Noah Berger/Associated Press
Noah Berger/Associated Press

O planeta progrediu no clima nos últimos anos. Mas não é o suficiente

Humanos já aqueceram a Terra 1,1 grau Celsius desde os tempos pré-industriais e planeta continua no caminho rumo a níveis perigosos de aumento de temperatura

Brad Plumer, The New York Times

03 de novembro de 2021 | 15h00

Países de todo o mundo começaram a fazer progressos significativos na luta contra as mudanças climáticas na última década, mostram novos dados, graças a uma célere expansão da energia limpa. No entanto, o planeta ainda está seguindo o caminho rumo a níveis perigosos de aquecimento nos próximos anos, a menos que esses esforços se acelerem rapidamente.

Enquanto líderes de todo o mundo participam da Cúpula do Clima das Nações Unidas, em Glasgow, Escócia, a questão é saber quantos graus a Terra vai esquentar e como manter esse número no menor patamar possível.

Os humanos já aqueceram o planeta 1,1 grau Celsius desde os tempos pré-industriais, principalmente pela queima de carvão, petróleo e gás natural para obter energia e pela derrubada de florestas, as quais ajudam a absorver as emissões causadoras do aquecimento global criadas pelo uso de combustíveis fósseis. A humanidade já está pagando um preço alto: só neste ano, ondas de calor devastadoras mataram centenas de pessoas no noroeste do Pacífico, enchentes arrasaram a Alemanha e a China e incêndios florestais destruíram regiões inteiras da Sibéria, Turquia e Califórnia.

A Organização Meteorológica Mundial alertou que a quantidade de gases de efeito estufa que retêm o calor na atmosfera atingiu um recorde no ano passado e está subindo novamente este ano. Os cientistas dizem que cada fração de grau de temperatura a mais agravará as condições meteorológicas extremas e outros riscos ao redor do globo.

Então, quanto as coisas vão esquentar? Para responder a essa pergunta, os cientistas do grupo de pesquisa Climate Action Tracker examinam regularmente todas as políticas de clima e energia que os países adotam em todo o mundo. Eles então estimam o efeito dessas políticas nas futuras emissões de gases de efeito estufa e calculam o tamanho do aumento de temperatura que o mundo pode esperar.

É uma medida simples do progresso no combate às mudanças climáticas até agora. E os dados oferecem motivos tanto para esperança quanto para preocupação.

Como as coisas melhoraram

Em 2014, o Climate Action Tracker estimou que o mundo estava a caminho de quase 4 graus Celsius de aquecimento até 2100, em comparação com os níveis pré-industriais.

O aquecimento de 4 graus sempre foi considerado o pior cenário possível. Uma avaliação do Banco Mundial explorou os riscos, como sucessivas quebras de safras globais, e concluiu que "simplesmente não podemos permitir um aumento de 4 graus".

Este ano, porém, o Climate Action Tracker pintou um quadro mais otimista, porque os países começaram a fazer mais para conter suas emissões. As políticas atuais colocam o mundo em ritmo de aquecimento de aproximadamente 2,9 graus Celsius até 2100. (Esta é a melhor estimativa; a faixa potencial está entre 2,1-3,9 graus Celsius).

As Nações Unidas divulgaram sua própria análise dos esforços climáticos globais chegando a conclusões semelhantes. "Houve uma mudança genuína na última década", disse Niklas Höhne, climatologista alemão e sócio fundador do NewClimate Institute, que criou o Climate Action Tracker. "Você pode dizer que o progresso está muito lento, que ainda não é suficiente, e eu concordo com tudo isso. Mas estamos vendo um movimento concreto".

Existem várias razões para a melhoria das perspectivas. Em 2015, 195 nações assinaram o acordo climático de Paris, que pela primeira vez exigia que todos os países apresentassem um plano para reduzir as emissões. Embora os planos fossem voluntários, eles ajudaram a impulsionar novas ações: a União Europeia apertou os limites das emissões industriais. China e Índia aumentaram as energias renováveis. O Egito reduziu os subsídios para combustíveis fósseis. A Indonésia começou a reprimir o desmatamento ilegal.

A importância do avanço da energia limpa

Ao longo do caminho, houve retrocessos. O governo de Donald Trump reverteu algumas das principais políticas climáticas. O desmatamento no Brasil aumentou com o presidente Jair Bolsonaro. Mas, de maneira geral, os países estão fazendo mais do que faziam uma década atrás.

Tão importante quanto, a energia limpa avançou muito mais rapidamente do que o previsto. Uma década atrás, painéis solares, turbinas eólicas e veículos elétricos eram vistos como tecnologias de nicho, muito caras para uso generalizado. Mas os custos despencaram.

Hoje a energia eólica e a solar são as fontes de eletricidade mais baratas na maioria dos mercados. As vendas de veículos elétricos estão batendo recordes. Montadoras como a Ford e a General Motors agora estão se preparando para reduzir as vendas de carros movidos a gasolina nos próximos anos.

Ao mesmo tempo, a energia do carvão, uma importante fonte de emissões, começou a diminuir. Há uma década, a China e a Índia estavam construindo novas usinas termoelétricas quase todas as semanas. Mas, à medida que as alternativas de energia mais limpa amadurecem e os ativistas do clima aumentam a pressão sobre bancos e governos para que parem de financiar o carvão, esse ritmo vem diminuindo. Após o acordo de Paris, concluiu um estudo recente, 76% das propostas para novas usinas a carvão foram canceladas.

Tudo isso fez diferença. Entre 2000 e 2010, as emissões globais aumentaram 3% ao ano, em média. Mas, entre 2011 e 2019, as emissões cresceram mais lentamente, cerca de 1% ao ano.

A Agência Internacional de Energia projeta agora que as emissões globais de dióxido de carbono podem atingir o pico em meados da década de 2020 e, em seguida, começar a diminuir gradualmente. Isso colocaria o mundo em ritmo para aquecer pouco menos de 3 graus até 2100, embora ainda não se saiba ao certo se as políticas atuais vão funcionar como pretendido e como o clima da Terra vai reagir às nossas emissões de gases de efeito estufa.

Ainda assim, alertam os cientistas, não há muito o que comemorar. Sim, 3 graus é muito menos assustador do que 4 graus. Mas continua sendo um número extremamente perigoso.

Basta pensar nas vastas camadas de gelo sobre a Groenlândia e a Antártica Ocidental, que juntas contêm água suficiente para elevar o nível do mar global em quase 12 metros e afundar muitas das grandes cidades costeiras do mundo. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas recentemente alertou que, em níveis de aquecimento global entre 2 e 3 graus, essas camadas de gelo podem derreter irreversivelmente por milhares de anos até desaparecer quase por completo, condenando as gerações futuras a um aumento maciço e implacável do nível do mar nos próximos séculos.

"Sabemos que existem esses grandes pontos de inflexão no sistema climático e, quando os ultrapassamos, fica tarde demais para voltar", disse Andrea Dutton, cientista do clima da Universidade de Wisconsin-Madison e coautora de um estudo que concluiu que uma trajetória de 3 graus de aquecimento pode levar a um salto abrupto na taxa de derretimento da Antártica já em 2060.

Promessas ficam apenas no papel

À medida que despertam para o perigo, os governos prometem fazer mais. Mas, até agora, suas promessas quase não saíram do papel. Antes da cúpula de Glasgow, pelo menos 140 países atualizaram formalmente seus planos para reduzir as emissões até 2030, de acordo com o World Resources Institute. Os Estados Unidos e a União Europeia prometeram cortes mais profundos. A Argentina e a África do Sul disseram que vão desacelerar o crescimento futuro do uso de combustíveis fósseis. Mas outros grandes emissores, como China e Índia, ainda precisam fazer uma atualização formal de seus planos de curto prazo.

Se os países cumprirem essas novas promessas, estima o Climate Action Tracker, o mundo poderá entrar no caminho para manter o aquecimento em cerca de 2,4 graus Celsius até 2100, embora as temperaturas devam continuar subindo depois disso.

Mas este é um grande "se". Muitas promessas ainda não são respaldadas por políticas concretas e nem todos os países estão preparados para cumpri-las. Um estudo recente do Rhodium Group descobriu que, mesmo que o governo Biden implementasse um amplo pacote de medidas climáticas – incluindo as centenas de bilhões de dólares em gastos com energia limpa que continuam paralisados no Congresso – e os estados adotassem regras mais rígidas, os Estados Unidos mal conseguiriam cumprir sua meta.

E esta nem é a parte mais difícil. Nos últimos anos, mais de 50 países, além da União Europeia, prometeram formalmente chegar a emissões net zero, o que é essencialmente uma promessa de parar de adicionar gases de efeito estufa à atmosfera até uma determinada data. Os Estados Unidos disseram que chegariam a net zero até 2050. A China disse que se esforçaria para chegar lá até 2060.

Em teoria, esses objetivos podem ter um impacto poderoso. O Climate Action Tracker estima que, se todos os países cumprirem sua promessa de net zero, o mundo poderá limitar o aquecimento em cerca de 2 graus Celsius até o final do século.

Mas esses planos exigiriam reduções extremamente rápidas no uso de combustível fóssil de usinas, fábricas e veículos, bem como uma tecnologia potencialmente nova para retirar o dióxido de carbono da atmosfera. Muitas metas de net zero continuam sendo apenas uma aspiração, e a maioria dos governos ainda não traçou planos confiáveis para alcançá-las.

"Você pode ver o copo meio cheio ou meio vazio", disse Höhne. "Quem vê o copo meio cheio diz que os países têm boas intenções e estão enviando os sinais certos aos investidores. Quem vê meio vazio diz que nenhum dos países que prometeram chegar a zero tem políticas de curto prazo suficientes para de fato se colocar no caminho certo."

Um caminho estreito

Na última década, enquanto a humanidade encarava o problema do clima, os cientistas também fizeram progressos. E suas descobertas são terríveis: eles reuniram evidências mais fortes de que mesmo pequenos aumentos de temperatura podem ser extremamente prejudiciais. Em outras palavras, os pontos de referência mudaram de lugar.

Quando o acordo de Paris foi assinado, as nações concordaram que deveriam manter o aquecimento global total “bem abaixo” de 2 graus Celsius e fazer um esforço extra para deixá-lo mais perto de 1,5 graus. Mas, nos anos seguintes, uma série de estudos descobriram que 2 graus de aquecimento são várias vezes mais prejudiciais do que 1,5 graus.

Esse meio grau extra parece pouca coisa, mas pode significar dezenas de milhões de pessoas em todo o mundo expostas a ondas de calor, escassez de água e inundações costeiras. Meio grau pode significar a diferença entre um mundo com recifes de coral e gelo marinho no verão do Ártico e um mundo sem nada disso.

"Já estamos vendo, hoje, com apenas 1 grau de aquecimento, que certos sistemas sociais são mais vulneráveis a disrupções do que pensávamos", disse Joeri Rogelj, diretor do Instituto Grantham para Mudanças Climáticas e Meio Ambiente do Imperial College London.

Em resposta, um número crescente de líderes mundiais, entre eles o presidente Joe Biden, disse que o mundo deveria manter 1,5 grau de aquecimento, embora alguns países como a China não tenham adotado a meta mais rígida. Ainda assim, 1,5 grau é um alvo muito mais difícil de atingir do que 2 ou 3 graus. Não basta que as emissões globais atinjam o pico nos próximos anos e então diminuam gradualmente. Em vez disso, as emissões globais de combustíveis fósseis teriam de cair aproximadamente pela metade nesta década e então chegar a net zero por volta de 2050.

Este ano, a Agência Internacional de Energia traçou um roteiro para esse cenário. Em 2030, os veículos elétricos teriam de representar mais da metade das vendas de carros novos em todo o mundo, ante apenas 5% hoje. Em 2035, os países ricos teriam de fechar praticamente todas as usinas de combustível fóssil em favor de tecnologias mais limpas, como a energia eólica, solar ou nuclear. Em 2040, todas as usinas de carvão remanescentes do mundo teriam de ser aposentadas ou adaptadas com tecnologia para capturar suas emissões de carbono e enterrá-las no subsolo. E ainda seriam necessárias novas tecnologias para limpar setores como o das viagens aéreas.

As Nações Unidas alertaram que a última rodada de promessas climáticas que os países enviaram antes de Glasgow produziriam coletivamente apenas um sétimo dos cortes adicionais necessários nesta década para ajudar a limitar o aquecimento global total a 1,5 grau Celsius. Sem uma aceleração rápida e imediata nas ações, essa meta climática poderia estar fora de alcance em poucos anos.

"O caminho é extremamente estreito", disse Fatih Birol, diretor executivo da Agência Internacional de Energia. "Nós realmente não temos muito tempo para mudar de curso." / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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