DIDA SAMPAIO/ESTADAO
DIDA SAMPAIO/ESTADAO

Onça que sobreviveu a fogo do Pantanal tem alta; Bolsonaro deve acompanhar soltura do animal

Quanto menos tempo o animal selvagem ficar enjaulado, melhor para a readaptação. Órgãos do governo federal ainda não apresentaram um plano nem uma data para a devolução do felino ao seu habitat

Vinícius Valfré e Jussara Soares, O Estado de S.Paulo

14 de outubro de 2020 | 19h48

BRASÍLIA - Uma das onças-pintadas resgatadas com ferimentos graves provocados pelo fogo do Pantanal está apta a regressar à natureza após cerca de um mês submetida a modernos tratamentos veterinários custeados por ONGs e voluntários, em Goiás. Quanto menos tempo o animal selvagem ficar enjaulado, melhor para a readaptação. Contudo, órgãos do governo federal ainda não apresentaram um plano nem uma data para a devolução do felino ao seu habitat.

Por outro lado, está nos planos das equipes do presidente Jair Bolsonaro e do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, uma visita ao Pantanal na próxima semana para acompanhar a soltura da onça. A viagem está sendo planejada, mas ainda não está confirmada.

Ousado, nome dado por ribeirinhos ao exemplar da espécie, um macho, foi encontrado às margens de um rio do Mato Grosso, em 11 de setembro, pela reportagem do Estadão, que cobria as queimadas no Pantanal. Todo o processo de resgate, desde antes da chegada de veterinários e voluntários, foi documentado.

A possibilidade de retorno da onça tem uma forte carga simbólica para o bioma que há meses é varrido por fogo. O bicho conseguiu escapar das chamas acessando uma margem ainda preservada do Rio Corixo Negro. Quando foi descoberta, queimaduras de segundo grau nas quatro patas tinham minado a astúcia e a habilidade para se alimentar.

Ousado passou por tratamentos modernos com ozônio e laser aplicados em dias intercalados. As "almofadinhas" das patas estavam comprometidas com as queimaduras. Agora, ele está forte, bem alimentado e pronto para voltar à vida selvagem.

"A alta médica significa que ele não está sendo mais anestesiado nem sendo submetido a troca de curativos. As feridas estão totalmente cicatrizadas. Agora, está na mão dos órgãos competentes decidir quando, como e para que região ele vai voltar", afirmou o veterinário Thiago Luczinski.

Especialista em animais silvestres, Luczinski é o responsável técnico da ONG Nex No Extinction, localizada em Corumbá de Goiás, a 80 km de Brasília. O local funciona como um santuário de onças-pintadas que sofreram danos irreparáveis e não podem mais voltar à natureza.

O governo federal não tem um centro específico para lidar com esses tipos de animais em tratamento temporário. A pedido de técnicos de órgãos do governo, Ousado ficou sob cuidados da ONG, referência no País na atenção a felinos de grande porte.

Foi o mesmo destino de Amanaci, outra onça salva do Pantanal, mas com queimaduras de terceiro grau. O caso dela é mais grave e o uso das garras pode ter sido comprometido permanentemente. A volta dela ao Pantanal continua incerta.

Ousado viveu uma odisseia de mais de 1,2 mil quilômetros por água, terra e ar para sobreviver. Levado das imediações de Porto Jofre, localidade de Poconé (MT), até a capital Cuiabá em um helicóptero da Marinha, viajou por estrada até Goiás em uma van climatizada.

À exceção do voo na aeronave oficial e do trajeto em uma caminhonete do Corpo de Bombeiros do aeroporto de Cuiabá até a UFMT, todo o resto do percurso foi custeado por ONGs dedicadas à proteção animal. O tratamento também foi financiado por voluntários do terceiro setor. Remédios e insumos suficientes para 15 dias custavam cerca de R$ 10,5 mil.

Entidades do terceiro setor envolvidas no processo ainda não foram procuradas por órgãos federais para tratar da operação de retorno. Não se sabe como será ou quem custeará o transporte.

A área da devolução também é uma incógnita até o momento. A inserção de uma onça em uma comunidade já repleta de outros exemplares da espécie pode ocasionar brigas fatais e tornar em vão toda a luta para salvá-la, alertam técnicos.

Além disso, Ousado foi encontrado nas cercanias do Parque Estadual Encontro das Águas, um famoso reduto de onças-pintadas do Brasil com a maior concentração do animal. O parque teve ao menos 85% de sua área de 108 mil hectares atingidos por fogo.

O Estadão procurou a Marinha, o Ministério da Defesa, o Ministério do Meio Ambiente e o ICMBio em busca de informações sobre a operação de regresso da onça ao Pantanal.  A Marinha, por meio do 6º Distrito Naval, informou que "não recebeu solicitação de apoio para a operação de devolver a onça à natureza". Os demais não se manifestaram.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.