Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Óleo atinge Reserva de Comboios, ‘santuário’ de tartarugas marinhas do ES

Desova da espécie deve começar em cerca de 20 dias; petróleo também foi encontrado próximo da foz do rio Doce, em região que ainda sofre efeitos do rompimento da barragem de Mariana

Redação, O Estado de S. Paulo e Agência Brasil

13 de novembro de 2019 | 14h57

SÃO PAULO E BRASÍLIA - O óleo que atingiu mais de 500 localidades brasileiras chegou na manhã desta quarta-feira, 13, à Reserva Biológica de Comboios, na praia de Regência, localizada no município capixaba de Linhares. Com 784 hectares, a reserva é uma unidade de preservação do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), do governo federal, e é considerada um “santuário” de tartarugas marinhas.

No domingo, 10, o petróleo cru já havia chegado a uma área de desova de tartarugas marinhas no Pontal do Iporanga, no mesmo município do Espírito Santo. Em Linhares, atuam também projetos voltados à preservação da espécie, como o Tamar. A substância foi encontrada em ao menos 23 localidades capixabas, incluindo a Vila de Povoação, uma área próxima da foz do Rio Doce. 

Segundo a Prefeitura de Linhares, “pequenas porções” de óleo foram encontradas na região de Comboios por voluntários do ICMBio. Uma equipe de oito militares do Exército teria sido deslocada para ajudar na retirada da substância, de acordo com a gestão municipal. 

“Para mitigar os impactos no óleo cru sobre o ecossistema da região, o Sistema de Comando em Operações (SCO) de Linhares prevê o fechamento da foz do Rio Doce, em Regência. A medida, que evitará que o material atinja e contamine o estuário local – onde o rio encontra o mar –, está sendo discutida com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama)”, diz comunicado da Prefeitura.

Além disso, a Prefeitura solicitou ao governo estadual 1.300 metros de barreiras de contenção, 800 metros de rede Bidim (manta com elevada porosidade) e 1.800 metros de redes de malha (pesca), que devem ser instalados em pontos estratégicos da foz. A informação foi confirmada pelo gestor da unidade de conservação, Antonio de Pádua Leite. 

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“Linhares tem o maior litoral do Espírito Santo, com cerca de 86 quilômetros. Algumas praias são urbanizadas, frequentadas, enquanto outras são quase que desertas, de difícil acesso. Estamos monitorando todo este extenso litoral. Em todas as praias já foram detectados fragmentos do óleo”, declarou o secretário municipal de Meio Ambiente e Recursos Hídricos Naturais, Fabrício Borghi Folli, em entrevista à Agência Brasil.

Biólogo, Folli disse ainda não poder dimensionar as consequências da contaminação para a fauna e a flora da região. “A probabilidade é que, tanto a vida marinha quanto a terrestre, estejam sofrendo algum tipo de consequência, mas eu ainda não posso afirmar isso porque ainda não conseguimos precisar”, disse.

O secretário lembrou que há quatro anos a cidade já sofre com prejuízos socioambientais causados pelo rompimento da Barragem de Fundão, da mineradora Samarco, em Mariana (MG), em 2015. 

“Ainda estamos avaliando os impactos dos rejeitos de minério de ferro que chegaram às nossas praias e sofremos mais este golpe. Estamos muito preocupados porque esta é uma situação socioambiental muito grave”, declarou Folli, revelando que alguns hotéis e pousadas de Linhares já registram o cancelamento de reservas de hospedagem. "Não é o momento de histerismo, mas é um sinal de alerta."

“Uma das nossas primeiras ações foi identificar e minimizar os possíveis impactos sobre os locais de desova destes ninhos. Todo o litoral de Linhares, principalmente a região de Comboios, onde fica a reserva biológica, tem sido objeto deste cuidado. As equipes não utilizam maquinário pesado para evitar o atropelamento ou o soterramento de ninhos, o que dificulta o trabalho das equipes, que têm que avançar a pé”, comentou Folli, estimando que, daqui a cerca de 20 dias, os primeiros filhotes de tartarugas devem começar a nascer e avançar pela areia em direção ao mar.

 

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