"Não temos um plano de contingência"

Para acadêmico, Brasil ainda está despreparado para enfrentar os graves efeitos das mudanças climáticas globais

Entrevista com

Paulo Artaxo

Bárbara Bretanha , ESPECIAL PARA O ESTADO

29 Agosto 2014 | 19h44

SÃO PAULO - As mudanças climáticas causam prejuízos mundiais de U$ 1,2 trilhão e matam 400 mil pessoas por ano. Os efeitos devem se intensificar e o Brasil não tem plano de contingência para enfrentar o fenômeno. “Temos de lidar com o aumento da erosão em áreas costeiras e com a mudança no balanço hídrico”, diz Paulo Artaxo, da Universidade de São Paulo e membro do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).

Qual é o maior problema do meio ambiente? 

O enfrentamento das questões de mudanças climáticas globais é de longe o maior desafio enfrentado pela humanidade – não só pelo próximo governo brasileiro. Vai requerer uma reestruturação política, social e econômica muito forte. A transição para a nova governança global é extremamente delicada e vai exigir grande competência dos governos em acomodar interesses específicos. É fundamental que o Brasil aproveite suas vantagens estratégicas, se quiser ter um desenvolvimento sustentável nas próximas décadas.

O que causa essas mudanças? 

O aumento da temperatura é provocado pela elevação da concentração dos gases de efeito estufa na atmosfera, principalmente o CO2 e o metano, resultantes da queima de combustíveis fósseis, e o óxido nitroso, criado pelo uso de fertilizantes na agricultura. A poluição do ar urbano é um problema, não só em São Paulo e Rio de Janeiro, mas na maior parte das cidades brasileiras de médio porte para cima. Existem padrões da própria legislação sendo desrespeitados e isso acarreta problemas de saúde e prejuízos ambientais enormes. Uma das grandes causas dessas emissões é o setor de transporte, que não tem política e a de transporte público de qualidade para a população em praticamente todos os centros urbanos brasileiros. Além disso, o governo precisa balancear melhor a relação álcool versus gasolina para que o setor de produção de álcool não vá à bancarrota. Reduzir a dependência do automóvel nos grandes centros do país é absolutamente essencial. O homem está alterando o meio ambiente de muitas outras formas, além da emissão de gases. Então a mitigação vai exigir mudanças de padrão de consumo de todos os recursos naturais, inclusive solo, água e minerais.

E o que podemos esperar nos próximos anos?

Um aumento médio da temperatura entre 2°C e 5°C ao longo do século. A ONU tomou uma decisão de fazer todo o possível para limitar o aumento da temperatura médio em 2°C. Acontece que não foi implementada nenhuma política de redução global de emissão de gases de efeito estufa. Manter esse limite é impossível, diria, inevitável, de acordo com a maior parte dos modelos hoje e muitos países desenvolvidos estão com planos de contingência em uma escala que não é compatível com a problemática dos custos sociais e econômicos que essas mudanças vão trazer. No caso do aumento do nível do mar, proveniente do degelo, o aumento médio é da ordem de 60 cm a 1,20 m.

No Brasil, como será esse quadro?

Aqui não vai esquentar mais ou menos que a média dos outros países. O aquecimento será maior ao norte do globo, em áreas de altas latitudes. A Groenlândia já aqueceu mais que 2°C. No Brasil, a média do aumento da temperatura variou de 1°C a 1,4 °C, entre 1950 e 2010 – o que é muita coisa do ponto de vista do funcionamento de um ecossistema. Períodos de secas intensas, como o que estamos observando agora em São Paulo, serão mais frequentes e mais intensos, o mesmo acontecerá com os períodos de chuvas, que também serão mais intensos. Obviamente, as mudanças são difíceis de ser observadas porque é um processo contínuo, mas os modelos climáticos indicam que já podemos estar observando esse aumento. As duas maiores secas da Amazônia ocorreram no último século, em um intervalo muito curto, em 2005 e 2010. Saber se isso é uma tendência é difícil porque precisamos acumular estatísticas por um tempo maior, mas isso não quer dizer que não temos de nos preparar. Os aumentos no nível do mar em locais como algumas regiões do Nordeste também podem ser maiores. Muitas cidades de áreas costeiras do Brasil vão sofrer um impacto grande e o governo ainda não tem plano de contingência.

Quais serão os impactos econômicos dessas mudanças?

Uma planta, em geral, requer uma determinada quantidade de chuva, radiação e temperatura para florescer, crescer e produzir em condições ideias. Ao alterar qualquer um desses parâmetros, a produtividade agrícola é alterada. Fator esse preocupante, num mundo com 8 bilhões de pessoas com forte demanda por alimentação. A Embrapa já está conduzindo um amplo programa de desenvolvimento de espécies de cultivo vegetal, que sejam mais tolerantes aos fenômenos climáticos extremos. Existe, porém, um limite até onde podemos desenvolver novos cultivos – e é um processo demorado. Também não existe ainda nenhum mecanismo internacional estruturado para lidar com a economia globalizada. Um gado que é criado e produz metano aqui, vira carne exportada para a Holanda. Assim, a Holanda diminui as emissões, mas o Brasil aumenta. E, se levar em conta que será necessário adaptar uma cidade como São Paulo para lidar com enchentes, esses custos são astronômicos. Quanto mais cedo começarmos a nos adaptar, mais diluídos no tempo esses custos serão e menores serão os danos.

Quais adaptações serão necessárias?

O Brasil não tem ainda uma política coerente de médio e longo prazo de enfrentamento aos impactos que serão causados pelas mudanças climáticas globais. Ainda estamos engatinhando. Os custos da adaptação não serão pequenos. Talvez haja necessidade do deslocamento da população. Nas grandes cidades da costa, como Vitória, Rio de Janeiro e Porto Alegre, será necessário realizar obras de adaptação e contenção. Em Manaus o intervalo entre as maiores secas e maiores cheias do rio aumentou na ultima década, assim como em Santarém, e cidades da bacia vão ter de se preparar melhor para essa maior amplitude entre as épocas de seca e cheia. Precisamos ter uma politica realmente efetiva de ocupação de encostas para minimizar danos como o que ocorreu em Petrópolis, em 2011, com chuvas cada vez mais intensas causando danos cada vez maiores. Precisamos fortalecer a Defesa Civil. Isso não é algo que se faz da noite para o dia. É preciso ter prognósticos mais eficientes sobre impactos.

Como podemos diminuir os impactos?

Isso é um desafio enorme que tem de ser enfrentado de duas maneiras: reduzindo a emissão de gases estufa, principalmente os provenientes da queima de combustíveis fósseis, o mais rápido e com a maior intensidade possível. Não desperdiçando eletricidade, tornando o setor produtivo mais eficiente, investindo em educação para uma nova geração de brasileiros com formação científica forte, reformando o sistema de transporte. A segunda coisa é o país preparar sua infraestrutura para as mudanças que vão ocorrer e já estão ocorrendo, desde a questão hídrica e costeira, até a questão dos eventos climáticos extremos. São grandes secas, grandes inundações, furacões que estão aumentando de frequência, ondas de frio e ondas de calor... Isso traz um custo social potencial muito grande. É fundamental o governo estruturar uma politica coerente e bem acordada com a indústria e a sociedade que seja de longo prazo e de âmbito nacional. Temos de desenvolver um plano para lidar com o aumento da erosão marinha em áreas costeiras e com a mudança no balanço hídrico no sul do país, na Amazônia e em parte também no Nordeste. Essas mudanças são absolutamente necessárias e devem ser feitas ou no mínimo estimuladas como políticas públicas dentro do próximo governo.

Em quais áreas já tivemos sucesso? 

O Brasil tem um papel de liderança mundial importante na pesquisa de mudanças climáticas e é protagonista na política de controle, com sucesso enorme na redução do desmatamento da Amazônia. Reduzimos de 27 mil km quadrados, em 1995, para 5 mil quilômetros quadrados, em 2013. Isso foi um sucesso estrondoso. Fomos também o país que mais reduziu as emissões de gás de efeito estufa entre todos os países da ONU. Cerca de 80% de suas emissões de gases, de acordo com cálculos realizados pelo Inpe. O problema hoje é que existe dificuldade de implementação de novas usinas hidrelétricas na Amazônia, que leva ao aumento do uso de combustíveis fósseis na geração de eletricidade. Se essa tendência continuar ao longo dos próximos anos, podemos ter dificuldade em manter a matriz energética com baixa emissão.

O que o Brasil está fazendo nesse sentido?

O governo já investe recursos importantes no desenvolvimento de redes de monitoramento de modelos climáticos que possam fazer previsões mais confiáveis e seguras, mas é importante entender que os processos que estamos atravessando são complexos e não lineares. Além disso, nosso entendimento do sistema climático global ainda é relativamente limitado. Muita pesquisa está sendo feita e terá de ser feita para quantificarmos com maior precisão possível o impacto e os custos que vão acarretar para o bolso do contribuinte. O atual governo deu o pontapé inicial, mas precisamos ser mais atuantes nos fóruns de discussão climática globais.

Paulo Artaxo é professor do Instituto de Física da USP e membro do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC)

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