O que acontece com baleias que morrem nas praias?

De atração turística a objeto de estudos científicos, cetáceos são oficialmente propriedade da monarquia.

Caroline Lowbridge, BBC

14 Março 2012 | 07h51

Uma baleia cachalote ficou encalhada em uma praia na cidade inglesa de Skegness há dez dias. Foi a quarta a aparecer na região - o condado de Lincolnshire - em anos recentes.

Baleias mortas podem ser objeto de estudo científico e até atração turística, mas também podem trazer riscos à saúde pública.

Quando a cachalote apareceu na praia de Skegness em uma manhã de sábado, acabou se tornando uma espécie de atração turística.

Centenas de pessoas foram à praia ver o animal. E algumas fizeram questão de ser fotografadas ao seu lado.

Mas um acontecimento como esse é bem menos raro do que as pessoas pensam.

Segundo o Cetacean Strandings Investigation Programme ou Programa de Investigação de Encalhamentos de Cetáceos, (CSIP na sigla em inglês), só no ano passado houve nove casos registrados de cachalotes que foram parar em alguma praia britânica.

Venda online

No início deste ano, a polícia investigou relatos de que partes de uma baleia morta encontrada no condado de Norfolk estariam à venda no site Facebook.

O gerente de projetos do CSIP Rob Deaville disse que, em princípio, as partes da baleia pertencem à coroa britânica.

Apesar de biologicamente serem classificadas como mamíferos, "elas são classificadas como peixes reais", segundo Deaville, que trabalha para a Zoological Society of London.

"Um estatuto muito antigo deu ao chefe da coroa o direito sobre todos os cetáceos encalhados em torno do Reino Unido. O rei tinha direito à cabeça e a rainha tinha direito à cauda".

Deaville não tem conhecimento, no entanto, de que um monarca tenha de fato requisitado um pedaço de uma baleia.

"A prerrogativa real foi transferida para o Receiver of Wreck (oficial que lida com questões legais relativas a naufrágios) da Maritime and Coastguard Agency (a Marinha Costeira britânica), mas na prática nosso projeto é o primeiro a ser chamado".

Após ser informado sobre o encalhamento, o CSIP decide se quer ou não examiná-la.

Espécies de baleia também são coletadas pelo Natural History Museum, em Londres. Como parte de um acordo negociado em 1913, o museu obteve acesso a cetáceos encalhados para investigações científicas.

"Elas são tão difíceis de estudar no seu habitat natural que encalhamentos dão a você uma oportunidade única de aprender mais sobre elas", disse Deaville.

Desde 1990, o CSIP já registrou cerca de 10.500 encalhamentos de cetáceos (ordem de mamíferos que inclui baleias, botos e golfinhos), mortos e vivos. Destes, cerca de 10% eram baleias.

Dos 10.500 encalhamentos, o CSIP fez exames em cerca de 3 mil.

Às vezes, os testes são feitos antes de a baleia ser removida - dependendo do tamanho do animal e das dificuldades de transporte.

Decomposição

No caso da baleia encontrada em Skegness, especulou-se que o animal teria sido morto por um barco, porque havia um grande corte na pele do cetáceo.

Ela não foi examinada porque os especialistas decidiram que estava em estado de decomposição avançado demais.

"Pode ter sido uma pancada por um barco, mas não podemos dizer ao certo sem termos examinado (a baleia)", disse Deaville após olhar algumas fotografias.

Se os incidentes com baleias são resultado de atividade humana, as informações coletadas podem ser usadas para prevenir mais mortes.

Mas Deaville disse que muitas baleias morrem de fome.

"Apenas cachalotes machos ficam encalhadas na Grã-Bretanha e todas as que examinamos após a morte mostravam evidências de falta de alimentação recente", disse.

As cachalotes normalmente encalham na Escócia ou na costa leste da Inglaterra.

"Parece que elas entram no Mar do Norte, onde não conseguem se alimentar", disse.

"As fêmeas são provavelmente parte de uma unidade matriarcal em outro local".

Saúde Pública

Uma das mortes de baleia que mais chamou a atenção na Grã-Bretanha nos últimos anos foi o caso de uma baleia da espécie Hyperoodon ampullatus, também conhecida como nariz de garrafa do norte, que nadou rio acima pelo Tâmisa em janeiro de 2006 e morreu apesar de grandes esforços para salvá-la.

Um ano mais tarde, emprestado pelo Natural History Museum, o esqueleto da baleia foi exposto na sede de um jornal britânico.

Em setembro de 2009, várias pessoas se revezaram para subir no corpo de uma baleia minke que apareceu morta em Barry, no Vale de Glamorgan, no País de Gales.

Mas um corpo de baleia em decomposição pode trazer riscos à saúde pública, o que significa que autoridades locais ou proprietários de terrenos (no caso de praias particulares) normalmente são responsáveis pela remoção das carcaças.

"Houve casos em que (a carcaça) foi deixada no local para se decompor naturalmente - pois não era possível removê-la. O risco para a saúde pública é relativamente baixo", disse Deaville.

"Em algumas regiões da Escócia algumas baleias foram enterradas".

Os custos de remoção variam de acordo com o peso do animal. No caso da baleia encontrada em Skegness, a prefeitura local calcula que vai gastar em torno de RS$ 30 mil com a operação.

Muitos dos animais acabam em depósitos de lixo, mas incineração e processamento da carcaça (para obter óleo, por exemplo) também ocorrem.

Explosão

Em 1970, autoridades em Florence, no Estado de Oregon, Estados Unidos, optaram por explodir uma baleia como forma de dispor da carcaça. A operação foi filmada.

"Não fazemos assim na Grã-Bretanha e também não aconselhamos esse método, porque você acaba com a praia cheia de pedaços de baleia que precisam ser removidos de qualquer maneira", disse Deaville.

No entanto, baleias mortas podem explodir naturalmente. Foi o que aconteceu em 2004 com uma cachalote que estava sendo transportada para um centro de pesquisas em Tainan.

"Ela explodiu no caminho por causa dos gases que se acumularam dentro", disse Deaville.

"Não sabemos quanto tempo levaria (para uma baleia explodir). Isso dependeria de vários fatores". BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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