Ecotrópica/Divulgação
Cerca de 70 jacarés desnutridos e desidratados foram translocados de um corixo seco do Rio Pixaim, em Poconé (Mato Grosso) Ecotrópica/Divulgação

Mutirão resgata e transporta jacarés ameaçados em meio à seca do Pantanal

Operação, que contou com o Ibama do Mato Grosso, transportou em vans cerca de 70 animais desnutridos e desidratados no último mês. Captura exige quatro pessoas para conter jacaré

Amanda Calazans, especial para o Estadão

06 de outubro de 2021 | 15h00
Atualizado 08 de outubro de 2021 | 20h20

Um mutirão de organizações transportou jacarés ameaçados pela seca do Pantanal no último mês. Cerca de 70 animais desnutridos e desidratados foram translocados de um corixo seco do Rio Pixaim, em Poconé (Mato Grosso), onde disputavam uma poça que chegava a 35ºC com pelo menos 600 jacarés. 

A intervenção fez parte da operação em Mato Grosso do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), que segue até a chegada das chuvas no Pantanal Norte, previstas para o fim de outubro. 

Com o princípio de interferir o mínimo possível no ambiente, o Ibama, em conjunto com outras organizações ambientais, decidiu remanejar os jacarés a partir de um estudo da água restante do corixo, que se mostrou “inadequada para qualquer tipo de vida”. “É mais fácil você dizer que translocou alguns animais do que anunciar a morte de dezenas deles em razão da falta d'água", avaliou na ocasião o presidente da Ecotrópica, Ilvanio Martins.

Veja o momento do resgate dos jacarés no Pantanal

Para garantir a segurança das equipes de voluntários e dos jacarés, o remanejo precisou ocorrer em boas condições de iluminação e temperatura. “Os animais eram avaliados e só eram resgatados os que estavam em estados mais críticos, como desnutridos e desidratados”, conta Magnus Olzon, fundador da Brigada Pantanal Norte, do Instituto SOS Pantanal.

Após serem contidos por quatro pessoas cada um, os jacarés foram levados para as vans que fizeram o trajeto de uma hora até o novo lar, onde receberam soro e suplemento alimentar. Na viagem, eles seguiam com os olhos vendados e com a boca e os membros superiores e inferiores contidos.

Desde o início da intervenção na Ponte 3 da Rodovia Transpantaneira, caminhões-pipa de 16 mil litros fazem a reposição diária da água do corixo para beneficiar a população que permaneceu. Um trabalho de “enxugar gelo”, segundo Martins, da Ecotrópica, porque o volume é consumido diariamente pelo uso e evaporação.

O jacaré-do-pantanal tem uma população estável de 3 milhões de indivíduos no bioma, onde encontram abundância de água e alimentos, além de praias para colocarem seus ovos na areia. “É um ambiente talvez dos mais propícios no mundo para jacarés”, afirma o pesquisador de ecologia Rudi Laps, professor da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS).

Durante a estiagem, é possível ver uma concentração de animais que costumam ficar espalhados durante as cheias, mas não se trata de um desequilíbrio. Nos anos 80, a caça desenfreada para venda de couro e carne de jacarés no mercado internacional diminuiu a população da principal espécie da região. “Em muitos locais, demorou muito tempo para eles voltarem.”

Hoje, a seca é um dos fatores de mortalidade de jacarés. Além de diminuir a oferta de alimentos, prejudica a termorregulação do animal: em temperaturas altas, ele vai para a água ou para a sombra. “A gente não sabe se uma espécie desse tamanho vai conseguir se recuperar novamente. Não sabemos qual é o grau de resiliência das populações de jacaré”, afirma Laps.

Carcaças e atropelamentos formam cenário na região

Voluntários que participaram da ação relatam ter visto muitas carcaças intactas e casos de atropelamento de animais na rodovia, possivelmente fugindo da seca que atinge o Pantanal. Mas a translocação de jacarés não tinha o objetivo de evitar uma extinção, afirma o servidor do Ibama Bruno Ramos. “Isso não causa alteração nenhuma na população. A gente fez isso pensando no indivíduo em si, na qualidade daquele indivíduo que estava em processo de sofrimento.”

Os jacarés podem passar por um período na lama sem se alimentar, chamado de estivação, por até 90 dias. O problema para Martins, da Ecotrópica, é que não se sabe quando eles iniciaram o processo, uma vez que o bioma está desde julho em seca extrema. E alterações como essa causam ocorrências nunca vistas antes, como um jacaré comer mamão, quando o esperado é que pratique canibalismo em situações extremas.

 


“Quando a condição se esgota, a impressão que a gente tem é que starta no mundo animal uma capacidade de interação e tolerância, porque todos precisam daquele espaço”, diz Martins, que conta ter visto no corixo abastecido jacaré, capivara, garça e gado beberem água juntos.

Tudo o que sabemos sobre:
Pantanaljacaréincêndio florestal

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Com queimada, pássaros caem em rio no Pantanal e são resgatados por pescadores

Vídeo mostra pescadores recolhendo aves do Rio Paraguai em Corumbá (MS); fogo já atingiu 1,368 milhão de hectares do bioma em 2021

Amanda Calazans, especial para o Estadão

06 de outubro de 2021 | 15h00

As queimadas constantes na região do Pantanal no Mato Grosso do Sul têm afetado a sobrevivência de aves da região. Pescadores flagraram pássaros caindo em rios de Corumbá após serem afetados pelo fogo e fumaça de um dos incêndios. Parte dos animais foram resgatados por pessoas que passavam de barco pela área, mas muitos outros não sobreviveram. 

Imagens captadas pelo guia de pesca esportiva Rogério Lima, de 43 anos, mostram o momento em que é possível ver os pássaros em um rio da região do Pantanal. Apesar das queimadas, ele tem levado turistas para pescar no Rio Paraguai a serviço de pousadas da localidade e no domingo, 26, se deparou com o efeito dos incêndios sobre as aves na área que fica entre Albuquerque e Porto Morrinho. “Estava fazendo a pesca, automaticamente começaram nuvens de fogo e os passarinhos começaram a cair tudo do céu”, relata o guia ribeirinho.

Veja as imagens do resgate dos pássaros

 

Então, com celulares à mão, o guia e o turista passaram a recolher do rio os pássaros que pareciam estar vivos. “Se eu ficar aqui a tarde inteira pegando passarinho que está morrendo, vou encher o barco”, diz Lima em um dos vídeos. Nas filmagens, é possível ver resgatadas na embarcação pelo menos 15 aves de diferentes cores, a maioria imóvel e em silêncio.

Chororó-do-pantanal, ariramba, japacanim e pipira-vermelha foram algumas das espécies que o pesquisador de ecologia Rudi Laps, professor da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS), identificou pelas imagens. De acordo com o professor, são pássaros pequenos e sensíveis, mas que atravessam o rio em incêndios típicos do Pantanal. No entanto, pela velocidade e altura do fogo, podem não ter conseguido escapar a tempo e se intoxicaram com o monóxido de carbono da fumaça.

A cena de passarinhos caindo na água não era comum até 2020, quando ocorreram as maiores queimadas no bioma, com 3,909 milhões de hectares atingidos no ano. Antes disso, conta Laps, os incêndios provocados por raios no mês de setembro duravam pouco, tinham chamas mais baixas e perdiam força ao chegar nas matas ciliares - o que não tem ocorrido.

Segundo o guia de pesca, entre vivos e mortos, foram levados cerca de 50 pássaros para uma pousada próxima, “fora no rio, que tinha mais”. Depois de jogar água nas aves, conta ele, algumas conseguiram voar. 

O impacto da morte dos animais ainda será avaliado por especialistas, afirma Laps. Mas é possível saber que os pássaros exibidos no vídeo, além da função de controle de insetos, fazem a dispersão de sementes, fundamental para a recuperação do bioma. “Sem essas aves, como é que nós vamos recolonizar esses locais que estão queimados?”, questiona o professor.

Região sofre com queimadas

Antes das queimadas, o dia a dia de Lima já estava afetado pela seca do Pantanal Sul, que o deixou sem água para consumo na casa onde vive com a mãe, na beira de um corixo. A estiagem também prejudicou o trabalho como guia, porque dificulta a navegação dos barcos de pesca. Agora, com cinzas e fuligem no rio, ele acrescenta aos problemas que os peixes estão deixando a região.

Para setembro, era esperado um pico de incêndios no bioma, que bateu recorde de focos no ano passado. Até o dia 1º de outubro, o fogo havia atingido 1,368 milhão de hectares do Pantanal, de acordo com monitoramento do Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais (Lasa) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

 

 

Embora menor que os dados equivalentes de 2020 - 3,195 milhões de hectares -, a área afetada em 2021 ultrapassa em quase 40% a média dos últimos dez anos para o período, de 979 mil hectares. Felizmente, a magnitude dos incêndios está sendo percebida pela comunidade, avalia o professor Laps. “Apesar de o Pantanal estar longe, tem um turismo de pesca muito forte, então as pessoas estão vendo e divulgando.”

 

Tudo o que sabemos sobre:
Pantanalincêndio florestalaves

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.