Nova Zelândia é campeã de espécies ‘forasteiras’

Vários dos 65 mamíferos introduzidos nos últimos 200 anos viraram pragas; país já perdeu 43 espécies de pássaros

Karina Ninni, Especial para o Estado

23 Fevereiro 2011 | 00h05

Na Europa sem fronteiras após a criação da União Europeia e com sua tradição de livre comércio, a questão das espécies invasoras foi eleita prioridade.

"A Europa perde por ano mais de U$ 15 bilhões com as espécies invasoras", afirma Piero Genovesi, chefe do Grupo de Especialistas em Espécies Invasoras da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês). Problemas na saúde pública, perdas nas lavouras e o próprio manejo das invasoras entram nessa conta.

De acordo com Genovesi, os países ricos são mais vulneráveis porque têm maior volume de comércio e turismo. "Mas nenhum país ou região está imune às invasões", alerta. "E, se os ricos são mais vulneráveis, os pobres dispõem de menos recursos para lidar com o problema."

A última epidemia de cólera na América do Sul é um exemplo clássico. O vibrião que transmite a doença, originário da Ásia, voltou para cá em 1991 por causa de um navio chinês que trouxe água de lastro contaminada e aportou no Peru. Naquele ano, só no Brasil, a doença fez 33 mortos, número que subiu nos dois anos seguintes para, respectivamente, 462 e 650 casos.

Longa experiência

Nas ilhas, a introdução de invasoras provoca estrago maior do que em terras continentais. "Elas são hotspots de biodiversidade isoladas. A evolução única das espécies que ali se encontram faz com que a alteração desses ecossistemas tenha efeitos terríveis", explica Genovesi.

Não por acaso, o país com maior expertise no assunto espécies invasoras no mundo é a Nova Zelândia.

"Foram introduzidos na Nova Zelândia 65 mamíferos terrestres pelos colonizadores europeus nos últimos 200 anos, e muitos se tornaram pragas: o gambá-cauda-de-escova, a lebre europeia, o arminho", explica Alan Saunders, diretor do Invasive Species International Landcare Research.

Pássaros com pouca ou nenhuma habilidade de voar, como o kiwi, o kakapo e o kokako – espécies símbolos do país – eram bastante vulneráveis aos mamíferos introduzidos. "Hoje, estão extintos ou ameaçados."

Saunders afirma que, nos últimos mil anos, foram extintas ao todo 43 espécies endêmicas de pássaros terrestres – ou seja, 46% do total.

"O maior impacto econômico da introdução de mamíferos é a ameaça da transmissão da tuberculose bovina entre os gambás e bois. Cerca de 50 milhões de dólares neozelandeses são gastos por ano para controle das populações do gambá." O gasto total do país com controle de espécies invasoras é da ordem de170 milhões por ano.

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