No Seculus, a viagem de 14 horas rumo ao estuário de 340 km

O barqueiro Jeová Gomes da Costa, de 34 anos, é o único no porto de Santana, cidade próxima a Macapá, a aceitar fazer a viagem até o arquipélago do Bailique, a 150 km dali, onde o Amazonas termina

Leonencio Nossa, O Estado de S. Paulo

21 de março de 2011 | 23h59

Gaivotas no Bailique, onde 700 pessoas vivem sem médico nem energia elétrica. FOTO: CELSO JUNIOR/AE

 

O trajeto, de 14 horas, é arriscado, de pororocas, diz Jeová, antes de mostrar o barco, chamado Seculus, de 13 metros de comprimento. O piloto conta que, aos 16 anos, ganhou de uma tia um relógio da marca Seculus. Perdeu o presente quando jogava uma rede. Mais tarde, quando comprou o primeiro barco, batizou-o com o nome da marca.

 

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Jeová vivia no interior do Amapá. A mãe, lavadeira, cansada da vida que levava com o marido, pôs os quatro filhos num barco e se mudou para Santana. Jeová começou a trabalhar cedo. Garoto, ficava horas olhando pilotos atracarem. “Sou agora um dos melhores, me orgulho de ser.” As conversas regadas a cachaça no cais dos pescadores e pilotos foram úteis para o menino. “Tem de conhecer o vento, a lua.”

Lembra do “sufoco mais feio” que enfrentou como piloto. Viajava à noite quando uma tora entrou por baixo do barco, que ficou por cima do tronco, sem rumo. Desceu quilômetros até ser resgatado por uma embarcação.

 

Depois de quase 14 horas de viagem e quatro tempestades, o Seculus entra num canal do Bailique. A primeira parada é na comunidade de Itamatatuba. No cais, pescadores mostram surpresa. Dizem não acreditar que um barco tão pequeno tenha feito o trajeto desde Macapá.

 

Últimas porções de terra banhadas pelo Amazonas, as oito ilhas do arquipélago ficam numa ponta do grande delta do rio, um estuário de 340 quilômetros de boca. Mais de 700 pessoas vivem em Bailique, Faustino, Meio, Curuá, Franco, Marinho, Brigue e Parazinho. Trabalham na construção de barcos, na pesca de cação no mar, do tamuatá (peixe típico da Amazônia) nos igarapés e do camarão, na extração de palmito e açaí e na coleta de mel. Vendem ainda grude, bexiga do peixe gurijuba, usado no preparo de colas como Superbonder.

 

A comunidade não tem médicos permanentes. Em caso de emergência, é preciso fazer a viagem até Macapá. Escolas funcionam de forma precária e não há eletrificação. Geradores garantem luz até as 23 horas.

 

No inverno, as águas transformam cada casa em uma ilha. Elevadas a pelo menos 2 metros do chão, as casas de madeira são interligadas por pontes e travessas. Galinheiros, banheiros e hortas também são suspensos.

 

Numa casa espaçosa mora a professora Itaciara Isacksson, de 38, filha de brasileira com sueco. Ela vivia na cidade de Ferreira Gomes antes de se mudar para o Bailique para lecionar. “Queria viver longe da cidade onde tive um casamento infeliz.” No arquipélago conheceu José de Paula Guedes, de 44, construtor de casas. Casaram-se há três anos.

 

Itaciara conheceu no Bailique outro tipo de criança, da civilização da água. A maioria nunca saiu de lá. Há pouco um helicóptero do serviço de saúde pousou em Itamatatuba. As aulas tiveram de ser suspensas. “Não teve quem segurasse os meninos nas salas.” Algumas crianças passaram mal, de tanta emoção. “A vida delas é no rio”, diz. “Os estudantes costumam levar até uma hora para chegar à escola. Há dois anos duas crianças voltavam da escola quando uma onda virou a canoa. Elas morreram.”

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