Rafael Caniato Costa/Estadão
Rafael Caniato Costa/Estadão

Neve está desaparecendo da Suíça, aponta estudo da ONU

Levantamento, em conjunto com a Universidade de Genebra, mostra que 44% do território suíço não registrou neve em 2017, ante 36% em 1995

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

13 Setembro 2018 | 13h30

GENEBRA - A neve está desaparecendo da Suíça. O alerta é de um novo estudo realizado pela Universidade de Genebra e pelo Programa da Organização das Nações Unidas (ONU) para o Meio Ambiente, compilando dados e imagens de satélite dos últimos 22 anos. 

De acordo com o levantamento, em 1995, 36% do território suíço não registrou neve ou teve apenas um volume pequeno do fenômeno climático. Em 2017, o porcentual subiu para 44%. A redução do território suscetível de nevar teria sido de 5,2 mil quilômetros quadrados. 

O estudo também mostra que, se a neve desaparece progressivamente das áreas mais baixas, um fenômeno também preocupante se registra mesmo em elevadas altitudes. 

Nas zonas tradicionalmente consideradas como picos de "neve eterna", o volume de cobertura também foi reduzido. Em 1995, 27% do território suíço estava nessa categoria. Hoje, essa taxa caiu para 23%, uma perda de 2,1 mil quilômetros quadrados. 

Pela classificação suíça, zonas de "neve eterna" são aquelas que registram um probabilidade de 80% a 100% do fenômeno.  Gregory Giuliani, pesquisador da Universidade de Genebra e um dos principais autores do estudo, indica que a retração da neve tem uma relação direta com as mudanças climáticas.  "Diante da sensibilidade da neve às mudanças climáticas, fica claro que existe um sinal de que essa retração tem uma ligação com a crise climática", disse. Sua avaliação reforça uma tese já apontada por outros estudos que mostram que os Alpes estão fortemente vulneráveis às mudanças climáticas.

Verão fora de hora. Além do desaparecimento da neve, a Suíça tem registrado períodos de verão fora dos padrões históricos, seca e desaparecimento de glaciais.  

De acordo com o próprio governo, a temperatura no país dos Alpes aumentou em 2°C desde 1864. A elevação foi mais de duas vezes o crescimento médio da temperatura mundial nesse mesmo período, que foi de 0,9°C. 

No caso dos Alpes, uma mudança climática pode ter um profundo impacto ainda na economia da região, especializada no turismo de inverno e com dezenas de estações de esqui que dependem exclusivamente da neve para sobreviver. 

Do lado francês dos Alpes, a história não é muito diferente. Em 1643, os habitantes de Chamonix organizaram um procissão depois que uma geleira local destruiu parte da cidade. No ano seguinte, foi bispo de Genebra, Charles-Auguste de Sales, assumiu a tarefa de lutar contra o gelo e passou a benzer o glacial a cada ano. 

Agora, o "mar de gelo" também pode desaparecer. Nas proximidades de Chamonix, o Mer de Glace - o maior glacial da França com uma superfície de 30 quilômetros quadrados - perde a cada ano entre quatro e seis metros de espessura e cerca de 30 metros de tamanho. Entre 1905 e 2005, o Mar de Gelo perdeu 120 metros de espessura. O local que serviu de cenário para romances como Frankenstein, de Mary Shelley, sofreu uma contração desde 1850 de cerca de 2,5 quilômetros. O recuo do "mar" deixou em seu lugar pedra.  

O que mais surpreende os cientistas é que, desde 1990, a aceleração do degelo ganhou um ritmo inédito. O "mar" perdeu 700 metros apenas entre 1990 e 2011. Além disso, um primeiro lago apareceu em 1998, o que acelerou ainda mais o derretimento. Em 2001, um segundo lago foi formado. 

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