Oceanos têm menos plástico do que cientistas acreditavam

De acordo com especialistas, peixes podem confundir pequenos fragmentos do lixo com zooplâncton e ingeri-los

Debora Netburn, Los Angeles Times

02 Julho 2014 | 20h43

Em um novo estudo publicado na revista científica Proceedings of the Natural Academy of Sciences, uma equipe de pesquisadores relata que há entre 10 mil e 35 mil toneladas de detritos de plástico flutuando na superfície de nossos oceanos - significativamente menos do que eles esperavam encontrar.

Após analisar 3.070 amostras de água do mar de todo o mundo, os pesquisadores descobriram que não houve um aumento significativo da quantidade de plástico nas águas superficiais dos oceanos do mundo desde os anos 1980, apesar de a quantidade de plástico produzida mundialmente ter mais do que quadruplicado. 

Mais plástico no mundo quase certamente significa mais plástico em nossos oceanos. Mas se o plástico não está flutuando na superfície, onde está ele?

Membros da equipe de pesquisa liderada pelo ecologista Andres Cozar da Universidade de Cádiz na Espanha, não afirmam que têm a resposta, mas identificam algumas pistas para futuros detetives da ciência continuarem.

Por exemplo, eles descobriram bem menos fragmentos de detritos de plástico de 5 milímetros ou menores do que seus modelos de computador previam. Isso os levou a concluir que provavelmente são os pedaços de plástico menores que estão descendo para a profundeza das águas.

Os autores dizem que peixes mesopelágicos, que vivem na zona de penumbra de 200 a 1000 metros abaixo da superfície do oceano, podem estar confundindo estes pedacinhos de plástico com zooplâncton do mesmo tamanho e os engolindo à noite quando vêm à superfície para se alimentar, e depois levando o plástico de volta ao oceano profundo onde passam a maior parte de suas vidas.

Com o tempo, o plástico pode mergulhar mais para o fundo quando excretado ou quando o peixe morre. Os pesquisadores notam também que estudos recentes mostraram populações bacterianas crescendo em pequenos fragmentos de plástico, aumentando seu peso e causando seu afundamento.

Mas estas são apenas algumas respostas possíveis à questão do plástico desaparecido, e os autores apontam que provavelmente existem outras.

Angelicque White, uma ecologista oceânica na Oregon State University que não esteve envolvida no estudo, advertiu que é muito difícil ter um sólido entendimento do que pode estar ocorrendo com plásticos e nossos oceanos.

"O plástico está amplamente distribuído por todas as bacias oceânicas, mas as concentrações são realmente desiguais de ponto para ponto e os pontos quentes são causados pela movimentação dos oceanos", disse ela por e-mail.

Ela acrescentou que ainda temos muito a aprender sobre como o plástico funciona no oceano. "Micróbios se multiplicam em plástico; plástico é habitat; plástico é comido por organismos", ela escreveu. "Não está absolutamente claro se isto é sempre danoso ou se a maior parte do plástico ingerido é eliminada."

Dianna Parker, uma porta-voz do Programa de Detritos Marinhos da Administração Atmosférica e Oceânica Nacional (NOOA, na sigla em inglês), diz que estudos como este podem ajudar a informar o trabalho futuro de seu grupo.

"Cada estudo que vemos nos leva um pouco mais perto das respostas sobre o problema dos detritos marítimos", disse ela. "O problema é muito novo, de modo que estudos como este nos ajudam a imaginar onde concentrar nossos esforços."

Tradução Celso Paciornik

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