Araquém Alcântara / WWF-Brasil
Araquém Alcântara / WWF-Brasil

O papel das grandes empresas de carne bovina e soja na luta contra o desmatamento

Elas não derrubam árvores na Amazônia, mas seus fornecedores, sim

The Economist, O Estado de S.Paulo

16 de junho de 2020 | 14h00

As emissões globais de dióxido de carbono podem apresentar queda de 7% este ano em decorrência da quarentena adotada em resposta à pandemia, de acordo com a revista Nature Climate Change. Uma notável exceção à essa regra é o Brasil. As emissões no país terão alta entre 10% e 20% em relação a 2018, quando foram medidas pela última vez, de acordo com o consórcio de pesquisa Climate Observatory. A culpa é do desmatamento. Nos primeiros quatro meses de 2020 estima-se que 1.202 quilômetros quadrados tenham sido desmatados na Amazônia brasileira, 55% mais do que no mesmo período em 2019, que foi o pior ano para o desmatamento em uma década. Quando vier o mês de agosto, quando os fazendeiros ateiam fogo às áreas desmatadas para prepará-las para o pasto, o número de incêndios descontrolados pode ser maior do que no ano passado, que deixou o mundo chocado. Os cientistas apontam que a perda de árvores está se aproximando de um “ponto irreversível”, após o qual as árvores vão secar e morrer, liberando bilhões de toneladas de carbono na atmosfera.

Os ambientalistas culpam o presidente populista do Brasil, Jair Bolsonaro, pela catástrofe. Ele defende a desregulamentação da floresta para permitir a extração de madeira, a mineração e a agropecuária na floresta, e enfraqueceu o policiamento das leis ambientais. Menos atenção foi dedicada ao papel desempenhado por empresas gigantes como JBS e Cargill, intermediárias globais da carne bovina e da soja, as commodities que motivam o desmatamento.

As empresas não derrubam árvores com as próprias mãos. Em vez disso, atuam como intermediárias em complexas cadeias de fornecimento de soja e carne bovina produzidas em terras desmatadas. O processo começa quando especuladores (que tendem a operar fora da lei) compram ou se apoderam de terras, vendendo a madeira e criando gado por muitos anos para finalmente vendê-las a agricultores de soja. A terra na Amazônia vale de cinco a dez vezes mais depois de desmatada, diz o ecologista Daniel Nepstad. A preservação das árvores teria um alto custo em termos de oportunidade. Em 2009, Nepstad calculou que esse custo (em termos de produção perdida de carne bovina e soja) seria da ordem de US$ 275 bilhões ao longo de 30 anos, o equivalente a cerca de 16% do PIB daquele ano.

Pressionadas pela opinião pública, as grandes empresas fizeram tentativas de controlar o problema. Em 2009, um relatório do Greenpeace condenando sua atividade levou JBS, Marfrig e Minerva, gigantes do setor de carnes que respondem sozinhas por dois terços das exportações brasileiras desse produto, a prometerem não comprar mais de fornecedores envolvidos no desmatamento ilegal (as leis florestais permitem que os proprietários desmatem 20% de suas terras) A JBS, cujos fornecedores exploram na Amazônia uma área maior que a Alemanha, diz ter bloqueado 9.000 desses fornecedores, usando satélites para detectar o desmatamento além do limite. Negociantes de soja como Cargill e Bunge usaram esse tipo de sistema para defender um acordo de desmatamento zero na região desde 2008, quando empresas do varejo como McDonald’s e Tesco disseram que não comprariam mais a soja cultivada em terras desmatadas da Amazônia.

Tais acordos contribuíram para um declínio acentuado no ritmo de desmatamento até 2012. Antes da “moratória da soja”, 30% das novas plantações na Amazônia envolviam o desmatamento. Nos oito anos que se seguiram à sua assinatura, 99% da expansão da soja ocorreu em terras já desmatadas. Mas, como alerta André Vasconcelos, da iniciativa de pesquisa Trase, que acompanha as cadeias de fornecimento das commodities, o desmatamento desenfreado durante o governo Bolsonaro pode inverter essa tendência.

A alta no desmatamento mostra que os acordos têm um calcanhar de Aquiles, diz Nepstad. As grandes empresas ainda não exercem o devido controle dos fornecedores. E, mesmo que o fizessem, grandes quantidades de soja e, principalmente, de carne bovina são negociadas por empresas menores com incentivos menos robustos para convencer os agropecuaristas a mudar seu comportamento.

O problema é particularmente grave na pecuária, que responde por cerca de 80% do desmatamento na Amazônia, quase todo ele ilegal. “As vacas se deslocam", explica Paulo Pianez, da Marfrig. Cada fazenda de engorda comprada pelas gigantes do setor tem, em média, 23 fornecedores diferentes, diz Holly Gibbs, da Universidade de Wisconsin. O monitoramento atual não cobre as fazendas de reprodução e pasto, o que exclui de 85% a 90% do desmatamento. Fazendas de engorda ilegais também podem “lavar” cabeças de gado transferindo-as para propriedades dentro da lei — às vezes de sua propriedade — pouco antes de vendê-las. Um novo relatório do Greenpeace indica que, por meio desse mecanismo, JBS, Marfrig e Minerva acabaram vendendo carne bovina de fazendas que desmataram uma reserva florestal na Amazônia na fronteira entre Brasil e Bolívia. As empresas disseram não estarem cientes de nenhuma irregularidade.

O desmatamento motivado pela soja afeta mais diretamente o cerrado, a savana tropical situada a sudeste da floresta tropical. No Mato Grosso, estado parcialmente composto pela Amazônia e pelo cerrado, 27% do desmatamento ocorrido entre 2012 e 2017 se deu em fazendas de soja, de acordo com novo relatório da Imaflora e do Instituto Centro de Vida (ICV), dois institutos brasileiros de pesquisas, e a Trase. O estado fornece um terço das exportações de soja do Brasil para a UE. Nas fazendas de soja, 95% do desmatamento ocorre ilegalmente. Um terço da destruição ocorreu na Amazônia, revelando uma brecha na moratória da soja. Como o acordo só cobre terras onde a soja é plantada, um agricultor que desmate ilegalmente outra parte de sua fazenda — para a criação de gado, por exemplo — pode seguir vendendo aos comerciantes, que trituram e exportam a soja.

André Nassar, da Abiove, grupo que faz lobby representando a indústria da soja, destaca que a área de novas plantações de soja em terras desmatadas do cerrado caiu: de 530.000 acres ao ano em 2000-06 para 195.000 acres em 2013-18. A indústria deveria distinguir entre o desmatamento legal e ilegal, diz ele — não é feito um monitoramento anual do cerrado — mas a aplicação de embargos a fazendas cabe ao governo. Independentemente disso, Bunge e Cargill prometeram comprar soja produzida apenas em terras não desmatadas, seja legal ou ilegalmente. Eles perderam o prazo de 2020, mas esperam cumprir suas obrigações em 2025 e 2030, respectivamente.

Talvez elas agissem mais rapidamente se pressionadas pelos consumidores e investidores. De acordo com Maria Lettini, da FAIRR, rede de investidores preocupados com a sustentabilidade, uma das razões pelas quais as gigantes da soja parecem levar mais a sério do que as produtoras de carne a redução do desmatamento é o fato de a maior parte da soja ser exportada. A União Europeia é o segundo maior mercado para esse produto, perdendo para a China. Mas as empresas têm dificuldade em convencer as pessoas a pagarem mais por uma “commodity oculta”, diz Juliana Lopes, da Amaggi, gigante brasileira da soja. “Sabemos que as roupas são feitas de algodão e o chocolate vem do cacau", diz ela. Mas poucos pagariam mais pelo frango criado com soja sustentável, motivo pelo qual somente de 2% a 3% do produto recebe certificação sustentável. De acordo com ela, táticas melhores de rotulagem poderiam ajudar.

Em comparação, quatro quintos da carne bovina brasileira são consumidos no próprio país. As exportações se destinam principalmente a China, Rússia e Oriente Médio, onde alimentar a população parece mais importante do que salvar árvores. Já os investidores enxergam as empresas de carne bovina como pouco atraentes, operando com margens de lucro pequenas. Eles não exigiram grandes esforços pela redução do desmatamento, diz João Paulo Dibo, da Rio Bravo Investimentos, gestora de ativos de São Paulo. Atraentes ou não, os produtores de carne bovina estão prosperando. Enquanto as ações brasileiras acumulam queda geral de 18% este ano, a Marfrig teve valorização de 27% em suas ações e a Minerva recuperou o prejuízo sofrido no início da pandemia. A JBS, maior produtora mundial de carne, disse que 2019 foi o ano mais lucrativo de sua história.

Os bancos Morgan Stanley, Itaú e Santander se recusaram a comentar a atividade das empresas de soja e carne com a reportagem. Um novo relatório de 58 páginas do Itaú recomenda o investimento na JBS, na Marfrig e na Minerva (não há menção ao termo “desmatamento"). Isso indica uma “miopia” em um momento em que o investimento em indústrias sustentáveis está se expandindo rapidamente, diz Fabio Alperowitch, da Fama Investimentos. Este é um dos mais de 230 fundos com mais de US$ 16 trilhões em ativos que assinaram uma carta após os incêndios do ano passado, apelando às empresas para que acabem com o desmatamento. A BlackRock, uma das dez maiores acionistas da JBS, não assinou o documento, ainda que esteja tirando seu dinheiro do setor do carvão.

O caos econômico torna improvável que as empresas gastem muito no combate ao desmatamento, diz Marcello Brito, da Associação Brasileira de Agrobusiness. “Não é o que os acionistas desejariam", diz ele.

Apesar desses incentivos contrários, as empresas dizem que estão progredindo. A indústria da carne diz estar avançando no cumprimento da sua promessa, feita em 2009, prevendo a ampliação do rastreamento dos fornecedores indiretos. Uma ideia possível é usar licenças de trânsito de animais, que acompanham a vacinação quando o gado é repassado entre pecuaristas, para denunciar o desmatamento. Mas o ministério da agricultura ainda não concordou com a medida. A Minerva pensa em usar uma ferramenta desenvolvida pela Universidade de Wisconsin, chamada Visipec, para mapear os fornecedores, identificar regiões de alto desmatamento e dar prioridade aos fornecedores de outras áreas. A Minerva obtém 30% de sua carne bovina via ciclo completo de criação, podendo garantir que o processo não envolve desmatamento. As restrições comerciais poderiam na verdade beneficiar as maiores empresas, diz seu diretor de sustentabilidade, Taciano Custodio. “Estamos mais bem posicionados para nos adaptarmos.”

Mas uma mudança por parte das três maiores empresas de carne não garante uma redução do desmatamento, pois elas respondem por menos da metade do mercado. “Quando bloqueamos um fornecedor, ele pode atravessar a rua e vender para outro abatedouro", diz Márcio Nappo, da JBS. O progresso na indústria como um todo vai exigir mais vigilância e incentivos aos pecuaristas. “Temos que tornar a produção sustentável como um todo", diz Pianez.

O sentimento ecoa também na indústria da soja, para a qual o combate ao desmatamento é simples do ponto de vista logístico, mas difícil do ponto de vista político. De acordo com o estudo do Mato Grosso, 80% do desmatamento ilegal ocorreu em 400 fazenda, 2% do total. Esses seriam “alvos fáceis” para uma ação, diz Vasconcelos. Mas dois anos de negociações tentando expandir a moratória para o cerrado não renderam resultado. De acordo com os plantadores de soja, empresas multinacionais fracassaram em captar US$ 250 milhões para o lançamento de um fundo que compensaria os agricultores que preservassem a mata original. “Muito é exigido, mas pouco é oferecido em troca", queixa-se Ricardo Arioli.

A Cargill diz que vai gastar US$ 30 milhões em formas de conter o desmatamento em toda a indústria. Marfrig e Amaggi defendem uma iniciativa lançada pelo governo do Mato Grosso em 2015 para reduzir o desmatamento por meio de uma “abordagem paisagística”. Fernando Sampaio, diretor dessa comissão, que inclui ONGs e empresas, diz que os municípios que reduzirem o desmatamento receberão assistência técnica, crédito e mais pedidos por parte das grandes empresas, incentivando outros a seguirem o mesmo rumo. Mas ainda que o ritmo de desmatamento no estado entre agosto de 2018 e julho de 2019 tenha caído 4% em relação ao ano anterior, tudo indica que a iniciativa ficará longe de bater sua meta de acabar com o desmatamento ilegal até o fim de 2020: 85% dos 1.685 quilômetros quadrados desmatados foram queimados ilegalmente.

Entre os maiores obstáculos para o progresso está a falta de cooperação por parte do governo federal. Em vídeo de reunião ministerial realizada em abril divulgado pelo supremo tribunal, o ministro do meio ambiente, Ricardo Salles, apelou ao governo para “passar a boiada” das medidas de desregulamentação enquanto o público está distraído com a pandemia. Uma mudança nas regras da agência voltada para os povos indígenas permite que proprietários reivindiquem pedaços de terras indígenas que aguardam demarcação oficial. Até a moratória da soja na Amazônia parece correr risco. O lobby Aprosoja, que defende os interesses dos fazendeiros, ameaçou abandoná-la (por proibir o desmatamento legal). A ministra da agricultura, Tereza Cristina, descreveu-a como “absurda”.

A redução do desmatamento vai exigir um consenso envolvendo temas difíceis como o destino de dezenas de milhares de pessoas pobres assentadas em terras públicas da Amazônia, onde ocorre metade do desmatamento. Entretanto, os ambientalistas dizem que o projeto de lei de “regulamentação de terras” tramitando atualmente no congresso também concederia grandes trechos de terras desmatadas a “grileiros”, sinalizando que novas queimadas poderiam ser aceitas. Uma versão anterior do projeto de lei foi rejeitada no dia 20 de maio quando os supermercados britânicos ameaçaram boicotar produtos brasileiros.

Ainda que discreto no momento, esse ruído está se tornando mais estridente. Ele amplifica o argumento segundo o qual as empresas deveriam implementar mudanças não apenas por motivos éticos, mas também por questões comerciais. Os supermercados poderiam acelerar o processo indicando ao consumidor a origem da carne bovina e da soja. Para que agricultores e pecuaristas participem, será necessário encontrar o equilíbrio certo entre pressão e incentivo. As empresas podem influenciá-los, insiste Holly Gibbs. Dez anos atrás, depois que JBS, Marfrig e Minerva prometeram excluir os fornecedores envolvidos com desmatamento, mais de 30 outras empresas de carne bovina assinaram acordos semelhantes. “Se conseguíssemos que uma grande empresa desse o primeiro passo, outras poderiam segui-la", prevê ela. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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