Daniel Teixeira/Estadão
Pedestre passa pela Rua Alagoas, no bairro de Higienópolis Daniel Teixeira/Estadão

O que é preciso mudar para tornar as cidades mais sustentáveis

Metrópoles do futuro são aquelas que souberem se reinventar e se tornar mais policêntricas; desafio nas capitais latino-americanas é maior

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

27 de agosto de 2020 | 05h00

Vivemos o século das cidades. É nelas que estão a maioria dos problemas, das soluções e das pessoas. Cada vez mais. Até 2050, seremos 70% da população mundial em ambientes urbanos. Uma retomada verde passa, portanto, por transformações profundas no modo de viver, de trabalhar, de transitar, de se divertir, de socializar - e todos esses elementos dependem do planejamento urbano para funcionar da melhor forma possível.

Urbanistas, cientistas, biólogos, engenheiros e políticos de metrópoles mundo afora tentam organizar essas mudanças. Os exemplos se espalham, mas vêm muito mais de realidades que apostaram em transformações do que de iniciativas de novas cidades erguidas em áreas ainda não urbanizadas. Para muitos especialistas, uma cidade mais sustentável, do futuro, é aquela que soube se reinventar.

Isso ocorre por meio de mudanças de paradigma, de ações para liquidar desigualdades e do amplo uso de tecnologia, para voltarmos a viver em sinergia com o meio ambiente. “Se quisermos manter algum senso de equilíbrio com a natureza, a gente precisa integrá-la de uma maneira muito mais presente nas cidades”, é o que defende Fabiano Lemes de Oliveira, professor na universidade Politécnico de Milão e autor do livro Green Wedge Urbanism: History, Theory and Contemporary Practice (Urbanismo de Cunhas Verdes: História, Teoria e Prática Contemporânea), sem edição em português.

Para ele e outros especialistas da área, a mudança virá com um planejamento de cidades policêntricas, em que serviços, lazer, trabalho e transporte estarão disponíveis em deslocamentos curtos. Em Paris, por exemplo, a ideia é de uma cidade de 15 minutos para resolver todas as necessidades, o que inclui mudanças também nos espaços públicos, das calçadas às escolas.

No caso das capitais latino-americanas, cuja urbanização foi mais espalhada e desordenada, essa mudança passa também pelo adensamento das áreas mais bem servidas. O que precisa estar alinhado a melhorias nos espaços públicos.

“O desafio fundamental é a necessidade de se pensar cidades que tenham capacidade de acolher mais gente, fazer isso de uma maneira com que não aumentamos o impacto no planeta e, se possível, aumentar a presença da natureza nas áreas urbanas”, diz Oliveira. “A gente não tem como hoje em dia ficar replicando um modelo de expansão urbana baseada em casas unifamiliares para todo mundo, não tem como.”

O adensamento deve ocorrer junto a diversas melhorias do ambiente urbano. Uma das aplicadas, em cidades como Estocolmo (Suécia) e Copenhague (Dinamarca), é a da implantação de cunhas verdes, áreas naturais que começam mais reduzidas no centro e se expandem em direção às periferias. Segundo Oliveira, elas reúnem potenciais para lazer, agricultura urbana, corredor ecológico (ao atrair a fauna) e ambiental (por facilitar a drenagem urbana, absorver dióxido de carbono e reduzir o efeito das ilhas de calor, dentre outros benefícios).

Essa mudança precisa de integração para ser mais efetiva. “Intervenções muito pontuais ou desconectadas acabam deixando de lado um potencial muito grande que vem com a conexão das áreas, que maximizam uma série de benefícios”, pontua. “O método cartesiano de pegar um objeto complexo e separar em diferentes partes, tentar entender essas partes e depois colocar junto acaba sendo insuficiente. A gente precisa ter um novo modelo de planejamento que seja mais sistêmico.”

Professor do Instituto de Biociências da USP e coordenador do programa USP Cidades Globais, Marcos Buckeridge explica que o policentrismo das cidades também envolve a oferta de alimentos. Cidades europeias e asiáticas, por exemplo, convivem há anos com políticas de pomares e hortas urbanas, cujas versões mais tecnológicas são edifícios transformados em fazendas urbanas.

Para ele, uma “cidade do futuro” deve lançar mão do uso de novos materiais e tecnologias, seja na construção civil, seja no transporte. Entre os exemplos que cita, estão o uso da cana-de-açúcar para geração de energia elétrica, tipos de concreto que absorvem menos calor e redes de gerenciamento de energia para redistribuição nos horários de menor consumo.

“A ideia é que se aplique a ciência. Não adianta fazer um prédio maravilhoso, que seria considerado sustentável, se chega ali uma energia poluidora”, ressalta. “Nesse sentido, vontade política é tudo. Entender o que a população precisa.”

Essa transformação também envolve oferta diversificada de transporte para todos, conforme destaca Luis Antonio Lindau, diretor do programa de cidades do WRI Brasil, instituição internacional de desenvolvimento sustentável. “Não dá mais para a gente ficar pensando que um veículo ou um único modo vai resolver a questão do transporte. A gente deveria ter como meta uma rede integrada e multimodal.”

Isso inclui medidas para restringir a circulação de veículos, como a inspeção veicular (com taxação para os mais poluentes), a troca dos ônibus a diesel por opções mais sustentáveis, o controle de vagas de estacionamento e até a criação de zonas de ar limpo, que proíbem determinados transportes.

Tudo isso dentro de um investimento nas áreas mais necessitadas. “A gente tem de evitar chegar em um ponto em que talvez se evolua para o 5G, com uma capa tecnológica e de cidades inteligentes, e continue sofrendo com falta de saneamento, com falta de abastecimento de água”, argumenta Lindau. “A gente precisa que essa recuperação seja em prol do verde, que não seja mais do mesmo.”

Paula Santos, gerente de mobilidade ativa da WRI Brasil, defende o conceito da “rua completa”, cujo desenho universal dá acessibilidade e espaço para diferentes tipos de transporte. Isso inclui o conceito de "traffic calming", com a elevação da rua para o nível da calçada, estimulando os carros a circularem em menor velocidade. “Todas ruas podem ser ruas completas. Cada uma vai ser diferente. A médio e longo prazo, seria o ideal.”

Um ponto-chave para que isso ocorra é a vontade política. “Na teoria, é tudo muito bacana, todas as cidades querem ser ativas e promover ciclismo e movimento a pé. Mas, na hora de colocar em prática, tem uma resistência muito grande em tirar espaço do carro e colocar para o pedestre e o ciclista.”

Outro conceito difundido no planejamento urbano sustentável é o de soluções baseadas na natureza (também conhecido pela sigla SBN). Elas propõem formas de “usar a natureza para prover serviços que hoje a gente faz com infraestrutura cinza”, descreve Henrique Evers, gerente de desenvolvimento urbano na WRI Brasil.

“Entendo que uma retomada que possa acontecer nos próximos meses e anos tem que considerar a integração com a natureza como parte da solução”, pontua. “Isso vem através de soluções em várias escalas, começa com os chamados jardins de chuvas - canteiros (feitos com técnicas) que podem atuar na drenagem usando a natureza -, com a integração com áreas verdes, (vai até) a recuperação dos rios, tudo isso se relaciona com essa sinergia entre o urbano e o verde.”

No caso de intervenções menores, por exemplo, o impacto pode ser no microclima e no acesso ao lazer. É o caso, por exemplo, dos pocket parks no México, em que terrenos baldios e antigos estacionamentos foram convertidos em pequenos jardins e áreas verdes.

Evers defende que um investimento com propostas mais sustentáveis traz melhor resultado a médio e longo prazo. “É possível ter prosperidade e desenvolvimento econômico aliados a soluções que também protegem o meio ambiente. O mais rápido e fácil é sempre manter os modelos antigos, que nos levaram ao que a gente tinha, do ‘velho anormal’, mas o investimento em um novo tipo de infraestrutura, com benefício social, econômico e ambiental, é mais benéfico.”

Também dentro do conceito de soluções baseadas na natureza, a urbanista Perola Brocanelli, professora da Universidade Presbiteriana Mackenzie, defende a renaturalização de rios e da mata ciliar. “Não é plantar árvore bonita, é deixar aquele capinzão de várzea, meio alagado”, destaca. “As grandes áreas verdes ao longo dos rios podem se transformar em células de purificação.”

Ela argumenta que é necessário haver maior conhecimento sobre a hidrografia das cidades, para entender onde estão várzeas e outras áreas alagáveis e proibir novas construções no entorno. Com a renaturalização e o tratamento da água, esses espaços também se tornam áreas de lazer e de contato com a natureza, quase “praias urbanas”. “Crescer sobre os rios é uma sentença de morte.”

Um exemplo simbólico internacional dessa nova relação com os cursos d’água são as cidades-esponja na China, projetadas com parques e outras áreas alagáveis, tetos verdes e calçadas permeáveis, tudo para absorver e armazenar a maior parte da água das chuvas. “Precisa de um projeto, não é do dia para a noite. Primeiro precisa da consciência da população para apoiar as ações”, destaca a urbanista.

Construção civil e arquitetura também precisam se tornar mais sustentáveis

Professora do Departamento de Tecnologia de Arquitetura e Urbanismo da USP,  Roberta Kronka considera muito difícil se falar em edifícios sustentáveis se não estiverem integrados a um meio urbano sustentável, com fachada ativa (comércio no térreo), boas calçadas, áreas verdes e outras melhorias necessárias. “Vira meio um showroom”, diz.

Ela aponta que soluções mais sustentáveis para imóveis passam por um projeto adequado, que aproveite a ventilação natural e a luz solar e utilize materiais para o clima da região. Por vezes, construções de décadas atrás são mais qualificadas que as mais recentes, ela comenta. “Está caindo a ficha que a gente tem uma qualidade ruim de edificação. Mas está havendo uma retomada de valores de conforto ambiental, de eficiência energética.”

A urbanista lembra que “não existe material mágico”, mas sim opções com desempenho mais desejável para a demanda. Por isso, é importante “olhar o ciclo de vida do material construtivo”. Ou seja, utilizar o que está disponível localmente pode ser mais sustentável pelo custo, pela emissão de poluentes da cadeia de produção e pela geração de emprego do que uma matéria-prima considerada mais sustentável trazida de outro continente.

Dentre as soluções mais adotadas, ela cita os painéis fotovoltaicos (hoje disponíveis até em versões em vidros e películas), iluminação de LED (que está ganhando espaço também em vias públicas) e chuveiros com tecnologias que gastam menos água para dar a mesma sensação de volume. A professora cita, ainda, o mercado de construção desmontável, conhecido na Europa. “Não é só uma porta ou uma janela de demolição, é aproveitar tudo. Mas, culturalmente, aqui ainda tem um preconceito com isso.”

Mudanças sustentáveis também são necessárias nas obras, em que ainda há um grande volume de desperdício, a mão de obra nem sempre é qualificada e envolve majoritariamente uma matéria-prima muito poluente (o concreto). Em paralelo, discute-se opções ainda pouco difundidas no Brasil, como a madeira engenheirada pré-fabricada, o adobe e a tecnologia de impressão em 3D.

Mudanças também podem ser aplicadas em edifícios já existem, por meio do chamado “retrofit”, cuja maior oferta costuma ser nas áreas centrais, tornando os imóveis mais eficientes e dando novos usos. “Esse estoque de edificação pode ser ocupado com comércio ou habitação com qualidade com luz, aproveitando a ventilação, mudando o uso (geralmente para residencial).”

Arquiteta, engenheira civil  e consultora em sustentabilidade, Aurea Vendramin diz que o interesse no País ainda é majoritariamente motivado pela redução de consumo. “Sempre a gente vê a Europa anos luz na frente. O Brasil está caminhando com uma performance bem diferente.”

Ela vê, contudo, um aumento no interesse com a pandemia, especialmente em relação a conforto térmico, iluminação, aquecimento solar, reuso de água, geração de composteira e painéis fotovoltaicos. “Tem edifícios novos, recém-entregues, que já precisam ser readequados. São edifícios novos e burros, com apartamentos inteligentes, que têm tudo da nova tecnologia de consumo, mas que o edifício não tem uma estrutura com olhar para o meio ambiente.”

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‘Não precisamos construir mais, precisamos viver de outra maneira’, defende professor da Sorbonne

Pesquisador é um dos idealizadores da cidade de 15 minutos, tema pelo qual fez consultoria para projetos urbanos de Paris

Entrevista com

Carlos Moreno

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

27 de agosto de 2020 | 05h00

O pesquisador franco-colombiano Carlos Moreno é uma das principais referências mundiais na discussão de cidades inteligentes, desenvolvimento sustentável e crono-urbanismo. Foi um dos principais idealizadores da cidade de 15 minutos, tema pelo qual fez consultoria para os atuais projetos urbanos de Paris.

Além disso, é professor da Universidade de Sorbonne, onde também é diretor-científico de uma cátedra de inovação, empreendedorismo e território. Por videochamada, falou com o Estadão sobre desenvolvimento urbano sustentável, papel dos setores público e privado na mudança das cidades e contribuição da tecnologia, entre outros temas.

 

Como o urbanismo pode tornar a vida na cidade mais sustentável?

Precisamos mudar a nossa visão sobre a cidade para dar muito mais importância para a qualidade de vida dos que vivem nela, baseada no acesso aos serviços fundamentais, que precisam ser encontrados em uma melhor distribuição do espaço urbano para que se tenha acesso a esse serviços: moradia, trabalho, abastecimento, saúde, educação, cultura e o ócio. Essas funções sociais urbanas estão no coração da qualidade de vida. Necessitamos hoje poder oferecê-las com forte descentralização para que seu acesso não nos obrigue, como hoje, a percorrer grandes distâncias, o que nos leva a congestionar a cidade, a ter muita poluição e pôr em perigo nossa saúde. Ao mesmo tempo, essa distribuição de serviços na cidade é ecológica, porque nos preserva quando sabemos que o nosso inimigo hoje em dia são as mudanças climáticas. E, terceiro, em um mundo ameaçado pela pandemia, isso nos permite ter uma cidade com menos pressão e mais acessível, o que significa uma cidade muito mais sã. Temos de mudar o paradigma, mas não (para) uma cidade que melhora pela tecnologia ou por intervenções em grandes obras, mas uma cidade que oferece uma qualidade de vida porque há muitos serviços para os cidadãos em muitos lugares da cidade. Distribuição, descentralização, com uma visão de ecologia, humanista e de economia circular.

A pandemia mudou a forma que se pensa o urbanismo e vai ajudar a pensar cidades mais sustentáveis?

Nos mostra que o mundo urbano é muito frágil, é imperfeito e incompleto. Esses três elementos maiores fazem com que tenhamos de mudar de estilo de vida. Diante das mudanças climáticas, necessitamos de neutralidade de carbono até 2050 e, desde hoje, diminuir nossas emissões de C02 por ao menos 45%. Diante da pandemia, precisamos reduzir o contato massivo, mas temos de manter a atividade econômica e social. Não podemos fazer uma ecologia somente de preservação do meio ambiente, sem que nos interessamos por uma economia que funcione com uma redistribuição de renda para tirar as pessoas da pobreza. E, ao mesmo tempo, a atividade econômica precisa ter um impacto social para que socialmente tenhamos mais democracia, menos racismo, menos intolerância, menos exclusão de pessoas por sua cor, seu gênero, suas orientações sexuais ou sua maneira de pensar. Então, a pandemia oferece hoje uma obrigação de precisar viver de outra forma. E o conceito dos 15 minutos na cidade, de proximidade, oferece uma alternativa que é credível para o mundo urbano. Não precisamos hoje em dia fazer novas revoluções urbanas, precisamos de uma regeneração urbana. Não precisamos construir mais, precisamos viver de outra maneira.

O conceito da cidade de 15 minutos é replicável para o Hemisfério Sul, com realidades bastante distintas das grandes capitais europeias?

As cidades de 15 minutos são uma reflexão de fundo sobre um novo paradigma urbano, não é uma receita mágica. O mundo urbano hoje em dia corresponde a algo, que é um pouco esquecido, que é a sua complexidade. Cidades da América Latina, como São Paulo, Rio, Cidade do México, Buenos Aires, são complexas porque pertencem a uma territorialidade que foi construída, em muitas ocasiões, de maneira muito caótica, de uma maneira informal. A construção da cidade nunca foi feita com uma reflexão sobre a qualidade de vida urbana. Se construiu com critérios de gente que vinha do campo à cidade e uma organização especial muito segmentada: o centro de negócios, o centro histórico, a cidade dos ricos, geralmente no norte, as cidades de classe média e todos os cordões de pobreza. O que observamos na América Latina é que precisamos desenvolver novos paradigmas urbanos. Necessitamos sair de cidades planejados a curto prazo, com prefeitos que duram pouco tempo e muitas vezes fazem grandes obras de infraestrutura porque pensam que é a transformação urbana, o que não é certo. E geram grandes macroprojetos, que são fontes de corrupção, como foi no Brasil, com a Odebrecht, mas que ressoam em todo o continente latino-americano. Então, a cidade de proximidade, dos 15 minutos, obedece a um conceito de paradigma urbano distinto, que é considerar um território e sua descentralização, que significa uma vontade política para não investir dinheiro em grandes trabalhos faraônicos, fontes de corrupção, mas em estudar o território e como foi construído, compreender o que falta, para oferecer serviços de muito mais qualidade em atenção a cada um dos habitantes. Essa cidade dos 15 minutos é possível com nova maneira dos governos locais de se comprometer com as mudanças urbanas, um movimento de empoderamento cidadão e um diálogo com os setores econômicos para que compreendam a importância de sair da segmentação da cidade. Se descentralizamos a cidade, podemos relocalizar a economia como muito mais fluidez, em um século em que as tecnologias digitais nos permitem descentralizar sem perder produtividade e a capacidade de desenvolvimento econômico. De que serve produzir mais para conseguir mais, se o dinheiro que gasto de consumo me tira o tempo de vida para mim, minha família, meus vizinhos e o bem do planeta? Então, é um desafio histórico para que, em tempo de pandemia, paremos a máquina infernal que nos está conduzindo ao abismo, para tratar de levar a uma vida que consiga ecologia diante das mudanças climáticas e crie canais de economia sustentável com uma riqueza melhor compartilhada e um desenvolvimento social.

Qual é o papel do setor privado para garantir um urbanismo mais sustentável?

O desenvolvimento sustentável não é somente a ecologia ambientalista. O Muhammad Yunus, prêmio Nobel de Economia em 2006, escreveu um livro que se chama "O Triplo Zero", zero carbono, zero pobreza e zero exclusão. Quando o professor Yunus fala de zero carbono, estamos falando de criar valor ecológico diante das mudanças climáticas. Quando diz zero pobreza, estamos falando de criar valor econômico diante a uma pobreza divide socialmente. Quando fala de zero exclusão, estamos falando do impacto social da economia. Então, desenvolver uma cidade sustentável é desenvolver uma cidade que converge em criação de valor ecológico, econômico e social. Desenvolver economicamente é criar com o setor privado, e não podemos ignorá-lo e nem enfrentá-lo como inimigos. Devemos criar um diálogo com o setor privado para mudar a maneira de agendar a economia dentro do mundo urbano. Temos de aceitar o setor econômico em particular, porque vivemos no século das cidade. O setor econômico precisa ter um compromisso com o desenvolvimento urbano, porque é onde vive a maioria da população e onde se desenvolve a riqueza e a pobreza, é onde está a exclusão e as oportunidades, é onde se gera poluição e se reforça as mudanças climáticas ou é onde se gera possibilidades de enfrentá-la e criar uma neutralidade de carbono. Então, o território econômico é fundamental nesta nova viagem para mudar de paradigma. Mas a resposta seria incompleta se não destacar igualmente que precisamos de um poder público forte, que tenha um papel de regulação para impedir que o setor privado ande como um cão em sua casa, que é o que tem acontecido até agora. O problema da América Latina é que os governos locais e os nacionais não têm sido sempre os fiadores do bem comum.

Como começar a fazer essas mudanças o que o senhor propõe?

Precisamos que a cidade intervenha economicamente como elemento regulatório. Em Paris estamos fazendo isso. A cidade tem voz e capacidade de decisão sobre os metros quadrados que utiliza. Comprar metros quadrados pela cidade para colocá-los em alojamento ou para colocá-los à venda, mas sem especulação imobiliária, separando o preço do solo do preço do que será construído em cima. O que se vende, o que se aluga, é o que está construído. Igualmente em Paris se compra metros quadrados para alugar para para se instalarem comércios de baixa rentabilidade, porque com uma livraria não se ganha mais muito dinheiro, com uma galeria de arte não se ganha muito dinheiro. Então, oferecer elementos de insumo e de consumo que sejam de qualidade de vida e não simplesmente comércios para vender brinquedos de plástico que vêm da China ou quadrinhos que vêm com uma ideologia da Marvel e que não nos trazem uma capacidade de criatividade e de enraizamento da nossa cultura popular e nossa cultura de bairro.

E como incluir a natureza a essas mudanças nas cidades?

Vivemos em cidades cimentadas. Vivemos em cidades petrolizadas, porque construímos grandes avenidas para carros particulares e individuais. E o terceiro elemento químico é o plástico, porque nós plastificamos a cidade: até um tomate que compramos em um supermercado é envolto em plástico. Estamos comprando uma maneira de viver que nos está separando da natureza e da biodiversidade. Muitas vezes vemos a natureza na América Latina, os rios, as árvores, como algo externo a nós, como um elemento de ornamentação, ou seja, para ser bonito. A natureza não é um ornamento. Nós somos a natureza, pertencemos à natureza. A América Latina nas épocas pré-colombianas, nas épocas indígenas, nas grandes civilizações ameríndias, o homem e a natureza, a biodiversidade, eram uma só continuidade, então essa circularidade da vida foi perdida, porque temos transmitido de geração em geração, depois da cidade moderna, uma cidade linear.

Como a tecnologia pode ajudar a fazer essas mudanças mais rapidamente e com menor custo?

Ela é um elemento chave, porque hoje em dia temos acesso a uma grande variedade de soluções tecnológicas que poderiam levar ao caminho de uma cidade sustentável, ecológica, econômica e social. O problema é que se tem feito o contrário: hoje em dia tem sido a tecnologia que tem decidido a forma da cidade para satisfazer interesses econômicos. Se, ao contrário, tivermos uma visão de ecologia humanista e de economia circular, baseada nessa ideia de proximidade, de descentralização, de bens comuns e de satisfação do interesse geral, estamos mudando a forma da cidade, estamos propondo outra maneira de viver. E, nesse caso, a tecnologia é um aliado maior. Se queremos, por exemplo, desenvolver uma cidade de 15 minutos, o que chamamos de densidade orgânica é um elemento muito importante com a tecnologia. E o que é densidade orgânica? Em vez de se fazer grandes complexos, estamos trabalhando em pequenas unidades nas quais estamos privilegiando os materiais que entram na economia circular, ou seja, que entrem dentro de uma construção que tem um lugar de vida em que monta e se desmonta igualmente. E essa economia circular são os materiais nobres, é a madeira, a terra, o bambu, é mesclar vegetação. Precisamos mudar o modo de vida. As tecnologias nos permitem hoje em dia captar o nível de intensidade de usuários em um momento para um serviço. Com essa tecnologia, podemos saber que não estamos otimizados e promover esse mesmo serviço a um preço muito mais baixo. É melhor ter gente que pague menos para que lhe cubra custos básicos do que pessoas que não podem pagar a um custo elevado. Então, é o que chamo de serviços tecnológicos de motorização urbana. São novos modelos econômicos, e não modelos de serviço ou de uso, que se faz no sentido de intensificar a vida social de proximidade.

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Reduzir desigualdades é essencial para tornar cidades sustentáveis, destacam especialistas

Expansão desordenada criou cidades espraiadas, desiguais e repletas de problemas urbanísticos, especialmente de mobilidade, saneamento básico, habitação e acesso a lazer e serviços; exemplos de países vizinhos mostram que é possível mudar

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

27 de agosto de 2020 | 05h00

Os países latino-americanos acumulam um passivo que torna o desenvolvimento urbano sustentável mais urgente e complexo. Enquanto capitais europeias cresceram ao longo de séculos, São Paulo, Cidade do México, Bogotá, Buenos Aires e outras vizinhas enfrentaram um crescimento por vezes informal, desordenado e rápido nos últimos 100 anos.

A expansão caótica criou cidades espraiadas, desiguais e repletas de problemas urbanísticos, especialmente de mobilidade, saneamento básico, habitação e acesso a lazer e serviços. Entre especialistas, uma retomada verde nas cidades somente ocorrerá se o planejamento urbano reduzir essas diferenças. “A gente não pode falar em cidades sustentáveis sem falar em justiça social. Quando se fala de sustentabilidade, ela envolve o domínio ambiental, o social e a dimensão econômica”, defende Fabiano Lemes de Oliveira, professor de Urbanismo da universidade Politécnico de Milão.

Ele cita como exemplo Medellín, que se tornou referência mundial com projetos urbanos para melhorias e inclusão das populações mais marginalizadas, com a criação de bibliotecas-parques e a implantação de uma rede de teleféricos integrada à de metrô. “Fez uma transformação radical naquele entorno. O próprio projeto Favela-Bairro (criado nos anos 90, no Rio) teve aspectos muito positivos, de transformação das comunidades (com implantação de equipamentos públicos, praças e outras melhorias urbanas).”

A exemplo da cidade colombiana, antes conhecida pelos altos índices de violência, o professor acredita que as capitais brasileiras podem se reinventar. “Temos um potencial tão grande e inexplorado que as cidades brasileiras poderiam em algum momento se transformarem em exemplos positivos para contextos tropicais, para outros contextos para além do nosso País.”

Para isso, políticas públicas e iniciativas privadas precisam ser repensadas. Não há mais sentido investir em habitação em áreas sem infraestrutura no entorno.

Um dos problemas que se tem no Brasil é que pouco se faz cidade hoje em dia. Se faz muitos condomínios fechados, mas isso não é fazer cidade de fato, o próprio condomínio tenta se fechar contra a cidade”, diz. “Quando a gente fala de fazer cidade, a gente fala de usos múltiplos, diferentes grupos sociais, de conexão entre os espaços. E isso a gente não vê muito”, pontua Oliveira, que descreve São Paulo como provavelmente a “mais complexa das mais complexas metrópoles” brasileiras.

Professor do Instituto de Biociências da USP e coordenador do programa USP Cidades Globais, Marcos Buckeridge lembra que um planejamento urbano desigual não só impacta a qualidade de vida das populações menos assistidas, mas também se torna fator de risco - o que é visto na pandemia da covid-19, em que populações de mais baixa renda estão mais vulneráveis pela falta de água, moradia e infraestrutura adequadas. “A história de uma cidade determina o que ela é. São Paulo e Rio de Janeiro cometeram erros históricos.”

Ele destaca ainda que capitais brasileiras, como a paulista, têm características tão complexas, que a qualidade de infraestrutura e serviços varia dentro de um mesmo bairro e região. “Não dá mais para a cidade de São Paulo ser vista como centro e periferia, está tudo entremeado. A divisão de hoje, por subprefeituras, está desatualizada”, atesta. “Dentro de regiões em que parece que está tudo bem, tem cortiço, favela, sistemas que não funcionam da mesma forma do que a rua do lado.”

Professora do Departamento de Tecnologia de Arquitetura e Urbanismo da USP,  Roberta Kronka defende o adensamento das áreas com mais profusão de serviços. “Existe um dogma de que adensar é falta de qualidade urbanística, e não tem nada a ver. Posso ter áreas com densidade baixíssima sem qualidade e super adensadas com baita qualidade humana”, diz. Para ela, nesse cenário, é preciso ter uma atuação forte do poder público para evitar a expulsão das camadas sociais mais baixas das regiões.

É o que também argumenta o urbanista Carlos Leite, professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie e coordenador do Núcleo de Urbanismo Social do Laboratório de Cidades Insper-Arq.Futuro. “As cidades sempre se reinventam a partir das suas grandes crises, catástrofes e episódios de doenças gravíssimas. Aconteceu na Europa e Estados Unidos várias vezes”, lembra. “Temos uma imensa oportunidade, quase obrigação, de reinventar as cidades no Brasil. E São Paulo é a maior de todas, onde, por sua escala, os problemas são muito maiores. Ela pode e deve mostrar até um padrão de liderança.”

Para ele, a pandemia é uma oportunidade de mudança, de tornar as metrópoles mais inclusivas, deixando as periferias como reserva de água e verde. Um adensamento ideal é raridade no País, com exceção a alguns bairros de classe média e alta, como os paulistanos Higienópolis e Santa Cecília, e os cariocas Copacabana e Ipanema.

Não é mais possível viver desse jeito, com uma cidade informal, com tanta pobreza, tanta falta de infraestrutura, equipamento público, UBS, saúde, saneamento, acesso à internet, tudo”, reitera. “Cidades mais sustentáveis e inteligentes antes de mais nada, antes que isso vire rótulo, são cidades para as pessoas, saudáveis e equilibradas.”

Para tanto, além de resolver as desigualdades de infraestrutura, o urbanista destaca a necessidade de um bom Plano Diretor (a exemplo do paulistano) e marco regulatório para identificar as demandas locais, big data para mapear e diagnosticar problemas e participação ativa da sociedade civil. “Infelizmente, no Brasil, não temos bons casos completos de urbanismo sustentável ou trechos de cidades, ruas, com senso de urbanidade como se vê em tantos lugares do mundo. Talvez Barcelona seja o maior exemplo.”

Ele aponta que uma mudança requer duas frentes. A primeira é mais simples, com a implantação de boas calçadas, transformação das ruas com arborização, iluminação, mobiliário e afins. Já a segunda, a mais complexa, é adensar com uso misto. Ambas são interdependentes.

“Você pode fazer a primeira parte no Morumbi, em Alto de Pinheiros ou nos Jardins, por exemplo, e não vai ter ninguém usando, porque não vai ter densidade e uso misto, que é o que leva pessoas a irem a uma padaria, no mercado, na lanchonete”, diz. “A mistura de rendas também é desejável. Mas, no Brasil, há uma imensa resistência da classe média e alta de morar com outras classes.”

Por sua vez, Luis Antonio Lindau, diretor do programa de cidades do WRI Brasil, exemplifica essa necessidade de mudança de paradigma com o exemplo de governantes que pretendem investir em grandes obras de estradas no pós-pandemia, decisão que considera ultrapassada. “É uma leitura dentro da velha economia. Muito mais interessante seria direcionar essas obras para resolver problemas urbanos na escala do bairro e essas coisas mais prementes que a população está sofrendo, e que também dão empregos.”

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'Problemas e soluções para futuro sustentável estão nas cidades', diz ex-chefe da ONU-Habitat

Claudio Acioly Jr. trabalha com urbanização de favelas, habitação e desenvolvimento urbano em instituições internacionais

Entrevista com

Claudio Acioly Jr.

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

27 de agosto de 2020 | 05h00

O arquiteto e urbanista carioca Claudio Acioly Jr. foi chefe da unidade de capacitação e formação profissional da ONU-Habitat, na qual esteve por 12 anos. Também recentemente ocupou cargos de direção na Agência Alemã de Cooperação Internacional e no Programa Internacional de Cooperação Urbana na América Latina e Caribe, da União Europeia.

Radicado fora do Brasil há mais de 30 anos, atualmente se divide entre o Quênia e a Holanda. É especialista em habitação, urbanização de favelas e gestão do desenvolvimento urbano. Nesta entrevista ao Estadão, ele discute a necessidade de se pensar cidades mais sustentáveis, os efeitos da pandemia do novo coronavírus e o papel da tecnologia no desenvolvimento urbano, dentre outros assuntos.

O urbanismo costuma ser lembrado quando se discute sustentabilidade? De que forma ele deveria ser inserido nesse tipo de discussão?

Não, infelizmente a dimensão espacial do planejamento urbano não estava tão evidente (até alguns anos atrás). Mas creio que de 2014 em diante, (há) esse movimento, o consenso de que as coisas estão acontecendo na cidade. (Um exemplo é) quando o secretário-geral da ONU vai a público e diz que a luta na adaptação e mitigação das mudanças climáticas vai ser travada, ganha ou perdida, nas cidades, porque elas contribuem com as emissões, mas também são parte da solução. E, por isso, o objetivo de desenvolvimento sustentável 11 (da Agenda 2030, elaborada pelas Nações Unidas) é das cidades. E isso nunca esteve tão claro, tão evidente, em uma agenda global, de desenvolvimento sustentável.

A pandemia aumentou a sensibilização dos poderes para se pensar em cidades mais sustentáveis?

A pandemia exacerbou os problemas que já existiam antes. Havia já uma crise dentro da cidade em vários locais do mundo, a desigualdade aumentando, uma cidade estratificada e segregada, onde você tem os ricos e os pobres, aqueles que têm acesso a tudo e os que não têm. A pandemia começa a colocar tudo isso em cheque. De repente, a pegada de carbono de áreas metropolitanas diminuiu assustadoramente, aí você começa a ter melhor qualidade da água da praia, do ar, as pessoas começam a observar a beleza da arquitetura da cidade e a importância que aquele espaço construído tem no dia a dia e na qualidade de vida das pessoas. E aí você entra nas áreas informais e vê o impacto que causou em obrigar as pessoas a se isolar dentro de uma habitação precária. Por esses dois lados, verificamos que a pandemia trouxe para o debate a questão do planejamento da cidade e a cidade que nós queremos no futuro. Toda vez que nós tivemos na história da humanidade, essas febres, essas externalidades sanitárias, em que morreu muita gente, sempre vieram proclamadores da desgraça que diziam que esse é o fim da cidade. E, no entanto, a cidade se reinventou, o homem e a mulher saíram do homo sapiens para o homo urbes, porque somos um ente social em que essa troca social é transformadora, gera relações sociais e econômicas, gera oportunidades, e problemas também, e todas as inovações que hoje nós temos no mundo nasceram dessas aglomerações. A pandemia colocou qual é a importância da cidade. Por exemplo, aqui na Holanda, o primeiro-ministro falou em um determinado momento que, por sorte, o país é denso, as cidades são densas e, portanto, os equipamentos estão todos muito perto das pessoas, as pessoas podem usar a bicicleta, ir caminhando, não necessitam de um automóvel para poder alcançar esses equipamentos. Então, eles conseguiram maximizar a baixo custo e salvar muitas vidas, por terem essa urbanização que é muito planejada de uma forma mais densa.

O senhor diria, então, que não há como ter um futuro mais sustentável sem mudanças nas cidades?

Exato. As cidades terão de se transformar. Seguramente, essa transformação tem dois viés. Um é a mobilidade, que se conecta diretamente com o uso do solo, quem controla a terra urbana, como vamos lidar com o uso e a ocupação, e aí vamos ao planejamento, o que vai definir as regras dessa ocupação, até que ponto podemos densificar. Para otimizar o transporte você pode permitir a verticalização da terra naqueles locais e você diminui um pouco mais (em outros) para ter esse balanço entre áreas mais verdes e menos ocupadas e as áreas mais ocupadas. Isso é planejamento, gestão do território. E o outro elemento é o acesso à habitação adequada, que tem que estar conectado com o planejamento urbano. As pessoas querem morar perto. Por que a gente tem favelas localizadas em determinados locais e se densificam de uma forma rápida? Porque as pessoas têm que pagar transporte caro, (e ficar) muito tempo no transporte, então preferem assumir o risco e morar apertadamente, de má qualidade, por estar perto do mercado de trabalho. Aí voltamos a outro elemento: a questão do emprego. Com essa experiência da pandemia, vai passar por uma reestruturação, a geografia do emprego vai mudar. E o último ponto é que a oferta de espaço residencial e espaço de escritórios e comércio vai mudar também, e isso vai ser uma adaptação que a gente vai ter que passar. (Por exemplo) A tendência que está acontecendo nos Estados Unidos e que pode vir a se repetir nos países em desenvolvimento, é dos shoppings malls se detonando, porque as pessoas não querem (mais), elas querem ir no seu comércio local que havia sido destruído por aquela concentração do shopping.

Como começar a fazer as mudanças necessárias em uma cidade do tamanho de São Paulo? Como o poder público e o setor privado podem começar a pensá-las?

Logicamente que São Paulo tem uma área informal muito grande, uma região metropolitana bastante complexa, tem esse movimento pendular de periferia ao centro ou aos locais onde estão concentrados os empregos, então uma das coisas que nós poderíamos discutir é melhorar a oferta do transporte público, torná-lo não só mais eficiente, confortável, seguro, barato e acessível, mas ter toda uma conexão desse transporte com outros modais. Você tem aí medidas de desestimular o uso individual do automóvel, já se tentou isso, mas não se deu uma alternativa. Acho que existem várias possibilidades. Uma escala metropolitana como São Paulo requer uma forma bastante diferenciada de planejamento, inclusive de se trabalhar o ente metropolitano, os acordos ou consórcios municipais para que você possa gerar soluções condominiais, por exemplo, lixo, transporte, coisas que atravessam os territórios do ABC, da Prefeitura de São Paulo e das outras prefeituras. Se a gente não incluir a dimensão do planejamento urbano e do desenho da cidade como ela se configura junto às outras dimensões, nós não vamos conseguir dar esse salto da sustentabilidade.

Na realidade brasileira, é preciso primeiro resolver os problemas de base, como o de moradia, por exemplo? Ou as inovações com tecnologia e conhecimento devem ocorrer simultaneamente?

Não temos outra opção que não seja fazer essas coisas concomitantemente. Se formos primeiro fazer isso para fazer outro depois, vamos perder, vamos nadar, nadar, nadar e morrer na praia. E há uma série de prefeitos no Brasil que já estão fazendo essas coisas de uma forma muito criativa. Niterói, por exemplo, está mostrando que é possível fazer algumas coisas de uma forma diferenciada, envolver a população, melhorar a administração pública, olhar os seus recursos naturais, criar um uso disciplinado e sustentável da costa e de muita área do ponto de vista ambiental, da qual se está cuidando e também seus problemas sociais. E tem uma outra coisa importante que é a educação, dentro das escolas. A cidade tem uma oportunidade única de criar uma nova geração de crianças que vão monitorar os pais, vão monitorar a cidade e você vai ter pequenas práticas que começam a mudar. Palmas (no Tocantins) resolveu se comprometer com o pacto global dos prefeitos e começou a mudar a matriz energética, começando pelos edifícios públicos e colocando massivamente um programa de energia solar. Eu sou um otimista de que se as cidades tiverem a capacidade de liderança, equipes técnicas engajadas e um diálogo com a sociedade civil, elas vão conseguir fazer essa mudanças. Agora, vai ter de fazer as coisas ao mesmo tempo. A gente infelizmente tem um passivo em todas as nossas cidades, e a gente tem que ter um cuidado muito sério com esse passivo porque exclui muita gente dos benefícios que a urbanização planejada e bem gestionada pode dar para todas as pessoas.

De que forma o Estado e o governo federal também podem facilitar essas mudanças? E como o setor privado vai entrar nisso?

Não acredito que essa tarefa seja só do poder público. E também não acredito que só fazendo a ação social, engajando a população, você vai conseguir essa agenda. Você tem que trazer o capital. Você tem que trazer a empresa, as pequenas, médias e grandes empresas com a sua responsabilidade corporativa-social. Aí está não só presente a sua força de trabalho quanto o seu exército de consumidores. Temos de dar uma revisão na nossa legislação, que tem umas pegadas maquiavélicas, do qual o empresário não tem muita vontade de se impregnar. E os prefeitos e gestores públicos têm muito medo, porque você necessita de tantos mecanismos de controle e (há) muitas suspeitas de manipulação, que sempre existiu na administração pública. Você tem de ultrapassar essa paranoia e criar um diálogo aberto entre os órgãos fiscalizadores, regulares e o setor privado. A gente tem algumas leis que avançam, algumas experiências que são possíveis e uma lei federal, o Estatuto das Cidades, que dá muitos instrumentos para a prefeitura intervir. Temos de deixar claro essa divisão entre a propriedade imobiliária, do solo, e quem autoriza o uso daquele propriedade. As pessoas se acostumaram a achar que por ter o direito de propriedade têm o direito de construir. E muitas prefeituras deixaram essa coisa rolar assim.

Como planejar mudanças urbanas em grandes cidades, como São Paulo, que têm tantas diferenças regionais?

Uma das coisas mais importantes é a gente ter conhecimento da realidade, e esse conhecimento vem com dados, gestão da informação, indicadores e um sistema operacional-administrativo de gestão urbana, no qual eu possa ter um fluxo de informação para entender essa dinâmica e monitorar essas transformações que vão ocorrendo. A cidade, como aglomeração, é muito dinâmica. E a gente tem de entender essas especificidades e diferenças para pensar no futuro. Uma visão do futuro trabalhada com bases, com diálogo, com consulta, ouvindo as diferentes correntes e grupos. Há diversas formas de construir essa visão. Mas como a gente chega lá? Aí a gente precisa descobrir qual é a vocação da minha cidade nesse território, nessa economia. Uma pergunta fundamental. Aí o planejamento e as intervenções do poder público com os seus associados parceiros privados, comunitários, etc, vão fortalecer essas vocações e, aos poucos, fazendo o que alguns chamam de acupuntura urbana, que são os projetos estratégicos que transformam áreas, bairros, e, no conjunto, esses projetos ajudam a viabilizar essa visão. A gente tem uma prática do Plano Diretor, que tem um universo de 10, 20 anos, e muita coisa acontece, algumas externalidades, de repente aparece um vírus e o teu plano está fixo e aprovado por 20 anos. Você tem que ter um mecanismo de planejamento, de flexibilidade, para que possa se adaptar, mas sem ser oportunista para que as forças de interesse econômico possam manipulá-lo. Então, é um processo difícil: como criar um plano diretor que não seja uma camisa de força e como criar um projeto de desenvolvimento estratégico que não seja tão amplo e tão aberto, que todo mundo vai mudando a seu interesse? Aí, que a gente tem que encontrar um meio termo.

O conhecimento e a tecnologia que existem hoje tornam menos difícil eliminar ou reduzir esse passivo das cidades latino-americanas?

Tem aí um movimento das cidades inteligentes, que ganhou muita escala e, às vezes, é mal compreendido, que se baseia só no princípio de que a tecnologia vai solucionar tudo. Mas a cidade inteligente não é só a tecnologia. Ela é uma forma de olhar a cidade do ponto de vista de acessibilidade, mais eficiência dos serviços, maior transparência, melhores equipamentos, que possam gerar esse ganho para a administração pública ao mesmo tempo que um ganho de qualidade para a população. E aí você tem na parte de segurança, de iluminação pública, de coleta do lixo, da gestão de tráfego, enfim, no controle de dados. Já existe uma biblioteca de experiências dessas iniciativas de cidades inteligentes, que têm um viés sustentável. Há muito avanço, inclusive no que é chamado de arquitetura verde, construção verde, você tem aí os conselhos de construção verde em vários países que promovem não só pesquisa e desenvolvimento, mas também os projetos.

Além de adotar medidas para reduzir emissões, o desenvolvimento sustentável precisa de uma reconciliação maior com o meio ambiente, incluí-lo de outras formas?

Se você não cria uma urbanização que vai deixar de consumir área verde para transformar em área de concreto e asfalto, vai começar gerar mais problemas. Aqui, em Roterdã, a prefeitura lançou um plano de aumentar em 10 vezes a cobertura vegetal. Singapura está fazendo isso há muito tempo também. Estão fazendo umas coisas impressionantes, de recuperar a mata ciliar e fomentar o uso de vegetação em todo tipo de edifício e espaços públicos, de coisa séria, de escala. Você tem aí uma série de conhecimentos e tecnologias que tem que ser introduzidas nessa coisa mais micro da gestão urbana. A gente deveria também desmistificar de que meio ambiente está ali e que não se toca. Com tecnologia e conhecimento, chegamos à conclusão, por exemplo, que é possível fazer uso do meio ambiente para proporcionar desenvolvimento sustentável. A gente tem de ser bem cuidadoso para não dizer que está promovendo o desmatamento desenfreado, mas a gente está dizendo que o ambiente é parte da equação de desenvolvimento urbano sustentável.

Como seria a cidade do futuro?

Essa cidade sustentável será uma cidade onde seus resíduos sólidos são reciclados, onde eu posso ver a reutilização dessa matéria, como foi aqui, em Roterdã, na produção de tijolos para pavimentação. Então, você tem aí uma economia circular, que permite que tudo que a gente utilizar ser trazido de volta de alguma forma sem impactar o meio ambiente. Uma cidadania educada, que não joga plástico fora, que não joga lixo na calçada, que respeite os direitos do outro de ir e vir. Uma cidadania que exerce o seu direito humano e respeita esse direito dos outros, e que cumpre com as suas obrigações como cidadão. Uma cidade onde eu possa caminhar, pegar a bicicleta e sair até um parque, onde eu possa desfrutar de lugares de silêncio, onde possa ter habitação de qualidade, que respeite o seu entorno, e onde você tenha acesso aos equipamentos mais necessários que uma pessoa precisa. Uma cidade que usa a sua capacidade fiscal em benefício da coletividade, e não só para alguns, que já são beneficiados demais. Acho que é um conjunto dessas coisas. E onde você possa ter acesso à cultura e à diversidade, que é uma coisa super interessante da cidade, que a gente aprende com os diferentes. Acho que aquela ideia da cidade da proximidade, que Singapura usou e agora Paris está querendo usar, eu chamo de cidade da proximidade e cidade da prosperidade, que são essas duas coisas: a conveniência dos serviços de qualidade e aquela aglomeração que me permite sentir parte de alguma e ter um controle social.

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