'O clima está aquecendo e a vida está ameaçada'

Vice-presidente do IPCC, Jean-Pascal van Ypersele, confirma que grupo pode rever para baixo previsões de aumento de temperatura

Andrei Netto - Enviado especial,

23 Setembro 2013 | 20h46

Os olhos de grande parte da comunidade científica mundial se voltaram nesta semana para Estocolmo, na Suécia, onde ocorre a reunião do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), o organismo das Nações Unidas encarregado de estudar o aquecimento global. Seis anos depois de seu último relatório, bombástico, que indicava o homem como agente ativo e causador da destruição ambiental, o Grupo Intergovernamental de Experts sobre a Evolução do Clima (Giec) volta a analisar a responsabilidade humana, mas agora vai além.

Um dos objetivos do relatório de 2013 é atualizar as previsões de aumento da temperatura da Terra até 2100 levando em conta as políticas já colocadas em prática por governos de todo o mundo para frear as emissões de gases de efeito estufa. Para o doutor em Física Jean-Pascal van Ypersele, a opinião pública não deve se surpreender se as previsões de aquecimento global feitas em 2007 forem revistas para baixo.

Vice-presidente do IPCC (pelo qual também é um dos laureados pelo Prêmio Nobel da Paz em 2007), Van Ypersele é um dos maiores especialistas do mundo no tema. Segundo ele, a revisão não deve ser encarada como um erro, como alegam os "climacéticos", e sim como o fruto do avanço da pesquisa científica nos últimos seis anos. A seguir, os principais trechos da entrevista exclusiva concedida ao Estado.

 

O Giec se reúne a partir desta segunda, em Estocolmo, mas o rascunho do relatório que será debatido já é conhecido. Quais são, a seu ver, os principais destaques do documento?

O documento que você viu é um rascunho, não a versão final. Ninguém viu a versão final porque vamos escrevê-la juntos. Muita coisa pode mudar com a riqueza do diálogo, com a troca de impressões linha por linha, palavra por palavra. Há discussões entre representantes de governos e cientistas de forma a clarificar a mensagem e ser mais preciso. Há elementos de contexto que podem ser muito importantes e que estão no relatório principal, e não na síntese, que você tem.

 

O senhor acredita que muita coisa pode mudar entre o rascunho e o relatório final, que será conhecido na quinta ou sexta-feira?

No relatório precedente, o quarto do IPCC, janeiro de 2007, quando finalizamos o volume do Grupo de Trabalho 1 (GT1), em Paris, houve agências de imprensa e jornais que detinham o rascunho e estavam muito orgulhosos em anunciar que a temperatura subiria 3ºC até o final do século, com uma variação entre 1,8ºC a 4ºC. Esses números acabaram sendo diferentes no relatório final. Eram a gama de valores centrais, valores médios, que ainda estavam em discussão. O rascunho era impreciso. Os números estavam no rascunho relatório, mas seu significado não havia sido explicado corretamente. É isso que o GIEC vai fazer em Estocolmo. Quando chegarmos ao final, serão 259 cientistas dos melhores do mundo que terão escrito e reescrito o documento três vezes, com mais de 50 mil comentários de governos do mundo todo. Teremos um texto muito sólido e muito sério.

 

Em 2007, o relatório do GT1 continha uma constatação que ganhou as manchetes do mundo inteiro: "A intervenção do Homem é responsável ativa pelas mudanças climáticas". O IPCC de 2013 traz alguma conclusão tão forte?

É difícil dizer hoje. Estamos à escuta da comunidade internacional, da comunidade científica e dos governos dos países envolvidos no IPCC. Neste momento é difícil dizer que questão será o centro do GT1 porque não conhecemos o sentimento desse grupo antes que o debate tenha começado. Mas a questão do vínculo entre a atividade humana e as mudanças climáticas segue e seguirá central. Por que levar a cabo políticas que discutem a adequação da produção industrial, por exemplo, se não fossem as emissões de gases de efeito estufa que causam o aquecimento global? O papel do homem no aquecimento global foi central em 2007, e também será central nessa semana.

 

Cientistas com os quais conversamos destacam a maior precisão do novo relatório como o grande avanço em relação ao de 2007. O senhor concorda?

Você está correto. O Giec, como todas as instituições, evolui com o tempo, se aprimora. O Giec faz 25 anos neste ano. Forçosamente os procedimentos que temos neste ano são mais polidos do que os iniciais. Aumentamos o rigor, é verdade. Recebemos mais comentários ainda do que no quarto relatório, de 2007. À época, para todos os três relatórios houve 90 mil comentários de governos. Até aqui, só para o primeiro relatório, temos quase 55 mil. Não é pouca coisa: cada comentário ajuda a ser mais preciso, mais rigoroso. São questões que nos interpelam: levamos em conta o dado tal obtido pelo estudo tal, pelo satélite tal? É assim que funciona, e é muito importante.

 

Quais são os avanços que o senhor destaca no GT1? Alguns cientistas apontam o maior conhecimento da dinâmica dos oceanos, por exemplo.

Não posso comentar o texto em si. Mas sou cientista e posso confirmar que os oceanos foram um domínio de preocupação em particular desse relatório. Até então não conseguíamos quantificar a contribuição real do derretimento de geleiras do Ártico no aumento do nível dos oceanos, por exemplo. Agora temos um satélite importante que começou a medir pouco antes do último relatório o grau de derretimento da calota glacial do Ártico e da Groenlândia. São dados que não tínhamos até aqui, e que agora nos dão dez anos de estatísticas e informações. Eles mostram que as calotas estão derretendo a um ritmo muito forte, e nos mostram que há mais gelo que derrete do que neve que se acumula. O relatório levará em conta esse novo dado. Haverá novos dados e informações sobre o nível do mar.

 

Cientistas também comentam a evolução dos modelos e projeções do aquecimento global. O senhor confirma esses avanços?

Sim, os cenários são outro domínio importante de avanço do trabalho científico. Os dois relatórios precedentes contavam com simulações até 2100 que não levavam em conta as políticas públicas para proteger o clima. A grande diferença deste relatório é que pela primeira vez há simulações que leva em conta novos cenários. Por isso será difícil comparar os dados do relatório de 2007 ao próximo. Dentre quatro cenários, três serão de estabilização do clima. É melhor não se surpreender se as previsões de aumento da temperatura até o final do século sejam um pouco mais baixas do que o foram em 2007. Pessoas mal-intencionadas dirão que o Giec altera os dados. Não é verdade. É que agora podemos considerar a hipótese de políticas que devem ser implantadas para proteger o clima, o que tem um impacto positivo.

 

O senhor fala de "pessoas mal-intencionadas". O Giec foi alvo de críticas duras em 2007 e os "climacéticos" já denunciam o relatório de 2013.

As críticas que foram ouvidas em relação ao relatório de 2013 foram muito injustas. Tratou-se muito de um parágrafo que se encontrava na página 492 do segundo documento, que não estava no resumo dos "decisores políticos" ("policy makers"). Se observamos bem, percebe-se que se tratava de um esforço organizado de parte de grupos de lobby empenhados em semear a dúvida sobre o que se passa na questão climática. É um pouco o que aconteceu na indústria do tabaco, que durante décadas financiou esforços de desinformação sobre os estudos científicos que demonstravam que o tabaco provocava câncer. Com o grau de conhecimento que evolui, é cada vez mais claro para os cientistas que os gases de efeito estufa são os principais fatores de influência das mudanças climáticas mundiais na escala do século, da vida humana. Não sejamos estúpidos: podemos tentar semear a dúvida, mas os fatos estão aí. O clima está aquecendo e a vida está ameaçada.

 

Pesquisas indicam que 97% da comunidade científica mundial tem convicção de que as mudanças climáticas são reais, mas apenas 54% dos americanos, por exemplo, tem a mesma convicção. O que está errado?

Sou físico, não especialista em comunicação, nem analista social, mas me sinto triste por essa realidade. Nas minhas aulas eu explico aos meus alunos por que os mecanismos físicos permitem compreender que os gases de efeito estufa influenciam no aquecimento. Mas como explicar isso a populações mais amplas, sobretudo quando há esforços deliberados para tentar fazer crer o contrário? É como tentar subir uma escada rolante que desce. Há uma corrente de desinformação que vem de alguns veículos de comunicação. Para enfrentar isso, os cientistas devem ficar calmos, serenos. Precisamos permanecer próximos da ciência. A situação é grave, e precisamos fazer a pedagogia. Mas é verdade que o Giec não o consegue fazer sozinho - nem é seu mandato, aliás.

 

Em 2007 o IPCC causou uma onda de consciência sobre o aquecimento que tornou a Conferência do Clima de Copenhague (COP 15) a maior conferência diplomática da história - embora tenha sido frustrada. O senhor acredita que o IPCC de 2009 pode criar de novo essa expectativa de acordo mundial?

O Giec não é um organismo ativista. Não somos militantes da proteção climática, somos uma espécie de médico que tenta diagnosticar o problema. Como o médico, queremos que nosso paciente viva. O Giec espera que os governos tomem as melhores decisões possíveis para evitar que os problemas cuja existência advertimos. O papel das Nações Unidas é reunir o máximo de chefes de Estado e de governo preparar a conferência de setembro de 2014, que será de alguma forma preparatória para a grande conferência do clima que se prepara para a COP 21, em Paris, em 2015. Muitos pensam em utilizar o Giec para fazer o debate avançar. Mas cabe aos "decisores políticos" fazer a Terra um lugar melhor para nossos filhos e netos.

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