Marcos Xerente
Marcos Xerente

Primeira brigada feminina indígena do País combate o fogo em Tocantins

Membros do povo Xerente foram treinadas em agosto; elas também trabalham na coleta de sementes para criar um viveiro de mudas e ajudar na recuperação de áreas prejudicadas

Lailton Costa, especial para o Estadão

01 de novembro de 2021 | 05h00

A rotina de Ana Shelley Barboza Xerente, 31, se divide entre a família – o marido e um casal de filhos –, sua aldeia e seu negócio em Tocantínia (TO), onde faz lanches para vender. Desde agosto, seu dia a dia incorporou uma nova atividade: o voluntariado na brigada para mulheres indígenas do povo Xerente. Ana é integrante do grupo de brigadistas indígenas voluntárias, iniciativa inédita no País para prevenir e combater incêndios florestais.

A ideia da primeira brigada feminina partiu de moradores da aldeia Cachoeirinha. A comunidade sediou, em agosto, curso de formação para 29 mulheres, com apoio da Prefeitura de Tocantínia, do Serviço Florestal Americano e da Fundação Nacional do Índio (Funai). A salgadeira brigadista explica a adesão. "Primeiro, porque amo a natureza. Por que não ajudar a preservar?", conta.

A experiência do marido também pesou. "Meu marido é um brigadista e grande defensor da natureza. É a minha grande inspiração." O marido de Ana é Pedro Paulo Xerente, supervisor do Sistema Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (Prevfogo) nas terras indígenas do Tocantins. Ele destaca a importância do reforço do Esquadrão da Brigada Feminina Xerente, ao citar um combate que se iniciou à tarde e se estendeu até uma hora da madrugada. "A brigada das guerreiras surpreendeu por conseguir acompanhar a equipe masculina por mais de 12 horas, em local acidentado", conta.

Outro resultado animador da participação das brigadistas indígenas aparece nas queimas controladas. Tradicionalmente, o povo Xerente usa o fogo para queimar a vegetação seca após a roçagem para preparar as áreas de plantio. Neste ano, as queimas foram supervisionadas pelas mulheres. "Todas com sucesso. Em nenhuma roça, o fogo pulou e virou incêndio", afirma Pedro Paulo.

Educação ambiental é outro foco da equipe

Além das ações de combate, o trabalho de educação ambiental, feito em 35 das 96 aldeias, é o que entusiasma a chefe do esquadrão, Vanessa Xerente, de 33 anos, casada e mãe de três filhos, moradora da Aldeia Cachoeira Brejo de Ouro, da qual é vice-cacique. "É um trabalho de que todas nós, brigadistas, estamos gostando. É um aprendizado, pelo contato direto com as pessoas de idade, com jovens e crianças. Nesse trabalho cara a cara, mostramos a realidade e o que acontece com a natureza quando há fogo."

Antes, segundo ela, não havia participação feminina nas ações. Com a recente redução das queimadas, a brigada agora coleta sementes de árvores regionais, como aroeira e bacaba, para produzir um viveiro de mudas. "É o momento de fazer mudas para plantar em áreas degradadas, com a participação da comunidade", diz ela. "É um trabalho que precisaria ocorrer mais no País, com apoio do poder público. Acho que mudaria a opinião das pessoas em relação ao meio ambiente."

Expansão exige recursos

Técnica em agropecuária da Coordenação Regional Araguaia-Tocantins da Funai, Conceição Costa avalia que uma expansão do projeto exigiria recursos para contratar as mulheres de Tocantínia e promover formação semelhante em outras aldeias. No Estado, há oito brigadas indígenas masculinas, com 200 brigadistas, que atendem as terras indígenas Apinajé, Kraolândia, Xerente, Funil e o Parque do Araguaia. Os brigadistas são contratados como servidores federais temporários.

O custeio é pago pelo Ibama. "Infelizmente, não há previsão por parte do Ibama na criação de brigadas femininas", diz Warner Gonçalves Lima, coordenador do Prevfogo/Ibama em Tocantins. 

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