Giovana Girardi/Estadão
Giovana Girardi/Estadão

Mudança climática é a questão mais importante do nosso tempo para os jovens, diz pesquisa

Em uma lista de 23 problemas, jovens tiveram de listar os cinco que consideram os mais importantes que o mundo enfrenta hoje. A mudança do clima foi citada por 41% deles; 36% escolheram a poluição e 31%, o terrorismo

Giovana Girardi*, enviada especial à Espanha

09 de dezembro de 2019 | 21h05
Atualizado 11 de dezembro de 2019 | 09h54

MADRI - “É como se fôssemos a primeira geração vivendo a desesperança. A gente se vê sem opção. Se não atuarmos para mudar esse sistema econômico com falhas que levou o mundo ao colapso, não vamos ter futuro.” A declaração de Thiago Bopp, de 18 anos, aluno de Gestão Ambiental no Brasil, traduz o sentimento de milhões de jovens que estão entrando em greves, tomando as ruas ou tentando assumir espaços de negociações para lutar contra mudanças climáticas.

Bopp é o exemplo de uma geração que considera a mudança climática a questão mais importante do nosso tempo, segundo pesquisa da Anistia Internacional, divulgada nesta segunda-feira, 9, para marcar o Dia Internacional dos Direitos Humanos, comemorado nesta terça-feira, 10.

A pesquisa "Futuro da Humanidade", realizada pela Ipsos MORI, é lançada ao mesmo tempo em que ocorre a 25.ª Conferência do Clima da ONU, em Madri. Foram mais de 10 mil entrevistados entre 18 e 25 anos em 22 países, incluindo o Brasil.

Os jovens opinaram sobre o estado dos direitos humanos em seu país e no mundo, quais questões consideram mais importantes e quem eles sentem ser os responsáveis por lidar com abusos. Em uma lista de 23 problemas, tiveram de listar os cinco que consideram os mais importantes que o mundo enfrenta hoje. A mudança do clima foi citada por 41% deles; 36% escolheram a poluição e 31%, o terrorismo

Considerando apenas questões ambientais, 57% citaram o aquecimento global.

Quando perguntados sobre o que mais os preocupam em seus próprios países, o cenário muda um pouco. A maioria citou a corrupção (36%), seguida por  instabilidade econômica (26%), poluição (26%), desigualdade de renda (25%), mudança climática (22%) e violência contra a mulher (21%).

“É importante entender os sinais de alerta que essa pesquisa apresenta. O ponto mais citado globalmente por parte desses jovens é a questão climática. E nós da Anistia Internacional acreditamos que os eventos observados neste ano de 2019 mostram que os jovens estão vivendo dentro de um sistema falido”, disse Jurema Werneck, diretora executiva da Anistia Internacional no Brasil, em comunicado à imprensa.

Bopp, que está em Madri acompanhando as negociações da COP, deu uma declaração parecida, mesmo sem saber o resultado da pesquisa.

“Vejo a emergência climática como uma falha do mercado”, diz o estudante, que decidiu trocar de curso e começar a fazer Economia para tentar encontrar uma solução para mudar o sistema econômico.

Ele, que conta ter começado a se preocupar com o problema aos 15 anos, colabora com uma organização chamada Youth Climate Leaders, que atua com educação climática e abertura de oportunidades de trabalho para jovens líderes.

Convocadas pela sueca Greta Thunberg, greves de sexta reúnem multidões

“Acho que me preocupo com esse problema praticamente desde que nasci”, brinca a designer Daniela Borges, de 26 anos, que também está em Madri para entender melhor o processo de negociações da COP.

Ela é uma das organizadoras no Brasil das Fridays for Future, movimento iniciado pela sueca Greta Thunberg, de 16 anos, que há pouco mais de um ano começou a fazer greves às sextas-feiras para pedir que seu país aja contra as mudanças climáticas.

O movimento ganhou corpo, influenciou milhões de jovens no mundo inteiro que têm sido uma voz cada vez mais forte para pedir ações imediatas contra as mudanças do clima.

“Não consigo fazer nada hoje que não seja relacionado com isso. Com as Fridays for Future me identifiquei. Sentia que não tinha voz por ser muito jovem e entendi ali que é do meu futuro que estamos falando. Quem tem de ter o que falar sobre isso sou eu. Somos nós”, diz Daniela.

Ela afirma que o movimento tem atingido cada vez os mais jovens.

“Sou uma das mais velhas do grupo. E percebemos que esse é um sistema falho, insustentável, com o qual a gente não se identifica”, diz.

Para Bopp, essa visão faz com que muitos sejam taxados de “comunistas”.

“Porque a gente não concorda com o sistema atual, então automaticamente viramos comunistas, mas não estamos falando aqui de direita ou esquerda. Desse modelo dual. Queremos um modelo novo, lutamos por um desenvolvimento real, que não leve o planeta ao caos.”

Ele lembra que há jovens estudando a relação entre clima e a saúde mental das pessoas.

“A própria Greta conta que estava em estado deprimido e o ativismo foi a saída que ela encontrou. E algo parecido ocorre com muitos de nós. A ausência de futuro traz uma estado de ansiedade. Não é mais uma questão de opção. Ou fazemos algo ou só nos resta esperar o mundo acabar”, afirma Thiago.

Giovanna Kuele, de 26 anos, veio à COP já como profissional do Instituto Igarapé - uma organização da sociedade civil que trabalha com a questão de clima e segurança -, mas ecoa o sentimento dos mais jovens.

“Atuo em Nova York e lá sempre nos chamam, os jovens, como elemento decorativo, mas o que a gente fala eles não estão ouvindo. O que estamos mostrando é que a mudança do clima, indiretamente, é um multiplicador da insegurança em suas várias formas: alimentar, de recursos naturais. Pesquisando segurança, cheguei ao clima”, conta.

Nesta segunda, 9, outra representante jovem tentou transmitir essas mensagens ao ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, e a parlamentares que participaram de um encontro com a sociedade civil.

Karina Penha, de 23 anos, da ONG Engajamundo, defendeu, de modo concreto, que uma disciplina de “educação climática” passe a fazer parte do currículo básico escolar.

“O tempo todo temos que escutar que esse sentimento de emergência vai passar. Nós, enquanto juventude, acreditamos em diálogo, temos esperança, mas o que nos preocupa e assusta é que o poder não está nas nossas mãos. As decisões sobre o nosso presente e futuro continuam sendo tomadas a portas fechadas. E esses processos precisam ser mais participativos. Queremos ser parte da solução”, pediu Karina.  

*A REPÓRTER VIAJOU A CONVITE DO INSTITUTO CLIMA E SOCIEDADE (ICS)

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