Edson Ruiz/Estadão
Pescador Arisvaldo Souza não está conseguindo vender os peixes por causa da mancha de óleo que atinge o litoral baiano Edson Ruiz/Estadão

Óleo afeta mercado de pescado e estudo da UFBA alerta sobre contaminação

Instituto de Biologia detectou metais pesados em animais marinhos; em humanos, as substâncias podem causar problemas de saúde. Com receio, população local deixa de comer peixe e pescadores amargam prejuízos

Priscila Mengue, enviada especial ao Nordeste, Felipe Goldenberg e Milena Teixeira, especiais para o Estado

24 de outubro de 2019 | 06h00

JABOATÃO DOS GUARARAPES E SÃO PAULO - As manchas de óleo que atingem o Nordeste já chegaram ao mercado de pescado. Os poluentes dificultam a ação dos pescadores e pesquisas já orientam que se evite comer produtos das regiões afetadas. O Instituto de Biologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA) realizou uma pesquisa com 50 animais marinhos e detectou resquícios do óleo em todos eles. Um estudo será feito para verificar se há metais pesados no material. No organismo humano, essas substâncias podem causar náuseas, vômito, enjoo, problemas respiratórios e arritmia cardíaca, entre outras consequências nocivas.

Francisco Kelmo, da UFBA, explica que, assim que o óleo chega à costa, o material se deposita em rochas, areias e manguezais, que são onde mariscos, caranguejos, ostras e siris se alimentam. Quando esses animais filtram a água do mar, o petróleo entra no sistema respiratório. Em alguns casos, morrem por asfixia; em outros, o óleo se deposita no próprio tecido deles.

"Pela cadeia alimentar, essas substâncias são transferidas para nós, o que é algo extremamente perigoso", diz o professor.

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Pela cadeia alimentar, essas substâncias são transferidas para nós, o que é algo extremamente perigoso
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Francisco Kelmo, professor da UFBA

Como metais pesados não são excretados pelo ser humano, esses resíduos ficariam dentro do corpo pelo restante da vida. 

Para ele, o cenário de contaminação dos animais e da costa pode levar pelo menos dez anos para ser revertido, "isso se todas as manchas forem retiradas", até as que ficam por baixo da superfície.

"Se houver qualquer mancha de óleo no manguezal, independentemente da quantidade, a contaminação vai continuar", afirma Kelmo. 

Já para Magno Botelho, biólogo e especialista em meio ambiente da Universidade Presbiteriana Mackenzie, haverá "contaminação a longo prazo".

"Mas saber a quantidade de óleo vazado é fundamental para que possa ser feito um prognóstico mais apurado."

Mercado

As manchas de óleo que atingem as praias do litoral do Nordeste têm afetado a produção e a venda de pescadores e marisqueiros da Bahia há duas semanas. Consumidores estão receosos em comprar frutos do mar e, por isso, trabalhadores estocam ou jogam fora peixes, mariscos e camarões. Alguns viram a renda média mensal, de R$ 1 mil, cair mais de 80%.

Na cidade do Conde, no interior da Bahia, por exemplo, cerca de 2 toneladas de peixes estão armazenadas em freezers.

"A gente até tem peixe, mas ninguém quer comprar nosso pescado", diz o presidente de um grupo de pescadores, Givaldo Batista Santos. Frutos do mar são uma das maiores fontes de renda da cidade; cerca de 2 mil pessoas vivem exclusivamente disso. "A situação está precária porque não tem como ter renda sem peixe."

De acordo com a Bahia Pesca, estatal do governo baiano responsável por fiscalizar e fomentar o trabalho de pescadores, 16 mil trabalhadores foram afetados. Até agora, 12 cidades foram atingidas pelos resíduos no Estado: Caíru, Salvador, Lauro de Freitas, Camaçari, Conde, Entre Rios, Itacaré, Esplanada, Jandaíra, Vera Cruz, Itaparica e Mata de São João. Em todo o Nordeste, mais de mil toneladas de óleo já foram recolhidas. Na colônia de Itapuã, na capital, são 400 quilos guardados em freezers.

"Todo mundo está reclamando nas peixarias", afirma o presidente do grupo, Arisvaldo Filho. "A gente não consegue vender porque a população está com medo de comer o peixe com petróleo."

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A gente não consegue vender porque a população está com medo de comer o peixe com petróleo
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Arisvaldo Filho, pescador

Na maior colônia de pesca do Estado, que fica no Rio Vermelho, em Salvador, todos os 5 mil trabalhadores se viram obrigados a jogar no lixo toda a produção de um dia de trabalho: 250 quilos de peixe. O pescador e presidente da colônia Marcos Antonio Chaves Souza diz que o movimento caiu porque o governo baiano os orientou a não comercializar os pescados. A Bahia Pesca não confirmou a informação ao Estado; a orientação seria para "não pescar nas áreas atingidas".

A presença do petróleo na água litoral da Bahia faz com que algumas pessoas fiquem com receio de comer derivados de frutos do mar. É o caso da estudante de Engenharia Estefane Caetano, de 25 anos. Mãe de um bebê de cinco meses, a jovem conta que está com medo de ingerir camarões e peixes porque, segundo ela, a substância pode gerar alguma reação na criança.

"Eu sempre comia peixe, porque moro perto da praia, mas vou passar um bom tempo sem comprar, especialmente porque tenho um bebê e tenho medo que alguma coisa passa para o meu leite. Ontem, meu marido trouxe um acarajé e eu fiquei com medo de comer", diz Estefane. 

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Eu sempre comia peixe, porque moro perto da praia, mas vou passar um bom tempo sem comprar
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Estefane Caetano, estudante de Engenharia

O estudante de Direito Gabriel Martins, de 18 anos, também afirma que vai passar um tempo sem comer peixe. Ele narra que tomou a decisão depois que foi à praia de Vilas do Atlântico, na cidade de Lauro de Freitas. 

"A água foi muito afetada e eu tenho certeza que vai passar para os peixes. Como ainda não sei o que pode acontecer, vou ficar sem comer. Minha mãe também disse que peixe não entra tão cedo lá casa", diz. 

Já a família da engenheira ambiental Leila Santos, de 30 anos, comia peixe pelo menos três vezes por semana; agora, as refeições estão suspensas por enquanto, e os frutos do mar são substituídos por outros tipos de proteína.

"Peixe, marisco, camarão… paramos de comer", diz.

Recife

Setembro foi o mês que as manchas de óleo começaram a aparecer no nordeste brasileiro, mesmo período do início da temporada de pesca da tainha. Em Jaboatão dos Guararapes, na Grande Recife, essa é a época em que "se trabalha para conseguir comer no inverno", como explicam pescadores. "Está diminuindo a quantidade de peixe. Aqui tem camurupim, carapeba, tainha, saúna", comenta o pescador Amauri Januário dos Santos, de 63 anos. "Se entrar no mangue então, não vai ser coisa de Deus."

A tainha é a principal fonte de renda de famílias como a de Valter Dionisio Santana Júnior, de 39 anos, irmão e filho de pescadores. Para eles, a chegada do óleo é quase uma questão de tempo, pois já percebem as consequências no dia a dia. A pesca da tainha costuma começar em setembro e segue por seis meses.

"Hoje é um sacrifício de horas para pegar peixe, o peixe não está conseguindo entrar na barra por causa do óleo", lamenta. "Ainda se pega uma quantidade, mas está diminuindo cada vez mais."

Valter costuma pegar de 20 a 30 quilos em um dia de pescaria, junto do irmão.

"Ontem, graças a Deus, conseguimos uns quatro quilos de tainha, mas está diminuindo cada vez mais. Se entrar na barra, vai diminuir mesmo, as redes vão ficar cheias de óleo."

Como esta quarta-feira estava fraca para peixe, Valter dedicou o dia para costurar a rede. "Quando vi as primeiras notícias, já fiquei pensando se iria chegar aqui. A gente vive disso, aí fica preocupado."

 

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Operação de transferência é hipótese para acidente com óleo no Nordeste

Especialistas afirmam que a manobra é segura, mas quando feita de forma oficial; longe da costa e sem fiscalização, ela pode ter sido feita de forma irregular e ter causado vazamento

Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

24 de outubro de 2019 | 06h30

RIO DE JANEIRO - Uma operação mal sucedida de transferência de óleo de um navio em movimento para outro, conhecida como "ship to ship underway", transformou-se em uma das hipóteses para explicar o vazamento em alto-mar que provocou o desastre ambiental na costa do Nordeste brasileiro.  Relativamente comum, a manobra é segura quando feita oficialmente. Mas, longe da costa e da fiscalização, pode ter sido executada de forma irregular e causado o acidente.

Quando o óleo é extraído em plataformas em alto-mar e precisa ser transportado para terra, é necessário o uso de um navio especial, com posicionamento dinâmico. Trata-se de um equipamento que oferece estabilidade à embarcação, para que ela fique parada e possa receber o petróleo em seus tanques. O uso dessa aparelhagem, porém, encarece o frete do navio. Por isso, a tendência dos transportadores é, o quanto antes, transferir esse óleo para uma embarcação comum, mais barata.

A operação pode ser feita no porto mais próximo, com os dois navios parados em um ambiente seguro, ou em mar aberto, com os dois navios em movimento. Nesse caso, a manobra é um pouco mais arriscada.  

Dados da Marinha do Brasil e das empresas petrolíferas mostram que em 2018 o equivalente a 77 milhões de barris de óleo foram exportados por meio de operações "ship to ship". Este ano, somente até setembro, o volume já chega a 69 milhões de barris. Os números são referentes apenas a operações realizadas na costa de São Paulo, onde são autorizadas.

No Brasil, os procedimentos técnicos e administrativos para obtenção de uma autorização ambiental para esse tipo de operação foram regulamentados pelo Ibama em 2013. Também é necessário o aval da Marinha, que define a área onde as atividades podem ser realizadas.

Quando ocorrem nos portos, as transferências são consideradas mais seguras. Mesmo em caso de acidente, há mais condições de correção imediata. Em mar aberto, há alguns fatores de risco adicionais, como condições climáticas adversas, rompimento das mangueiras de conexão entre os navios e limitação da capacidade de resposta a eventuais acidentes.

E há ainda a hipótese mais provável no caso do acidente de operações irregulares, feitas por navios fantasmas – que estão fora dos radares.

“A operação "ship to ship" é comum, normalmente feita em áreas específicas, com as devidas autorizações”, explicou o engenheiro naval Floriano Pires, da engenharia oceânica da Coppe/UFRJ. “Pode haver um vazamento? Pode. Mas o sistema tem redundâncias e controles. Seria incomum numa operação "ship to ship" normal um vazamento de óleo tão grande. Teria que ser uma operação irregular, clandestina, sem o mínimo de cuidado.”

A engenheira naval Gabriela Timmerman, especialista em "ship to ship", dona da consultoria Iskra, concorda com a avaliação.

“A operação tem diversos mecanismos de segurança e se houver um vazamento, ela é automaticamente interrompida”, explicou. “Para um vazamento desse volume, o mais provável é que tenha havido algum outro problema, como uma avaria grave de casco ou uma explosão dentro do navio.”

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