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O sucesso do Homo erectus

Apesar de sabermos muito sobre esse nosso ancestral, havia uma questão em aberto: quando ele teria desaparecido da face da Terra? Agora um estudo detalhado mostrou que ele existiu até muito recentemente

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

21 de dezembro de 2019 | 05h00

Nossa espécie, o Homo sapiens, é relativamente jovem. Surgimos na África faz 250 mil anos e em seguida nos espalhamos pelo planeta. Por volta de 30 mil anos atrás já ocupávamos grande parte dos continentes. Hoje sabemos que os genes que deram origem à espécie vieram de diversas espécies do gênero Homo. Herdamos genes dos Neandertais e dos Denisovans, espécies com as quais convivemos e fizemos sexo. Mas o grosso dos nossos genes veio de uma espécie do gênero Homo que surgiu na África aproximadamente 2 milhões de anos atrás e se espalhou pelo planeta, o Homo erectus.

Apesar de sabermos muito sobre esse nosso ancestral, havia uma questão em aberto: quando ele teria desaparecido da face da Terra? Agora um estudo detalhado mostrou que ele existiu até muito recentemente, pois os mais recentes ossos de Homo erectus datam de aproximadamente 110 mil anos atrás. Ou seja, ele ainda andava pelo planeta mais de 100 mil anos depois do surgimento de nossa espécie.

Influenciados por Darwin muitos cientistas se espalharam pelo planeta no fim do século 19 e início do 20, tentando encontrar os animais que teriam dado origem a nossa espécie. Um desses animais (ou já podemos chamá-lo de humano?), descoberto em Java durante escavações em 1891 e 1892, recebeu o nome de homem de Java. Os primeiros esqueletos encontrados datam de 1 milhão de anos atrás, mas em seguida foram encontrados esqueletos de 1,8 a 2 milhões de anos de idade na África. Em diferentes locais da África e da Eurásia foram encontrados diversos exemplares que inicialmente receberam outros nomes, mas que hoje são considerados diferentes raças ou estágios evolutivos do H. erectus.

Devemos ao Homo erectus muitas de nossas características. Grande parte do que consideramos conquistas de nossa espécie agora sabemos que foi desse ancestral. Ele já caminhava de forma ereta (daí o nome erectus). Já andava em pequenos grupos e praticava a caça e a coleta, um modo de vida parecido com o dos primeiros Homo sapiens, e ainda presente em algumas sociedades. Além disso dominava a tecnologia da pedra lascada e provavelmente o fogo. Já produzia formas primitivas de arte: uma concha riscada com desenhos parece ter sido produzida pelos H. erectus. Existe uma polêmica sobre a capacidade de comunicação, mas alguns cientistas acreditam que já possuía uma forma primitiva de linguagem.

O estudo agora publicado foi feito com base em partes de esqueletos encontradas antes da 1.ª Guerra Mundial. Estudos iniciais indicavam que esses ossos de H. erectus eram muito recentes, tendo menos de 100 mil anos, mas os dados eram pouco confiáveis. Agora um grupo de cientistas estudou em detalhe a formação geológica em que eles foram encontrados e os próprios ossos, coletando informações sobre a camada de solo da região escavada, e analisando ossos de outros animais encontrados na região. A conclusão, muito bem embasada, é que esses esqueletos pertencem a animais (ou pré-humanos) que viveram na região entre 117 e 108 mil anos atrás. Essa descoberta coloca a extinção do H. erectus bem depois do surgimento do H. sapiens. Claro que eles podem ter desaparecido por último na Indonésia por volta dessa época, mas também é possível que no futuro outros esqueletos mais recentes sejam encontrados. De qualquer forma sabemos que eles vagavam pelo planeta pelo menos até 100 mil anos atrás.

Essa descoberta demonstra que o Homo erectus existiu por aproximadamente 2 milhões de anos, um período de tempo quase dez vezes mais longo que nossa existência sobre a Terra. Não sabemos a razão do seu desaparecimento, mas não é impossível imaginar que os Erectus perderam a competição com o H. sapiens e tiveram o mesmo destino dos Neandertais e grande parte dos grandes animais que foram caçados até a extinção por nossos parentes distantes. Esse fenômeno continua até hoje em grande parte do planeta. Nossa espécie é realmente uma grande exterminadora da biodiversidade e nos últimos 250 mil anos parece estar dedicada a exterminar a vida no planeta. Nesse ritmo dificilmente vamos durar outros 5 mil anos, o que dizer de outros 250 mil anos ou os 2 milhões de anos que o Homo erectus viveu por aqui.

MAIS INFORMAÇÕES:LAST APPEARANCE OF HOMO ERECTUS AT NGANDONG, JAVA, 117,000–108,000 YEARS AGO. NATURE HTTPS://DOI.ORG/10.1038/S41586-019-1863-2 (2019)

É BIÓLOGO*

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