Na trilha do ‘Deus que fala’

O Estado de S. Paulo

21 de março de 2011 | 23h59

 

Nos mais remotos povoados do sul do Peru, os quéchuas, descendentes dos incas, costumam se referir ao Amazonas como o “deus que fala”, por causa do estrondo de suas águas nos cânions e despenhadeiros. O rio que nasce na Cordilheira dos Andes e deságua no Golfão do Marajó, que abrange os litorais do Amapá e Pará, tem o maior curso em volume e extensão do mundo e representa 16% da reserva de água doce do planeta.

 

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No Dia Mundial da Água, o Estado publica o relato da expedição realizada pelo repórter Leonencio Nossa e pelo repórter fotográfico Celso Junior da nascente à foz do Amazonas – material reunido no livro O Rio, que será lançado pela Editora Record em abril. Em oito viagens, eles percorreram 10 mil quilômetros a pé, a cavalo, de balsa e em barcos a remo e a motor para fazer um perfil do Amazonas e registrar a vida nos povoados e cidades às suas margens. O rio tem 7 mil quilômetros, mas a equipe repetiu trechos e incluiu no percurso lagos e afluentes que ajudam a entender a dinâmica e a complexidade da formação do Amazonas e de sua bacia, de 6,8 milhões de quilômetros quadrados.

 

A tradicional imagem do curso barrento que serpenteia o verde da floresta é apenas um retrato de um rio de muitas faces. Ele nasce cristalino nos Andes, desce azul pelo deserto marrom do altiplano, fica verde nos precipícios do início da selva, ganha a tonalidade amarelada ainda na mata peruana e corta a Amazônia como um imenso tapete da cor de chocolate.

 

É um gigante que desafia a ciência. Em tempos de Google Earth, o Amazonas tem trechos ignorados até nos mapas dos governos e Exércitos do Peru, da Colômbia e do Brasil, países banhados por suas águas.

 

Um gigante que nasce modesto no ar rarefeito

 

No trecho inicial, um dos córregos que formam o Amazonas tem 1 metro de largura e menos de 30 cm de profundidade.

 

É preciso enfrentar o frio e o ar rarefeito para chegar ao início do Amazonas. As primeiras águas do rio brotam de uma fonte do Monte Queuisha, a 5.179 metros de altitude, no deserto do altiplano peruano, em Arequipa. Dali, um filete de água desce azul a montanha entre cascalhos e se junta a outros córregos da Cordilheira dos Andes.

 

A Quebrada (Córrego) Apacheta é considerada a origem do Amazonas pelos governos do Peru e do Brasil. Foi o polonês Jacek Palkiewicz quem, em 1996, apontou o Apacheta como nascente do rio. Mas moradores consideram outro ribeirão, que brota a 10 quilômetros do Apacheta, como curso inicial do rio: a Quebrada Carhuasanta, que nasce no Monte Mismi, de 5.772 metros, descrita em 1971 pelo inglês Loren MacIntyre.

 

O Carhuasanta desce a montanha e, embaixo, corta uma área plana. Na parte baixa, ele alimenta “bofedales”, formações de musgo onde animais saciam a sede. Lá as mulas usadas pela equipe do Estado param para beber água – água do Amazonas, que aqui não atinge 1 metro de largura nem 30 centímetros de profundidade. Mais adiante o córrego se junta ao Apacheta para dar origem ao Rio Lloqueta. É com esse nome que o curso d’água vai atravessar o deserto peruano, entre montanhas sem vegetação, secas.

 

Não há estudos sobre o impacto das mudanças climáticas nas geleiras, mas muleiros e guias afirmam que os montes gelados estão menores a cada ano. Natividad Flores, de 55 anos, guia da equipe do Estado, diz que isso ocorreu com o Mismi e outras montanhas imponentes de Arequipa, como o Misti e o Ampato.

Por causa do degelo no Ampato, o arqueólogo americano John Reihard achou em 1995 uma joia: a múmia de uma garota imolada por sacerdotes incas em oferenda ao deus Wamani. Estima-se que tinha 14 anos quando foi morta. Juanita, como foi batizada, está numa urna climatizada no Museu Santuários Andinos, em Arequipa.

 

Funcionária do museu, Paola Vera diz que, nos últimos anos, foram achadas 14 múmias de crianças incas sacrificadas em épocas de terremotos e inundações para “acalmar” os deuses. Crianças da nobreza, as mais belas, eram escolhidas. Juanita tem rosto largo e cabelos negros. Do lado direito do crânio, está a marca do instrumento de pedra usado pelo sacerdote que a imolou. Hoje, as oferendas dos camponeses são alpacas e lhamas, cujos restos podem ser vistos numa caminhada pelo Mismi.

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