Mundo espera pela ‘cartada de mestre’

Negociações da COP-15 chegam ao fim do jeito que começaram – sem nenhum consenso

Herton Escobar, de O Estado de S. Paulo

18 Dezembro 2009 | 12h03

Infelizmente, não era blefe. As negociações em Copenhague chegam aos instantes finais do mesmo jeito que começaram – sem nenhum consenso sobre nenhuma das questões mais importantes que deveriam constar do novo acordo internacional de combate às mudanças climáticas. Não há acordo à vista sobre quanto os países industrializados deverão reduzir suas emissões de gás carbônico nem sobre quanto dinheiro eles darão para ajudar os países em desenvolvimento a fazer o mesmo – conforme determina a Convenção do Clima das Nações Unidas, o tratado internacional que rege as discussões sobre esse tema desde 1992.

 

De fato, não há consenso nem mesmo sobre qual documento deve servir de base para as negociações. Vários rascunhos foram colocados na mesa, mas nenhum agradou o suficiente para ser levado adiante. O “problema” é que as decisões só podem ser tomadas por consenso. Todos os 192 países signatários da Convenção precisam concordar com cada vírgula do texto final que, eventualmente, selará um acordo sobre como o mundo vai lidar com o problema das mudanças climáticas daqui para frente. Se um deles bater o pé e disser que a vírgula deveria estar mais para a direita, não há acordo.

 

A lista de 192 países inclui desde os mais miseráveis até os mais ricos do mundo, com interesses e necessidades completamente diferentes. Portanto, é natural que as negociações sejam difíceis e se arrastem até o último minuto. Funciona como um jogo de pôquer. Todo mundo guarda sua melhor carta para o final, enquanto tenta espiar as cartas dos outros. Quando se chega à última rodada sem nem ao menos um texto-base de negociação sobre a mesa, porém, fica difícil acreditar que alguma cartada de mestre poderá salvar o jogo em que todos deveriam sair vencedores.

 

A situação no momento é a seguinte. O Protocolo de Kyoto (um acordo complementar à Convenção, assinado em 1997) obriga os países desenvolvidos a reduzir suas emissões em 5% até 2012. Depois dessa data, se não houver uma renovação de metas em Copenhague, o protocolo vai pelo ralo. A ciência diz agora que é preciso uma redução de 25% a 40% até 2020 para garantir que a temperatura do planeta não suba mais do que 2°C – limite considerado “seguro”.

 

Os países em desenvolvimento exigem que o corte seja de 40%, mas as metas propostas pelos desenvolvidos até agora não chegam nem a 20%. A Convenção diz que só os países industrializados têm obrigação de reduzir suas emissões, mas estes querem que as nações emergentes (como China e Brasil) também se comprometam com metas obrigatórias.

 

O outro grande debate é sobre financiamento. A Convenção também diz que os países ricos têm obrigação de dar ajuda financeira e tecnológica para que os países pobres consigam crescer de maneira limpa (emitindo menos carbono) e, ao mesmo tempo, lidar com as mudanças climáticas que já estão em curso. O problema é o mesmo das metas: os valores oferecidos pelos países desenvolvidos estão muito abaixo do necessário, e eles querem que os países em desenvolvimento doem dinheiro para o bolo também.

O que acontecerá, então, se não houver acordo esta noite em Copenhague? Nada. Esse é o problema.

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