Mundo teme pelas vítimas do ciclone em Mianmar

A preocupação mundial com as cerca de1,5 milhão de vítimas do ciclone Nargis agravou-se naterça-feira, quando a ONU e potências ocidentais sugeriram queo regime militar pode estar roubando a ajuda humanitáriaenviada. Além disso, a forte chuva no delta do rio Irrawaddy tornaainda mais lenta a distribuição de alimentos e outros gênerosessenciais a centenas de milhares de desabrigados. Especialistas dizem que só 10 por cento da ajuda necessáriaestá sendo distribuída, e críticos dizem que o regime militardeveria se empenhar mais -- inclusive permitindo o acesso deestrangeiros à área do desastre, onde até 100 mil pessoasmorreram. Michele Montas, porta-voz da ONU, disse a jornalistas emNova York que a entidade está preocupada com a hipótese de osalimentos estarem sendo desviados na antiga Birmânia parapessoas que não foram vitimadas pelo ciclone. O embaixador britânico na ONU, John Sawers, fez eco a essesrumores, embora tenha admitido que não há provas. França,Estados Unidos e União Européia pediram que a junta militarautorize a entrada de mais funcionários humanitáriosestrangeiros. A Espanha disse que recusar ajuda é um crimecontra a humanidade. A França disse ter apoio da Grã-Bretanha e da Alemanha parapropor no Conselho de Segurança da ONU uma resolução queautorize o envio de ajuda mesmo sem a autorização do governobirmanês. "Pedimos que [o conceito de] 'responsabilidade de proteger'seja aplicado no caso da Birmânia", disse o vice-ministrofrancês para Direitos Humanos, Rama Yade. O conceito de "responsabilidade de proteger" foiintroduzido em 2005 por uma resolução da ONU, para ajudarvítimas de genocídio, crimes de guerra e crimes contra ahumanidade, mas não em caso de desastre natural. Uma autoridade britânica disse que seria positivo discutirsua eventual aplicação neste caso, mas considera que umaresolução nesse sentido seria reprovada, devido às objeções deRússia e China. MAIS AVIÕES Um dia depois da chegada do primeiro avião norte-americanocom ajuda, um cargueiro militar australiano pousou em Yangon,maior cidade do país, transportando 31 toneladas demantimentos. Mais dois vôos dos EUA chegaram na terça-feira, como partede um esforço para buscar a confiança dos generais birmaneses. Onze dias depois da tragédia, desabrigados se amontoam emescolas e mosteiros budistas de todo o delta do Irrawaddy.Muitas aldeias, que já eram miseráveis, estão completamentedestruídas. "Onde estou agora há mais de 10 mil desabrigados e estáchovendo muito", disse Bridget Gardener, da Cruz VermelhaInternacional, uma dos poucos profissionais humanitáriosautorizados a visitarem a região. A TV estatal disse que seis barcos com 500 toneladas deprodutos zarparam na terça-feira de Yangon em direção ao delta. Um empresário de Yangon que voltou de uma missão pessoal deajuda em Bogalay, uma cidade onde houve pelo menos 10 milmortes, disse à Reuters que os soldados estão se apropriando daajuda que chega. "Ainda há algumas aldeias nas áreas mais atingidas aondeninguém chegou", disse o homem. "Em torno de Bogalay, doadoresprivados não são autorizados a distribuir sua assistência àsvítimas por conta própria. Tivemos de entregar tudo o quetínhamos." (Reportagem adicional de Louis Charbonneau, nas NaçõesUnidas, Carmel Crimmins, em Bangcoc; David Brunnstrom e IngridMelander, em Bruxelas)

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.