Evelson de Freitas/AE
Evelson de Freitas/AE

Natural, sim. Sustentável, nem sempre

Cuidado: camisetas, cosméticos e utensílios vendidos como ‘verdes’ podem ser ecológicos só na embalagem

Alice Lobo, especial para O Estado de S. Paulo

30 Abril 2010 | 00h01

A palavra natural é muitas vezes usada para induzir o consumidor a pensar que um determinado produto é sustentável, ecológico ou ainda benéfico para a saúde. Mas esse termo não significa nada além de algo que seja proveniente da natureza, mesmo que tenha sido extraído de forma predatória ao ecossistema e à saúde humana. Mesmo assim, muitas indústrias baseiam seu marketing em cima desse falso conceito para criar uma imagem simpática à determinado produto.

 

Um bom exemplo é o algodão, usado em grande escala pela indústria têxtil e vendido como uma fibra natural ecológica. “A fibra é natural, mas a maneira como ele é cultivado pode ser prejudicial ao meio ambiente”, explica Tais Aline Remunhão, professora de tecnologia Têxtil da Faculdade Santa Marcelina.

 

Segundo a Fundação Justiça Ambiental (EJF na sigla em inglês), essa lavoura é considerada a mais tóxica do mundo, pois representa 2,4% de áreas cultivadas e utiliza 25% dos pesticidas e agrotóxicos aplicados em todo o planeta. Os pesticidas envenenam até 5 milhões de agricultores por ano, hospitalizam 1 milhão e matam 20 mil.

 

“Para cada camiseta de algodão que pesa 250 gramas são usados 160 gramas de agrotóxicos”, diz Taís. Outro ponto negativo no cultivo de algodão é seu alto consumo de água na irrigação: para cada botão da planta são necessários mais de 2,5 litros.

 

Segundo ela, em países quentes como o Brasil, o algodão é muito usado pois dá conforto e permite a respiração do corpo. E este bem-estar é muitas vezes vendido como ecológico.

 

Mas a verdadeira cultura sustentável do algodão é a orgânica, sem o uso de agrotóxicos ou pesticidas. Em 2009, esse tipo de produção cresceu 20%, segundo a Organic Exchange, associação internacional de algodão orgânico. No entanto, esse volume representa apenas 0,76% da produção mundial.

 

Bambu

Outra matéria-prima que induz o consumidor ao erro no setor têxtil é o bambu. O que muitas malharias chamam de tecido de bambu simplesmente não existe. Ele nada mais é do que uma viscose que usa, entre outras coisas, a fibra celulósica do bambu. “Tecido de bambu é uma fraude. A fibra desta planta tem no máximo 3 milímetros de comprimento e para fazer um tecido é preciso 30 milímetros”, explica Hans-Jürgen Kleine, da diretoria da Associação Catarinense do Bambu. “A fibra é desmanchada com químicos e o processo de construção do tecido é todo sintético.”

 

Se tecidos de bambu não passam de enganação, pisos e utensílios podem, sim, ser feitos com bambu ecológico. Isso porque seu cultivo é sustentável: não exige adubo, herbicidas e quanto mais se corta, mais cresce. A brasileira Welf, por exemplo, tem artigos para a casa em bambu sustentável. “Não usamos produto químicos e nossa cola é atóxica”, diz o diretor Peter Kirsner.

 

Maquiagem mineral

Outra confusão frequente é a de que maquiagem mineral é eco-friendly. “Toda maquiagem tem ingredientes minerais. Nas ditas ‘minerais’, o que acontece é a substituição de algumas substâncias, aliada a um marketing de produto natural, que não agride a pele”, explica Monica Gregori, diretora da Natura. “Mas os ativos continuam sendo de alto impacto ambiental, de fontes não renováveis.” A lógica é simples: os minérios um dia vão acabar se continuarem sendo extraídos. Segundo Monica, a Natura procura substituir minerais por ativos vegetais, como o maracujá.

 

Há ainda cosméticos ditos naturais que usam apenas uma pequena porcentagem de ingredientes de origem vegetal, mineral ou animal. E ainda assim a maioria não é cultivada de maneira sustentável.

 

Fitoterápicos

Remédios naturais também são fonte de confusão entre os consumidores. Nem todas as fórmulas contém ingredientes orgânicos e sustentáveis, como muitos acreditam. “Estamos verificando não somente a maneira como os fitoterápicos são produzidos, mas também focamos na responsabilidade pelo uso e exploração da biodiversidade”, diz Tom Vidal, gerente comercial da IBD, empresa que faz inspeções sobre matéria-prima natural no Brasil.

 

A Weleda é um dos poucos exemplos no Brasil que utiliza 100% de matérias-primas naturais em seus produtos, manejados de forma orgânica ou biodinâmica e seguindo os princípios do comércio justo. Além de serem utilizados para os cosméticos, também servem de insumo para seus remédios naturais.

 

E é aí que o consumidor pode se empolgar e ter problemas. “O fato de o remédio ser natural não significa que não tenha alta concentração de um ingrediente ativo”, explica Walter Büssem, gerente da Weleda.

 

“O principal pecado é não ler a bula. Há quem tome ginseng por longos períodos, mesmo estando escrito que ele não deve ser ingerido por mais de três meses, já que pode afinar o sangue e causar outros problemas”, diz Büssem.

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