Na Amazônia, comunidades locais ganham mercados
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Na Amazônia, comunidades locais ganham mercados

Famílias que não têm apoio para produzir acabam optando pelo desmatamento

Estadão Blue Studio, O Estado de S.Paulo

15 de junho de 2022 | 06h00

Boa parte dos projetos agroflorestais recebe o apoio de governos, organizações não governamentais, institutos de pesquisa e fundos específicos patrocinados por grandes empresas. É o caso, por exemplo, da recém-inaugurada fábrica da Amazonbai, em Macapá (AP). A premiada cooperativa de produtores principalmente de açaí atua no arquipélago do Bailique (um conjunto de oito ilhas localizado na foz do Rio Amazonas) e na região do Beira Amazonas, no interior do Estado do Amapá. O projeto, que inclui exploração sustentável e educação, vai receber R$ 15 milhões nos próximos três anos do Fundo JBS pela Amazônia. 

O projeto, segundo Andrea Azevedo, diretora de Sustentabilidade do Fundo, é o único no Brasil com manejo de baixo impacto que tem certificação pelo Forest Stewardship Council (FSC), o selo verde mais reconhecido no mundo. Segundo a executiva, o apoio do fundo se dá em todas as dimensões, desde o incentivo à exploração sustentável do açaí no local, com foco na conservação, até a formação técnica dos extrativistas e de suas famílias. 

“O objetivo é fazer com que quem esteja na ponta (da extração) tenha a competência da gestão para chegar a novos mercados”, afirma. O projeto inclui um apoio que está transformando a escola local num verdadeiro centro de informações sobre a economia e os negócios próprios da região. 

Projetos desse tipo que apoiam pequenos produtores, segundo Leila Harfuch, sócia-gerente da consultoria Agroicone, são importantes para o futuro da segurança alimentar. Segundo ela, que coordenou um estudo recente sobre o potencial da agricultura familiar para as metas de desenvolvimento sustentável, esses apoios trazem diversificação de produtos, aumentando a resiliência desses agricultores.

Ainda segundo dados do Censo, em termos de produção física, a agricultura familiar responde, em média, por 22% da produção vegetal (lavouras temporárias e permanentes, extração vegetal e horticultura), com quase 70 milhões de toneladas. Se não forem consideradas as principais commodities, a fatia que esses produtores alcançam nas lavouras temporárias salta para 42%. Nas permanentes, salta para 59% na horticultura e para 77% na extração vegetal.

O estudo da Agroicone indica que, em muitos casos, a produção da pequena agricultura no País contribui apenas para a própria subsistência do produtor e de sua família, o que não significa uma contribuição social de pouca relevância. Isso porque uma das bases do bem-estar social é exatamente a segurança alimentar. Por outro lado, existem proprietários mais bem estabelecidos e equipados, que abastecem os mercados locais ou institucionais e, em algumas situações (como nichos de mercado ou produtos específicos), conseguem alcançar os mercados nacional e internacional.

Mas há desafios a serem considerados. Mesmo que as SAFs estejam contempladas em algumas linhas do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), um sistema nesses moldes pode ter custos de até R$ 30 mil por hectare e longos prazos de maturação. “É preciso pensar na renda de curto prazo para esses agricultores. Por isso, às vezes, é necessário combinar culturas frutíferas com as de hortaliças, por exemplo”, explica Leila.

Andrea, do Fundo JBS, concorda que é preciso incluir conhecimento, acesso ao crédito e assistência técnica para os pequenos agricultores. “Uma família sem apoio tende a desmatar”, destaca, lembrando que as queimadas só ajudam a empobrecer o solo. “É preciso olhar o eixo da ciência e da tecnologia também, entender essas lacunas e onde precisa ter novos produtos. É colocar a potência da Amazônia a serviço da economia”, afirma.

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