Daniel Munduruku
Daniel Munduruku

O retiro dos sonhos de Daniel Munduruku

Escritor da etnia munduruku diz que volta periodicamente à sua aldeia natal, no Pará

Cedê Silva, O Estado de S. Paulo

27 Julho 2011 | 00h01

Em tupi, Katõ significa "terra preta", boa de plantar. É para essa aldeia no Pará, onde nasceu, que o escritor Daniel Munduruku, de 47 anos, volta quase todo ano para um tipo de retiro espiritual. "Se demoro a ir lá, eles vêm me buscar no sonho. Vêm atrás de mim."

Autor de mais de 30 livros, Munduruku deixou a aldeia aos 15 anos. Ex-seminarista, cursou Filosofia na Universidade Salesiana em Lorena, no interior paulista, antes de fazer pós-graduação na Universidade de São Paulo.

Em Katõ, o hoje doutorando em Educação pela USP se despe do lado intelectual. "É onde me desarmo", conta. Ele já levou a mulher e os três filhos para a aldeia, mas prefere ir sozinho. "É a minha Meca, minha viagem necessária", afirma. "Minha casa em Lorena é minha pátria, mas lá é a pátria de onde parti."

Para chegar a Katõ, Munduruku pega um avião até Belém, de onde parte para uma viagem de três horas de ônibus em direção à cidade de Maracanã, no litoral do Estado. Da rodoviária local, são mais 6 quilômetros a pé até a aldeia.

Apesar da importância que dá à viagem, Munduruku não pode ficar mais do que 15 dias em Katô, por causa dos compromissos profissionais. Ele normalmente vai ao Pará em fevereiro ou em julho. Fevereiro é melhor. "Tem mais fartura, os rios estão cheios. Em julho e agosto, faz muito calor e tem muito pernilongo, que, apesar de minúsculo, faz um estrago na gente."

Memória. Nas visitas, o escritor gosta de comer manga, especialmente com farinha, e reencontrar os tios – os pais moram em uma chácara em Santo Antônio do Tauá, cidade de 26 mil habitantes a 60 quilômetros de Belém. Mas o mais importante, para ele, é a oportunidade de fazer um mergulho na memória, algo que recomenda a todos.

"O Brasil é um país adolescente, ainda tentando fazer as pazes com seu passado, com as populações indígenas que fazem parte da memória brasileira. Ao fugir dessa memória, foge da sua vocação de ser um país perfeitamente democrático em relação à diversidade", afirma Munduruku. "Para o Brasil virar adulto, deve saber de onde veio."

No site do escritor, há um provérbio indígena que diz: "O caminho mais seguro é aquele que já foi pisado muitas vezes." Não à toa, ele vê a tradição como porto seguro. "Serve para atualizar o que nossos antepassados viveram, para vivermos tão plenamente quanto eles. Não é permanência no antigo, mas sua reelaboração, sem perder a base."

Ao contrário dos antepassados, a maioria dos índios de Katõ não pesca com cipó venenoso nem caça com arco e flecha. Preferem o anzol e a espingarda. "O arco é melhor, porque não faz barulho, não espanta os outros animais", diz. Mas, por ser mais difícil de manipular, o treino vem caindo em desuso.

Para todas as idades. Na bagagem para Katõ, Munduruku carrega alguns de seus livros, a maioria deles infanto-juvenis. Sua obra tem como temática a cultura indígena, mas ele também escreve sobre cidades, como São Paulo. "Criei histórias com base em nomes como Jabaquara, Anhangabaú e Tatuapé, que quer dizer ‘caminho do tatu’. E o metrô é isso, um tatu gigante."

Como muitos índios têm acesso à televisão, já conhecem os elementos das narrativas. "Gosto de ver como eles reagem. É uma forma de renovar o ânimo e a inspiração e de oferecer a eles o que tenho pensado, refletido. Ver se o que trago está de acordo com o que os mais velhos pensam."

E se não estiver? "Aí eles me fazem ouvir, me falam o que tenho de dizer. Mas o que tenho dito não é muito contrário ao que eles pensam, não. Dá para perceber, quando dizem: ‘Leva isso para a cidade, conta isso pra eles’."

Apesar dessa preocupação, o escritor não se vê como um diplomata transitando entre duas culturas. "Não represento ninguém. Falo por mim, como cidadão brasileiro."

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