terra está esquentando mais rápido do que era previsto e se prepara para atingir 1,5ºC acima do nível pré-industrial já na década de 2030, dez anos antes do que era esperado. Com isso, haverá eventos climáticos extremos em maior frequência, como enchentes e ondas de calor. A mensagem clara foi dada nesta segunda-feira, 9, pelo Painel Intergovernamental sobre o Clima da ONU (IPCC).

O que faremos imediatamente com essa informação irá definir o tamanho do impacto na vida de 7,6 bilhões de pessoas no planeta. Certo é que os efeitos do aquecimento virão. A redução sustentada nas emissões de dióxido de carbono (CO2) e outros gases de efeito estufa, no entanto, ainda pode limitar as ameaças dessas mudanças climáticas.  Caso contrário, alguns dos efeitos diretos para países como o Brasil serão secas mais frequentes e a queda na capacidade de produção de alimentos.

Desde 1850, já avançamos ao menos 1,1ºC na média da temperatura global. Mais de 0,4ºC de aumento irá produzir número maior de secas severas, ondas de calor, chuvas torrenciais, enchentes, tornados, incêndios florestais e reforçar a tendência de aumento do nível do mar. Todos esses efeitos já ocorrem em nível superiores aos do passado.

A lista, no entanto, vai além e a frequência desses eventos extremos está diretamente ligada ao quanto nós veremos a Terra esquentar neste século. Ou seja, ainda resta uma “janela de oportunidade”, cada vez menor, para tentar limitar o aquecimento abaixo de 2ºC até 2100, como definido no Acordo de Paris em 2015 (pacto assinado por quase todos os países para conter o aquecimento do planeta). A postura negacionista de autoridades - como o presidente brasileiro Jair Bolsonaro e o ex-líder americano Donald Trump - tem sido apontada por especialistas como um dos principais obstáculos. 

"Já sabemos há décadas que o mundo está esquentando, mas o relatório nos diz que mudanças recentes no clima são disseminadas, rápidas e se intensificam, de maneira sem precedentes em milhares de anos", afirmou Ko Barrett, vice-presidente do painel. O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, disse que o documento é um "alerta vermelho" para a humanidade. 

O caminho seguro é um só: limitar o gás carbônico (CO2) na atmosfera, atingindo pelo menos zero líquido de emissões (saldo das emissões descontada a absorção do carbono), juntamente com grandes reduções em outras emissões de gases do efeito estufa. O Acordo de Paris prevê zerar as emissões líquidas até 2050. “Damos conta de apontar a situação de acordo com a ciência. Se isso pode ou vai ser feito cabe aos tomadores de decisões”, diz Paulo Artaxo, autor-líder de um dos capítulos do relatório do IPCC e professor da Universidade de São Paulo (USP).

O motor do aquecimento está na queima de combustíveis fósseis, como petróleo, gás e carvão mineral, por veículos a combustão e usinas termoelétricas, e a consequente produção de CO2. Mas não só: o metano (CH4) e óxido nitroso (N2O), resultantes de atividades agropecuárias, compõem a trinca do efeito estufa. Some-se a isso a produção de aerossóis.

Os 234 cientistas de 66 países reunidos pelo IPCC produziram um relatório com mais de 14 mil referências citadas, com um total de 517 contribuições de outros autores. No documento, o Painel é taxativo: “É um fato estabelecido que a influência humana aqueceu o sistema climático e que mudanças climáticas generalizadas e rápidas ocorreram”.

“É importante observar que nas últimas duas semanas foram publicados artigos científicos muito contundentes, e que não foram considerados neste relatório, mostrando que estamos muito próximos desse ponto. O relatório aponta que é fato”, diz Mauricio Voivodic, diretor executivo do WWF-Brasil. “O relatório subiu muito o tom da mensagem.”

A essas evidências científicas somam-se catástrofes causadas por eventos extremos atuais, como a onda de calor no Hemisfério Norte com temperaturas recordes em países como o Canadá. Na Turquia, isso chegou a um nível de 8°C superiores à média e um forte incêndio atingiu as florestas do país. Na Alemanha, enchentes devastaram cidades. Tudo isso em meio à pior crise sanitária dos últimos cem anos causada pela pandemia de covid-19

Embora não seja objeto do relatório, diversas pesquisas também vêm apontando a relação entre desmatamento e alterações do equilíbrio ecológico com o surgimento de novas doenças. Danos ambientais, portanto, podem nos impor novas pandemias à humanidade. 

Cenários futuros

A forma como as pessoas já percebem e como experimentarão tamanhas alterações no clima dependem de fatores regionais. Atualmente, o aquecimento em terra é maior do que a média global e é mais do que o dobro no Ártico, por exemplo. O IPCC apresenta de forma detalhada os cenários futuros para cada uma das grandes regiões do planeta. Com 1,5ºC ou até 3ºC acima dos níveis pré-industriais regiões como o Hemisfério Norte o Ártico sofreriam impactos maiores do que outras áreas.

O relatório também projeta cenários futuros possíveis decorrentes do aumento da temperatura global em curto, médio e longo prazos. Entre as menos impactantes estão, por exemplo: “A temperatura da superfície global continuará a aumentar até pelo menos meados do século em todos os cenários de emissões considerados. O aquecimento global de 1,5° C e 2° C será ultrapassado durante o século 21, a menos que profundas reduções de CO2 e outras emissões de efeito estufa emissões de gases ocorrerão nas próximas décadas”.

As projeções mais impactantes incluem aumentos na frequência e intensidade de extremos de calor, mudanças nas correntes marinhas, fortes precipitações, secas com efeitos na produção agrícola, aumento na proporção de ciclones tropicais intensos, e reduções na cobertura de neve e na permafrost.

Após quatro anos sob a gestão do republicano Trump, apenas neste ano os Estados Unidos se realinharam aos compromissos assumidos no Acordo de Paris, assinado, em 2015, por 175 países.  À época, os EUA se comprometeram a reduzir suas emissões entre 26% e 28% até 2025 em relação a 2005. Trump retirou o país do acordo e, neste ano, o recém-eleito presidente Joe Biden fixou a meta de neutralidade de carbono (o mesmo que zerar as emissões líquidas) até 2050. Os EUA são o 2º no ranking dos maiores emissores do mundo.

A China, no topo dessa lista, responsável por mais de 25% das emissões mundiais, comprometeu-se a reduzir as emissões de CO2 em relação ao PIB entre 60% e 65% até 2030. Em setembro de 2020, o país anunciou que pretende atingir a neutralidade de carbono até 2060. Como isso será feito, no entanto, não está claro.

No ano passado, após o anúncio de que ficaria de fora da conferência do clima (COP) da ONU, na qual alguns países repactuaram e apresentaram novas metas, o Brasil se comprometeu a atingir zero de emissões líquidas de gases de efeito até 2060. Na ocasião, o então ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, afirmou que a meta poderia ser antecipada, mas condicionou o avanço ao financiamento de outras nações. "Se tivermos o recebimento de recursos para o Brasil na ordem de US$ 10 bilhões por ano a partir de 2021", disse o ex-ministro.

 

Sexto maior emissor do planeta, o Brasil vai na contramão do que se espera do país e é cada vez mais pressionado por países como os EUA a assumirem metas mais ambiciosas. Sob a gestão Bolsonaro os índices de desmatamento da Amazônia e do Cerrado dispararam e bateram recordes negativos. Atividades ilegais como grilagem, garimpo sem licença e invasões de terras públicas também são cada vez mais comuns.

O novo relatório do IPCC aponta que muitas das mudanças observadas no clima não têm precedentes em milhares e centenas de milhares de anos. Algumas dessas alterações, como o aumento contínuo do nível do mar, já são irreversíveis em períodos também de centenas a milhares de anos. / COM AGÊNCIAS

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  Tiago Queiroz|Estadão

Com aquecimento global, Brasil produzirá menos alimento e terá desequilíbrio de CO2 na Amazônia

Além da floresta, regiões como o Centro-Oeste e o Nordeste devem ter cenários de seca e incêndios amplificados; cidades do Sudeste devem ter mais enchentes

Emilio Sant’Anna , O Estado de S.Paulo

Atualizado

  Tiago Queiroz|Estadão

O planeta tem esquentado mais rápido do que o previsto e o Brasil deve sofrer com eventos climáticos extremos mais frequentes, como estiagens no Nordeste e no Centro-Oeste e enchentes em cidades do Sudeste. E se a mudança no equilíbrio dos ecossistemas não for suficiente para um novo rumo nas decisões de autoridades, no Brasil também são esperados efeitos negativos na economia, como forte queda da produção agrícola. Segundo o novo relatório do Painel Intergovernamental sobre o Clima da ONU (IPCC), apresentado nesta segunda-feira, 9, essas serão apenas algumas das consequências do aquecimento global para as Américas do Sul e Central. 

O prognóstico é resultado do trabalho de cientistas de 66 países reunidos pela entidade, que aprofundaram análises para 11 diferentes regiões do globo. Em meio à pandemia da covid-19, com mais de 560 mil mortes apenas no Brasil, as projeções do IPCC apontam para possíveis novas crises humanitárias.

Segundo o relatório, caso as metas do Acordo de Paris (pacto climático que quase todos os países assumiram em 2015 para conter o aquecimento global) não sejam cumpridas e o planeta atinja 2ºC acima dos níveis pré-industriais ainda neste século, regiões como o Centro-Oeste do Brasil e a Amazônia serão fortemente afetadas. A postura negacionista de governos como o de Jair Bolsonaro (sem partido), que minimiza os impactos do desmatamento e fragiliza a fiscalização ambiental, tem preocupado especialistas. 

Conforme o IPCC, na região central do continente, sob influência climática da chamada Monção Sul-americana, que sofreria forte alteração, as projeções apontam para o aumento das secas em meados do século 21, o que afeta regiões como o Centro-Oeste e o Nordeste. Essa mudança afetará também a produção agrícola, um dos principais motores da economia brasileira. Cenários com a maior frequência de incêndios e desertificação são também considerados de alta probabilidade.

Na gestão Bolsonaro, o número de focos de incêndios em regiões como Amazônia, PantanalCerrado disparou. Em 2020, o Cerrado brasileiro, assim como o Pantanal, registraram as piores queimadas já captadas pelos satélites do Instituto Nacional de Pesquisas Especiais (Inpe), órgão do Ministério da Ciência e Tecnologia

O Cerrado desempenha papel essencial no apoio ao ciclo da água no Brasil, uma vez que é fonte de oito das 12 bacias hidrográficas do País. O desmatamento contínuo reduz as chuvas e aumenta as temperaturas locais, colocando também em risco a vegetação remanescente e a produção de alimentos. Em 2020, por exemplo, a estiagem atrapalhou o início do plantio de soja. Neste ano, o País ainda vive estiagem histórica, que coloca no horizonte o risco de racionamento energético. 

“O negacionismo ambiental desse governo é muito parecido com o negacionismo na pandemia, que produziu quase 600 mil mortes. Esse negacionismo na saúde a gente está vendo o que gera. Frente ao meio ambiente, vemos escassez hídrica, aumento das emissões, produção de alimentos ficando mais cara”, diz Mauricio Voivodic, diretor executivo do WWF-Brasil.

No Cerrado, os alertas do Inpe indicam 661 km² de desmate em julho, totalizando 5.102 km² entre agosto de 2020 e o último mês - alta de quase 24% ante o ano anterior (2019-2020). Maranhão, Bahia e Tocantins lideram o ranking dos Estados com maior área desmatada no último ano.

Floresta já emite mais gás carbônico do que absorve em algumas áreas

Na Amazônia, por sua vez, o Inpe registrou 8.712 km² em alertas de desmate entre agosto de 2020 e julho de 2021. Isso coloca o período atrás apenas dos 9.216 km² devastados entre agosto de 2019 e julho do ano passado, conforme os números dos últimos seis anos. Essa, no entanto, não é a única medida do problema.

 

Algumas áreas da Floresta Amazônica já emitem mais dióxido de carbono do que absorvem, segundo estudo publicado em julho na revista científica Nature. Fatores como o desmatamento causado pelo homem e os efeitos das mudanças climáticas parecem ter influenciado a capacidade do bioma de atuar como “filtro” de um dos principais gases responsáveis pelo efeito estufa.

O estudo analisou centenas de amostras de ar coletadas na parte mais baixa da atmosfera terrestre, entre 2010 e 2018, e constatou que o sudeste da Amazônia se tornou grande fonte de emissão de CO2. Durante os últimos 50 anos, as plantas e o solo absorveram mais de 25% das emissões de gás carbônico. Já as emissões aumentaram em até 50%. A inversão dessa capacidade de absorver CO2 em determinadas regiões é também uma das conclusões gerais do relatório do IPCC.

“Os desmatamentos na Amazônia e em outros biomas brasileiros contribuem para o aquecimento do planeta e não beneficiam o País, seu povo e sua economia formal. A ciência e a história recente do país revelam claramente que podemos produzir mais e melhor sem desmatar, e que os biomas são fundamentais para a agricultura e para garantir a segurança hídrica e energética de nossas cidades", diz Carolina Genin, diretora de Clima do WRI Brasil, parte do World Resources Institute (WRI), instituição de pesquisa que atua em mais de 60 países.

Os problemas para o Brasil não param por aí, aponta o documento. No Sudeste, inundações causadas pelas chuvas - que já castigam cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte - devem se tornar ainda mais constantes.

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