Marcos de Paula/AE
Marcos de Paula/AE

'Não dá pra fazer uma licitação de hotel como o Itamaraty fez'

Eduardo Paes, prefeito do Rio, critica estratégia do governo para o setor hoteleiro durante a Rio+20

Luciana Nunes Leal, Márcia Vieira, O Estado de S.Paulo

20 Maio 2012 | 03h06

RIO - Anfitrião da Rio+20, a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, o prefeito Eduardo Paes quer passar pelos dez dias de encontro, de 13 a 22 de junho, como o juiz em uma partida de futebol. Quanto menos aparecer, melhor. "Se aparecer, é porque deu problema", brinca.

Para o prefeito, a organização da Rio+20, que reunirá mais de cem chefes de Estado, traz lições para os futuros eventos que a cidade vai receber: a Copa das Confederações (junho de 2013), a Jornada Mundial da Juventude (julho de 2013), a Copa do Mundo (2014) e os Jogos Olímpicos (2016). E aponta erros que não poderão ser repetidos.

Um deles é a oferta de hospedagem. Os altos preços das diárias durante a conferência geraram protestos das comitivas estrangeiras a ponto de o governo federal ser obrigado a intervir para reduzir os valores em até 35% nesta semana. Paes critica a licitação feita pelo Itamaraty para contratar a agência responsável pela reserva de hotéis. Diz ainda que "cresceu o olho" da rede hoteleira, que passou a cobrar diárias exorbitantes.

Candidato à reeleição em outubro, ele reconhece que o Rio ainda está longe de ser uma cidade ambientalmente correta, mas aponta avanços em comparação com a Eco-92. "O Rio não se vende como paraíso", diz.

O que fez as diárias dos hotéis ficarem tão caras no período da conferência?

Um conjunto de fatores. A restrição urbanística da zona sul criou uma série de dificuldades para a permissão de novos empreendimentos hoteleiros. Em 2010, a gente criou uma legislação e flexibilizou parâmetros. Em 2016, vamos ter um número mais do que necessário de hotéis. Construção de hotel não é feita do dia para a noite. A Rio+20, ao contrário da Copa e da Olimpíada, foi decidida em 2010.

Essa oferta vai garantir preços menos exorbitantes na Copa e na Olimpíada?

A gente não pode generalizar, mas alguns hotéis abusaram. E teve essa licitação que o Itamaraty fez com uma empresa que, me parece, não tem a capacidade para realizar a tarefa. Lá atrás eu gritei e chamei atenção para a questão. A gente teve reuniões com o setor hoteleiro, a Casa Civil, o governo federal e finalmente chegamos a um consenso.

Não está um pouco tarde?

Essa cobrança você pode fazer ao Itamaraty, que bloqueou os quartos. A cidade ofertou a rede hoteleira. Tanto que tem 10 mil quartos sobrando. Houve uma negociação ruim com essa agência, a Terramar. Não digo que não houve abuso, mas a maior prova de que não é um problema da rede hoteleira é que tem quarto disponível.

O senhor acha que cresceu o olho?

Cresceu o olho da Terramar, da rede hoteleira. Querem fechar pacotes de uma semana. Em um evento com essas características não pode. Isso tudo tinha de estar no processo licitatório feito pelo Itamaraty. Foi um teste. Não dá para fazer uma licitação com as características que o Itamaraty fez para escolher essa agência. As regras do processo licitatório têm de estar muito claras. Acho que não tem risco de perder nenhuma delegação. Agimos rápido. Mas não pode ter uma licitação dessas para Copa do Mundo, Jornada Mundial da Juventude, Copa das Confederações e Olimpíada.

Não ficou a imagem de que o Rio é uma cidade impraticavelmente cara?

Que nada, a imagem que fica do Rio é que é uma cidade divertida. Está na moda, todo mundo quer vir. A Rio+20 é o primeiro de uma série de grandes eventos. Na Eco-92, a grande questão da cidade era segurança. Hoje as questões que preocupam dizem respeito à gestão da cidade.

O Rio está preparado para a Rio+20?

O Rio evoluiu muito, mas é uma evolução recente. Vamos fazer a Rio+20 com o Aterro de Gramacho fechado (lixão onde são despejadas diariamente 1,8 mil toneladas de lixo). Como uma cidade que se pretende ambientalmente correta faz um encontro ambiental com um lixão às margens da Baía de Guanabara? Vamos ter um centro de tratamento de resíduos muito qualificado. Vamos inaugurar o primeiro BRT (corredor de transporte coletivo), a Transoeste, de 56 quilômetros. São dois grandes fatores de emissão de gases de efeito estufa na nossa cidade: lixo e transporte. A gente começa o saneamento de metade do território da cidade, a zona oeste, que tem 5% do esgoto tratado. Até 2016 chegaremos a 40%. Esses três temas são críticos para uma cidade que quer ter um perfil ambiental correto. O Rio recebe a Rio+20 mais preparado, passando menos vergonha do que passou em 1992. A Rio+20, como primeiro desses grandes eventos, é uma oportunidade de a gente receber bem, mas é um evento que traz mais autoridades do que massa.

E a Cúpula dos Povos, que tem previsão de atrair 30 mil pessoas?

Sim, tem a Cúpula dos Povos, mas, mesmo assim, é um pouco mais restrito. É até mais fácil de lidar, apesar de parecer mais complexo. Foi mais fácil negociar com a Cúpula do que discutir essa questão de hotelaria.

O feriado escolar de três dias durante a Rio+20 foi um improviso para evitar transtornos no trânsito?

Improviso não. No caso da Olimpíada e da Copa do Mundo, a gente teve como propor eventos com uma enorme antecedência e em época de férias escolares. A Rio+20, quero lembrar, seria no começo de junho, perto do feriado de Corpus Christi. Há seis meses mudaram para o fim de junho. Eu tinha um planejamento contando com o feriado, para ter a cidade mais vazia. É uma honra, mas é um transtorno para a cidade.

Os visitantes vão encontrar praias impróprias, rios e lagoas poluídos, reciclagem de lixo quase inexistente. Que imagem eles vão levar do Rio?

O Rio não se vende como paraíso. É uma grande cidade, com enormes problemas. O Rio não ganhou a Olimpíada nem a Copa do Mundo com o discurso de 'Venham, porque paradise is here (o paraíso é aqui)'. O que dissemos foi que trazer os eventos para cá era uma chance de transformar a cidade. O auge disso será a Olimpíada, que mais se preocupa com o legado, a transformação. Esses eventos mobilizam. Descobri isso quando começou a explodir bueiro na cidade. Diziam: 'Como é que vamos realizar a Copa, a Olimpíada com bueiro explodindo?' Eu falei: 'Como é que vamos estar vivos até lá?' Não é a Copa, a Olimpíada, é todo dia.

A Rio+20 corre o risco de ser um grande fracasso nas negociações multilaterais. A cidade do Rio vai levar alguma proposta à conferência? Vamos fazer o C40 com prefeitos das maiores cidades do mundo, no Forte de Copacabana, e anunciar uma meta ousada para emissão de gases de efeito estufa. Aqui no Rio, somos anfitriões. Meu papel não é de protagonista. É igual ao de juiz, que no final ninguém tem de notar que existiu. Se notar é porque deu problema. Tudo tem de fluir bem, caminhar a contento.

Politicamente, o sucesso ou os problemas da Rio+20 terão efeito neste ano de eleição em que o senhor tentará um novo mandato?

Eleição para quem disputa reeleição é avaliação de governo. As pessoas vão votar e pensar: 'O Rio melhorou ou piorou nesses três anos e meio com o Eduardo?' Quem achar que piorou vai votar contra mim. Quem achar que melhorou a tendência é que me escolha. Eu acho que melhorou. É um governo limpo, sem história esquisita. A Rio+20 influencia, o trânsito todo dia influencia, o sobrado que cai influencia. O Rio é sensacional, as pessoas estão com a autoestima lá em cima.

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