Divulgação/Embaixada Brasileira em Washington
Divulgação/Embaixada Brasileira em Washington

Olavo de Carvalho defende ocupação militar da Amazônia

Ao receber homenagem em Washington, escritor diz que Macron ‘conseguiu unir Brasil em torno de Bolsonaro’

Beatriz Bulla, Correspondente / Washington

29 de agosto de 2019 | 22h46

O escritor Olavo de Carvalho defendeu a “ocupação militar” da Amazônia como forma de defesa contra interferências estrangeiras e afirmou que o Brasil “saiu ganhando muito” com a reação internacional sobre as queimadas na região. Na avaliação do escritor, o presidente francês, Emmanuel Macron, “conseguiu unir o Brasil em torno do (presidente Jair) Bolsonaro”.

Macron tem sido uma das vozes mais críticas à política ambiental de Bolsonaro desde o G-20, em julho, e levou o tema das queimadas na Amazônia ao G-7, no último final de semana. Em transmissão nas redes sociais nesta quinta-feira, 29 Bolsonaro chamou de “esmola” a oferta de US$ 20 milhões do G-7 para ajudar a combater a crise ambiental na Amazônia. O Planalto tenta isolar Macron em meio à repercussão internacional negativa sobre a política ambiental de Bolsonaro e ao aumento nas queimadas e desmatamento na região. Diplomatas consideram o questionamento à política brasileira, que ocupou a primeira página de jornais estrangeiros no último final de semana, como a maior crise diplomática recente do País.

“Nós devíamos ter agradecido ao senhor Macron, que foi o grande cabo eleitoral do Bolsonaro. Saiu tudo ao contrário do que ele esperava, se deu muito mal. Agora, essa ideia de uma intervenção estrangeira na Amazônia é absurda. Nenhum governo jamais aceitaria uma coisa dessas. Ele conseguiu unir o Brasil em torno do Bolsonaro. Qualquer presidente que estivesse lá representaria a unidade nacional, falaria não, nós não queremos esses caras mandando em nós, é muito simples”, afirmou Olavo a jornalistas, após receber homenagem na embaixada do Brasil em Washington.

Em maio, Bolsonaro condecorou Olavo com o grau máximo da Ordem Nacional de Rio Branco, de Grã-Cruz, indicado para autoridades de alta hierarquia. Segundo o Itamaraty, a Ordem Nacional de Rio Branco é uma comenda que o presidente do Brasil atribui a personalidades que “pelos seus serviços ou méritos excepcionais, se tenham tornado merecedoras dessa distinção”. Como o escritor vive na Virgínia, nos Estados Unidos, a cerimônia para receber a homenagem foi feita na embaixada em Washington.

O evento foi conduzido por Nestor Forster – encarregado de negócios em Washington, atual chefe da embaixada brasileira. Amigo pessoal de longa data do escritor, Forster é um diplomata considerado alinhado com a chamada ala ideológica do governo Bolsonaro. Ele foi responsável por apresentar o chanceler, Ernesto Araújo, a Olavo de Carvalho.

Forster está encarregado pela embaixada do Brasil em Washington desde meados de junho, quando foi promovido ao primeiro escalão da carreira de diplomata. A cadeira de embaixador estava vaga desde o início do mês, com a volta do então embaixador, Sérgio Amaral, ao Brasil. A expectativa na embaixada era de que Forster, considerado um diplomata alinhado com o governo Bolsonaro, fosse o nomeado para o cargo. Em julho, no entanto, o presidente anunciou o desejo de indicar o filho Eduardo Bolsonaro, deputado federal pelo PSL-SP, para a vaga.

Ao falar com jornalistas ao final do coquetel em que recebeu a homenagem, Olavo disse que “medidas legais e fiscalização” não adiantam para defender a Amazônia de interesses estrangeiros e defendeu a “ocupação militar”.

“A única coisa que adianta é o que ele disse, tem que mandar o exército para lá. O resto tudo não adianta, medidas legais, fiscalização, nesse sentido, também não adianta, aquilo tem que ser ocupado militarmente. A Amazônia é nossa e tem que afirmar o poder nacional lá e acabou. A ocupação militar é fundamental, você não pode deixar um território à mercê de um invasor estrangeiro e reclamar que eles estão indo lá. A presença da autoridade é a base, é o negócio do olho do dono”, afirmou o escritor.

Questionado se corrobora a ideia de que há ameaça de uma invasão estrangeira na Amazônia, o escritor criticou “ONGs e empresas” que, segundo ele, têm uma “influência terrível”, sem dar detalhes. Ele também voltou a criticar a imprensa nacional e estrangeira.

Durante o discurso na cerimônia que o homenageou, Olavo de Carvalho disse que considera Bolsonaro o “melhor presidente que nós já tivemos” pela sua “honestidade”. “Não tenho menor ideia de quais são ideias políticas dele. Ah, é a ideologia dele? Não tenho menor de ideia de qual é a ideologia dele. Mas eu sei que ele é um sujeito honesto e que vai dar o melhor de si para resolver os problemas reais e isso ele realmente está fazendo. E eu considero então que o meu trabalho é um pedacinho deste governo”, afirmou. O escritor, que rejeita o rótulo de guru de Bolsonaro, disse que irá “continuar ajudando em tudo o puder” o governo.

Antes dele, Forster fez um discurso de homenagem de quase 20 minutos. “O professor venceu a ditadura esquerdista que dominava a vida intelectual brasileira até poucos anos atrás, fingindo possuir o monopólio do que poderia ser pensado”, disse o diplomata, que se referiu ao escritor como “querido amigo”. Forster ainda afirmou que a homenagem não era “apenas” do presidente, do chanceler e “de todo o Itamaraty”, mas de “todos os brasileiros de bem que, cansados de ver a pátria aviltada e assaltada por criminosos, saíram às ruas em protesto com cartazes em que proclamavam 'Olavo tem razão'”. 

A cerimônia aconteceu na residência do embaixador em Washington, entre pães de queijo e brigadeiros. Depois, um pequeno grupo permaneceu para um jantar oferecido a Olavo e sua família. O cardápio incluiu uma entrada de nome “Olavo's soup” – ou “sopa do Olavo” – em homenagem ao convidado. O escritor permanece em Washington até sexta-feira e deve se encontrar com o filho do presidente deputado Eduardo Bolsonaro e com Araújo, que estarão na capital americana para um encontro com o presidente Donald Trump.

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