O passado sexual das baleias

Todos os anos, dezenas de baleias são caçadas legalmente, muitas morrem encalhadas, e outras tantas colidem com navios. Até agora, era difícil investigar seu passado. Teriam reproduzido? Quantas vezes? Quando? Mas, agora, um novo método promete responder a essas perguntas. E a história começa com nossas unhas.

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

19 Dezembro 2015 | 03h00

Unhas e fios de cabelo são feitos de queratina. Eles crescem quando novas moléculas de queratina são acrescentadas à sua base. No caso das unhas, isso ocorre na sua base. No cabelo, é no bulbo capilar. Se nesta semana minha unha cresceu meio milímetro, o material novo ainda está sob a cutícula e o material depositado na semana passada já está aparente. À medida que caminhamos em direção à ponta da unha ou do fio de cabelo, encontramos as moléculas de queratina depositadas na semana passada, no mês passado e, no caso de cabelos longos, material que foi depositado até um ou mais anos atrás.

O que os cientistas descobriram é que moléculas presentes no nosso sangue no dia em que um pedaço de unha (ou cabelo) foi produzido fica retido entre as moléculas de queratina. Assim, se analisarmos os níveis de hormônios em cada pedaço de unha, podemos observar que eles sobem e descem ao longo da unha da mesma maneira que flutuaram ao longo do tempo. Fazendo essa medida ao longo da unha é possível saber quando uma mulher menstruou e quando ficou grávida. A unha registra nossa história sexual.

Será que o mesmo ocorre em baleias? Baleias também são mamíferos, não têm cabelos nem unhas, mas possuem algo muito maior, também feito de queratina, os pentes filtrantes. Esses pentes são placas de queratina que nascem no céu da boca das baleias. São enormes, podendo atingir 4 metros de comprimento. No local em que surgem formam uma placa, mas vão se bifurcando e formam inúmeros fios na sua extremidade, como se fossem pentes. A baleia aspira uma grande quantidade de água com a boca aberta, fecha a boca e expulsa a água por entre esses pentes, que retêm crustáceos e outros animais pequenos. Essas baleias devoram quase uma tonelada de alimento por dia retido nesses filtros.

Os cientistas analisaram os filtros de 16 baleias capturadas ao longo da costa do Alasca. Coletaram fragmentos desses pentes a distâncias variadas da sua base. Como os pentes crescem de 15 a 20 centímetros por ano, e o comprimento total é de 4 metros, a ponta de um desses filtros tem até 25 anos. Cada pente pode fornecer dados sobre os últimos 20 anos de vida da baleia.

Nessas amostras os cientistas mediram a quantidade de progesterona, um hormônio associado ao ciclo menstrual e à gravidez. O que eles descobriram é que nos machos a quantidade de progesterona não varia ao longo do pente (e, portanto, ao longo do tempo), o que era esperado. Já nas fêmeas a variação é grande. Quatro dessas baleias estavam grávidas e foi possível demonstrar que a base do pente (sintetizada durante a gravidez) tinha níveis altíssimos de progesterona. Esse resultado demonstrou que é possível descobrir a história sexual das baleias medindo os níveis de progesterona no pente de queratina.

Mas agora veio a prova definitiva. Neste ano morreram duas baleias muito queridas dos observadores de baleias, Stumpy e Stacato. Elas vinham sendo observadas faz anos, e se sabe exatamente quando ficaram grávidas, quando pariram e quando desmamaram suas crias. Analisando a quantidade de progesterona nos filtros de Stumpy e Stacato os cientistas comprovaram que os níveis de hormônio correspondem exatamente à história documentada ao longo de anos, o que comprova de maneira definitiva a validade desse método.

Os cientistas estão animados, agora poderão investigar a vida íntima de centenas de baleias, desde as que morreram recentemente, até as mortas séculos atrás. Muitos desses pentes estão em museus e outras coleções de animais. Será que as baleias do século 18 tinham o mesmo número de filhotes que as atuais? Será que elas engravidavam com a mesma frequência? Perguntas como essas poderão ser respondidas e isso deve nos ajudar a preservar esses maravilhosos mamíferos.

MAIS INFORMAÇÕES: BALEEN HORMONES: A NOVEL TOOL FOR RETROSPECTIVE ASSESSMENT OF STRESS AND REPRODUCTION IN BOWHEAD WHALES (BALEANA MYSTICETUS). CONSERVATION PHYSIOLOGY VOL. 2 PAG. 1 2014

FERNANDO REINACH É BIÓLOGO

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