Natureza inspiradora

Características da diversidade biológica são rica fonte de idéias para o desenvolvimento de novas tecnologias

Giovana Girardi, O Estado de S. Paulo

06 Agosto 2008 | 22h58

"Após 3,8 bilhões de anos de inovações e testes, as falhas viraram fósseis e o que nos cerca é o segredo para prosperar aqui na Terra." Com esta frase os pesquisadores Janine Benyus e Gunter Pauli defendem que está na natureza a solução para os problemas do planeta. Segundo eles, a observação de como funcionam os sistemas naturais, os animais e as plantas pode servir como fonte de inspiração para o desenvolvimento de novas tecnologias.   Veja também: Especial completo sobre biodiversidade Biodiversidade, essa desconhecida Droga contra câncer em teste Estudos focam doenças tropicais Para vasculhar a Amazônia, quanto mais coleta, melhor Peixe venenoso pode render antiasmático para grávidas Múltiplas ações na vegetação paulista O duro caminho até a indústria Remédios que vêm das toxinas Reinventar relações respeitosas Proposta de nova lei segue sem acordo   Essa linha de estudo, conhecida como biomimetismo, vem ganhando espaço em todo o mundo, inclusive no Brasil, e rendeu até um livro com as melhores descobertas da área. O Nature’s 100 Best (Os 100 Melhores da Natureza), que será lançando por Janine e Pauli em outubro, reúne as mais promissoras tecnologias inspiradas na natureza. Entre elas está um minimarca-passo modelado com base no sistema circulatório da baleia jubarte.   A idéia foi concebida por Jorge Reynolds, do Programa de Rastreamento de Baleias por Satélite, da Colômbia, que por muito tempo ficou intrigado com o funcionamento do coração das jubarte. O órgão, que pesa cerca de 900 quilos, bombeia sangue por um um sistema circulatório 4,5 mil vezes maior que o humano, mesmo com uma taxa de apenas três ou quatro batimentos por minuto.   Sua equipe descobriu que o animal conta com uma espécie de "nano-fios" que conduzem os sinais elétricos, estimulando o batimento cardíaco por meio da camada de gordura que protege o órgão contra o frio. Os pesquisadores tiraram desse achado a idéia de que era possível fazer o coração humano doente trabalhar sem a necessidade de um marca-passo movido a bateria, mas usando um sistema semelhante ao da baleia.   Um outro grupo de cientistas bolou uma maneira de resolver o problema da falta de refrigeração para vacinas em vilarejos de países pobres com base na fisiologia da chamada "planta da ressurreição" (Myrothamnus flabellifolia). A espécie encontrada na África "revive" após um longo período de seca por ação de um açúcar produzido em suas células, que cristaliza os tecidos. As vacinas livres de refrigeração contam com uma camada de spray dessa substância, que as transforma em esferas inertes que podem ser guardadas por anos.   A alga vermelha encontrada na costa australiana também trouxe novas idéias à ciência. Apesar de viver em ambiente repleto de bactérias, sua superfície é livre dos chamados biofilmes - complexos ecossistemas microbianos que reúnem populações de bactérias associadas.   Esses biofilmes podem ser formados em quaisquer tipos de superfície - de tecidos biológicos a uma válvula cardíaca ou lente de contato. Quando estão presentes em um biofilme, as bactérias requerem mil vezes mais antibiótico que em uma situação individual, o que encarece o tratamento e o deixa sujeito à resistência aos antibióticos.   O ponto forte da alga é que ela contém um composto, conhecido como furanone halogenado, que bloqueia os sinais enviados por uma bactéria a outra para elas se adensarem nos biofilmes. A idéia é aproveitar esse sistema para controlar bactérias como o vibrião da cólera e proteger instrumentos como cateteres.   BIOMIMETISMO À BRASILEIRA   No Brasil, um grupo de pesquisadores ligados ao Zeri, fundação presente em várias partes do mundo que busca soluções para reduzir as emissões de gases poluentes, também desenvolve projetos de biomimetismo. O principal, no Rio Grande do Sul, transforma parte do gás carbônico emitido por uma usina termelétrica em biomassa. Para isso, usa algas que capturam o gás no processo de fotossíntese.   De acordo com o pesquisador Lucio Brusch, diretor do Zeri Brasil, a idéia foi potencializar um papel que essas algas já desempenham naturalmente, mas que pouco resolvem o impacto ecológico produzido pela queima de carvão. A equipe então desenvolveu tanques com condições ideais de PH e iluminação, onde a alga spirulina pode se multiplicar. Paralelo a isso, foi construído um encanamento que direciona parte da fumaça que sai da termelétrica para os reservatórios.   Para a alga, a situação não poderia ser melhor. Com bastante CO2 para "comer", ela se multiplica rapidamente, liberando oxigênio e produzindo uma grande quantidade de biomassa, que depois é processada e acrescentada à merenda escolar da cidade de Rio Grande.   "As pessoas costumam pensar somente nos animais e nas plantas como alimentos, mas as algas estão na base da cadeia alimentar e contêm todos os nutrientes que precisamos: proteína, açúcares, lipídios e óleos essenciais, como ômega 3", explica Brusch. "A biomimética é isso, usar a natureza como mentora, como medida e como modelo."    

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.