José Luiz da Conceição/AE
José Luiz da Conceição/AE

Novos vilões ameaçam o abastecimento de água

Sistema convencional de tratamento da água não detecta hormônios e outras substâncias nocivas

Clarissa Thomé e Karina Ninni,

22 Março 2010 | 13h05

Não bastassem todas as substâncias químicas que as estações de tratamento já retiram da água que chega à nossa casa, uma nova ameaça vem preocupando especialistas no Brasil e do mundo: os hormônios e outros compostos que o sistema atual não detecta.

 

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"O esgoto produzimos hoje é completamente diferente do da década de 40. Hoje consumimos anticoncepcional, medicamentos, produtos de limpeza e higiene pessoal que não existiam e têm atividade hormonal", diz a professora Márcia Bezotti, coordenadora do Laboratório de Controle de Poluição das Águas, da Coppe, pós-graduação de engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. "Por isso, o tratamento de esgoto e água não pode continuar igual, mas as estações do Rio são de 1950."

 

Testes realizados pela Coppe com amostras de água não tratada do Rio Paraíba do Sul revelaram a presença de estradiol - hormônio capaz de alterar o funcionamento reprodutor. Os pesquisadores fizeram coletas de água nos municípios de Resende, Volta Redonda, Barra Mansa e Campos dos Goytacazes. Das 15 amostras, 8 continham estradiol. "A literatura médica mostra que mesmo em baixa concentração essa substância aumenta o risco de câncer de próstata, de mama, de útero", afirma Márcia.

 

Ainda que feita com amostras não tratadas, a descoberta levanta a discussão sobre a necessidade de se modernizar estações de tratamento de água e esgoto. Márcia diferente que métodos tradicionais de tratamento não eliminam os hormônios completamente.

 

"Nós captamos água já tratada do Guandu e só uma das amostras apresentou atividade hormonal", afirma a professora, acrescentando que isso não é motivo para alarde, mas deveria incentivar a melhoria dos sistemas de tratamento.

 

O presidente da Companhia Estadual de Águas e Esgoto do Rio, Wagner Victer, rebate. "Nosso sistema de tratamento é utilizado no mundo inteiro e segue rígida legislação." No Brasil, a água que sai das estações de tratamento tem de estar dentro de normas de potabilidade estabelecidas por uma portaria do Ministério da Saúde em 2004. Mas diversas substâncias não têm parâmetros de mensuração, caso de componentes presentes em alguns agrotóxicos.

 

"Existem 800 substâncias diferentes com uso autorizado no Brasil, como tipos de pesticidas e inseticidas. Essas substâncias acabam indo parar na água. Dessas, apenas 22 constam da portaria do Ministério, com limite de uso", explica a engenheira química Eliana Freire Gaspar de Carvalho, da Universidade Federal do Mato Grosso.

 

Perigo

 

Outra preocupação dos especialistas são os POPs: poluentes orgânicos persistentes. "São substâncias químicas que persistem no ambiente, acumulado-se nos micro-organismos, nas plantas, nos animais e no homem", esclarece José Galizia Tundisi, do Instituto Internacional de Ecologia de São Carlos.

 

Em maio de 2001, 90 países, inclusive o Brasil, assinaram um Tratado Internacional para banir os 12 POPs considerados mais perigosos para o meio ambiente e a saúde pública. Apesar de muitos deles já terem sido proibidos em vários países, justamente por terem vida longa, continuam sendo detectados em algumas áreas.

 

"Detectamos a presença de DDT, uma substância já proibida no Brasil, em amostras de sedimentos de rios no Pantanal", diz Eliana. Apesar de ser nocivo, o DDT foi usado para pulverização em áreas endêmicas de malária e outras doenças tropicais até os anos 90, porque o número de mortes causadas pelas doenças era um risco maior para a população do que o uso da substância.

 

"Existem mais de 200 mil produtos tóxicos sendo utilizados no mundo. Eles não causam problemas somente para a espécie humana. São especialmente nocivas também para o ambiente aquático", alerta Tundisi.

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