Antonio Cruz/Agência Brasil
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O presidente precisa de um reboot em liderança sistêmica

'As consequências da falta de visão sistêmica do nosso chefe de Estado já se fazem sentir'

Umesh Mukhi, professor da FGV

26 de agosto de 2019 | 15h39

A repercussão das queimadas na Amazônia trouxe para o nível mundial a discussão sobre a forma como o Brasil está lidando com suas questões econômicas, sociais e de meio ambiente. As características de liderança do presidente Jair Bolsonaro refletem, de certa forma, um anseio de parte da sociedade brasileira. Inegável que a forma como ele expressa seu carisma populista - muitas vezes com respostas agressivas - encontra amparo em segmentos numerosos da sociedade que se mostraram maior do que se imaginava, como revelado nas urnas. Mas o momento agora é outro. Um comentário que se passava por gracejo irrefletido na época da eleição se torna uma carta branca para transgressores potenciais, com sérias repercussões internacionais, quando feito pelo agora presidente.

As consequências da falta de visão sistêmica do nosso chefe de Estado já se fazem sentir. A União Europeia cogita impor embargos econômicos ao Brasil. O acordo entre a UE e o Mercosul também corre risco. Como resultado, o setor do agronegócio - em tese maior interessado no afrouxamento das leis ambientais - será diretamente afetado e, com ele, toda a balança comercial do País.

O ponto é que um líder não pode simplesmente relegar as políticas ambientais a uma questão interna e estanque, porque a proteção do meio ambiente é sistêmica por natureza. É possível nadar contra a corrente em questões de menor importância, mas em um assunto com tamanha primazia, ou se segue a comunidade global ou acaba-se perdendo o jogo.

Por fim, as qualidades específicas ostentadas por Jair Bolsonaro, como carisma e poder, bem como sua imagem projetada de um pai forte e rigoroso, dão a ele uma oportunidade única de aprender com as melhores práticas e canalizar seu capital pessoal para questões que possam se traduzir em bem-estar para os brasileiros que nele buscaram uma panaceia para seus sofrimentos. Ainda não é tarde. Até mesmo grandes líderes como Nelson Mandela passaram por processos transformativos e de aprendizado. Bolsonaro deve se perguntar: por qual legado quer ser lembrado pela história?

*ESPECIALISTA EM LIDERANÇA SUSTENTÁVEL, UMESH MUKHI É PROFESSOR DA FUNDAÇÃO GETULIO VARGAS EM SÃO PAULO E RECEBEU O TÍTULO DE EMBAIXADOR DO CLUB UNESCO SORBONNE POR SUA CONTRIBUIÇÃO INTERCULTURAL ENTRE A ÍNDIA E O RESTO DO MUNDO

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