Novo fóssil ajuda a explicar dispersão dos primatas pelo globo

A pequena criatura, que pesava não mais que 30 gramas, foi capaz de migrar para a América da Ásia

John Noble Wilford, The New York Times,

04 de março de 2008 | 17h24

É difícil imaginar uma criatura adulta semelhante a um macaco pesando não mais que 30 gramas. Mas fósseis de um animal de 55,8 milhões de anos, o primata conhecido mais antigo a habitar a América do Norte, surgiu nos sedimentos de costa no Mississippi.  É ainda mais difícil de imaginar que os pequenos primatas dessa espécie foram capazes de migrar para esse continente desde seu hábitat na Ásia.  O planeta, naquela época, era muito mais quente, apresentando condições tropicais e subtropicais em todas as regiões, enquanto os continentes se separavam. Por gerações incontáveis, os primatas que vivem em árvores lentamente cruzaram para a América pela Sibéria, presumivelmente através do estreito de Bering, quando ele estava, provavelmente, densamente arborizado.  Alguns primatas aparentemente continuaram na Groenlândia e na Escócia, elos conectando a Europa em um tempo de baixos níveis oceânicos. Essa nova reconstrução da dispersão dos primatas, a ordem de mamíferos que inclui humanos e macacos, parte de uma análise de um fóssil de primata descoberto em 2001 perto da cidade de Meridian, Mississippi. A identificação e o significado da nova espécie foram divulgadas nesta terça-feira, 4, na revista especializada Proceedings of the National Academy of Sciences.   K. Christopher Beard, paleontólogo do Carnegie Museum of Natural History em Pittsburgh, escreveu que a espécie, Teilhardina magnoliana, é mais antiga e mais primitiva que os outros primatas já encontrados na América do Norte e na Europa. Ela é pelo menos 100 mil anos mais velha que os espécimes encontrados na bacia Big Horn de Wyoming e na Bélgica e França. O gênero ostenta o nome de Pierre Teilhard de Chardin, jesuíta e paleontólogo francês que passou anos estudando fósseis na China. Magnoliana é uma referência ao Mississippi, Estado da Magnólia. Já o nome do sítio arqueológico onde o espécime foi encontrado é Red Hot, nome de um restaurante que costumava ficar ali por perto. "Esse primata é um cara pequenininho", disse Beard em entrevista por telefone. O menor primata vivo é o lêmur camundongo pigmeu, aproximadamente do mesmo tamanho.  No início, todos os primatas eram pequenos. Esse de Mississippi, disse Beard, provavelmente parecia com um pequeno macaco. Cientistas teorizam que o gênero Teilhardina não está longe do ancestral comum entre os tarsius, pequenos primatas asiáticos, e macacos.  Como outros pequenos primatas, esse viveu em árvores, escalando, balançando e pulando pelos galhos. Uma característica importante da ordem dos primatas é sua adaptação de membros dianteiros e mãos para segurar e manusear objetos. Quando o primata do Mississippi viveu, as águas do Golfo chegavam a boa parte do continente, e Meridian tinha marés quentes e úmidas. Cientistas disseram que o animal provavelmente se alimentava de insetos, frutas, seiva e goma e que era tão pequeno quanto um primata adulto poderia ser. Peter Wilf, paleobotânico da Penn State que estudou o sítio mas não contribuiu com o relatório, disse que o primata vivia em uma floresta subtropical de arbustos e árvores altas, plantas floridas, samambaias, sassafrás e arbustos.  Outros cientistas disseram que a nova pesquisa, apesar de ser impressionante, não parece resolver as diferentes interpretações da dispersão dos primatas até que mais fósseis tenham sido coletados. Uma hipótese era que os animais migraram para a Europa e depois para a América do Norte à medida que a Terra esquentou, os oceanos se alargaram e os níveis das águas baixaram. Nesse mundo sem gelo, mudanças nos níveis do mar eram causadas por movimentos dos continentes, alterando o volume das bacias oceânicas.  Mas a Eurásia não era uma massa continental sólida na época, com mares ficando no caminho do avanço para oeste dos pequenos primatas, e a Europa ocidental não era mais que um arquipélago ainda. Então, cientistas buscaram histórias alternativas para a expansão conhecida de primatas pelo globo. Quando o mundo esfriou há 35 milhões de anos, Beard disse, os descendentes do primata do Mississippi e outros desapareceram de toda parte, exceto pelo sudeste da Ásia e África, onde sobreviventes se desenvolveram em primatas superiores e humanos.

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