NICOLAS TUCAT/AFP - 17/08/21
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Dez previsões sobre as mudanças climáticas mostram que prazo para agir está se esgotando

Seja qual for o recorte de tempo e espaço, não há como fugir da dura realidade que o homem impôs a si mesmo. Novo relatório do Painel Intergovernamental sobre o Clima (IPCC), da ONU, descreve esse cenário

Emilio Sant’Anna, O Estado de S.Paulo

02 de março de 2022 | 10h00

Que os efeitos das mudanças climáticas causadas já estão em curso e são sentidos não se discute. Ondas de frio e de calor recorde na Europa e América do Sul, tempestades mais fortes, mais concentradas e mais frequentes, assim como furacões e secas prolongadas. Seja qual for o recorte de tempo e espaço, não há como fugir da dura realidade que o homem impôs a si mesmo. O relatório do Painel Intergovernamental sobre o Clima (IPCC), da ONU, divulgado nesta semana é mais uma comprovação.

Para além dos efeitos que já se sentem hoje, no entanto, o relatório aponta para o que nos espera caso o caminho das altas emissões de gases do efeito estufa, desmatamento e mudanças no uso da terra não seja abandonado. A publicação do grupo de trabalho 2 do IPCC é resultado da avaliação científica feita por 270 especialistas e coloca seu foco nos impactos, vulnerabilidades e adaptação às mudanças climáticas.

Confira alguns pontos do relatório e suas previsões, muitas delas já não mais evitáveis:

Populações mais vulneráveis serão as mais atingidas

Segundo relatório do Painel Intergovernamental sobre o Clima (IPCC), da ONU, divulgado na segunda-feira, 28, entre 3,3 bilhões e 3,6 bilhões de pessoas estão vulneráveis hoje aos efeitos das mudanças climáticas, até mais de 50% de toda a população mundial – com consequências diferentes entre países e regiões, mas marcadamente piores de acordo com a fragilidade socioambiental.

A mortalidade média observada por inundações, secas e tempestades é 15 vezes maior para países classificados como muito vulneráveis, como Moçambique, Somália, Nigéria, Afeganistão e Haiti em comparação com países de vulnerabilidade muito baixa, como Reino Unido, Austrália, Canadá e Suécia.

A extensão e a magnitude dos impactos são maiores do que os estimados em avaliações anteriores. Alguns deles estão se aproximando da irreversibilidade, como as mudanças hidrológicas resultantes do recuo de geleiras e o aumento do nível do mar e a acidificação dos oceanos.

Mundo terá 250 mil mortes a mais por ano até 2030; África terá mais de 50% delas

As mudanças climáticas aumentarão significativamente os riscos à saúde resultantes de uma série de doenças, com a escala dos impactos dependendo das emissões e dos caminhos de adaptação adotados. Estudos relacionados pelo IPCC projetam, além de impactos na saúde mental, mais 250 mil mortes por ano (em comparação ao período de 1961 a 1990) até meados do século. As principais causas devem ser o calor, a desnutrição infantil, a malária e doenças diarréicas.

No geral, mais da metade desse excesso de mortalidade deve ocorrer na África. Em cenários de altas emissões, mais de 9 milhões de mortes adicionais por ano devem ocorrer até 2100. O relatório revela que o chamado bulbo úmido, a combinação entre calor e umidade, deve subir. A temperatura do bulbo úmido de 31°C é  perigosa para o homem e acima de 35°C por mais de seis horas torna-se insuportável. Caso as emissões sejam cortadas aos níveis atualmente previstos, parte da região amazônica terá temperaturas de 32°C de 1 a 12 dias por ano, segundo estudo citado pelo IPCC. 

A pesquisa afirma que se as emissões forem ainda mais altas, a maior parte do território nacional terá temperaturas de 32°C por pelo menos um dia por ano. Já em partes do Norte e do Centro-Oeste, essa condição deve chegar a até 30 dias por ano. Em algumas regiões do Nordeste, no entanto, a valores podem chegar aos 35°C.

PIB global vai cair até 23% neste século; no Brasil queda pode chegar a 83%

As consequências econômicas causadas pelas mudanças climáticas serão devastadoras até o final deste século se as emissões de gases causadores do aquecimento global não forem drasticamente reduzidas. De acordo com o relatório do IPCC, os danos de se ultrapassar o limite de 1,5º acima do nível anterior à Revolução Industrial serão sentidos na redução da produção agrícola, disparada de preços das commodities e danos à infraestrutura das cidades. A consequência será a queda do PIB global de 10% a 23% até o final deste século, comparado a um mundo sem aquecimento.

Grandes economias sofrerão ainda mais, de acordo com um estudo citado no relatório. Na China, esse declínio do PIB até o final do século deve ser de até 42%, e de até 92% na Índia, se as emissões forem mantidas altas. No Brasil, onde o PIB já é cerca de 13,5% menor do que seria sem o aquecimento causado pelo homem desde 1991, a queda pode chegar a 83%.

Nos próximos 8 anos, 132 milhões de pessoas podem cair na extrema pobreza

O relatório do IPCC traz evidências científicas de que os perigos causados por um clima com eventos mais extremos e frequentes (por exemplo, tempestades, inundações, secas, estresse térmico) podem minar os esforços de redução da pobreza ao longo de uma década, particularmente em regiões mais vulneráveis. De acordo com um relatório do Banco Mundial listado entre as fontes do IPCC, entre 32 e 132 milhões de pessoas podem cair em situação de extrema pobreza até 2030 devido aos impactos das mudanças climáticas.

Seca será ainda maior no Nordeste brasileiro

Grandes períodos de estiagem são cada vez mais frequentes em algumas regiões do mundo e do Brasil, como o Nordeste do País, que já sofreu ao menos um mês de estiagem 65% a mais entre 2010 a 2019 em comparação com 1950-1959. A previsão do IPCC é que a mudança climática impulsione ainda mais esse fenômeno. As chuvas devem diminuir mais 22% no Nordeste neste século se as emissões de gases causadores do aquecimento forem elevadas. Também sofrerá a região amazônica nesse cenário. Até 2100, o aquecimento  reduzirá em 27% o fluxo para a bacia do Tapajós e 53% para a bacia do Araguaia-Tocantins. A derrubada da floresta para a criação de pastagens secas pode causar reduções de chuvas de 40% na região e alterar a circulação de monção sul-americana.

População afetada por inundações deve dobrar no Brasil e países vizinhos

Se a seca será cada vez mais um problema no Brasil, as chuvas fortes e concentradas também deverão aumentar, o que significa um aumento nas enchentes e deslizamentos de terra é altamente provável, de acordo com o IPCC. Os maiores riscos de inundações mais frequentes e extremas estão nos estados do Acre, Rondônia, sul do Amazonas e Pará. Um aumento de 1,5ºC resultaria em um aumento de 100% a 200% na população afetada por inundações na Colômbia, Brasil e Argentina, 300% no Equador e 400% no Peru.

Brasil terá quase um milhão de migrantes do clima até 2050

O relatório do IPCC aponta para o perigo de no futuro grandes massas migratórias se formarem no Nordeste, causadas por eventos extremos como secas e inundações mais frequentes. A magnitude e a frequência de secas e furacões devem continuar aumentando até 2050 nas Américas Central e do Sul, o que pode forçar milhões de pessoas a deixar suas casas. No Nordeste brasileiro, o relatório prevê que ao menos 0,9 milhão de pessoas migrarão inter regionalmente sob as condições climáticas futuras. De acordo com especialistas, os efeitos desse processo serão duplamente negativos. Além de forçar o deslocamento de grandes massas de população, esse fluxo deve ir parar em cidades já inchadas e com serviços e planejamento públicos precários.

Agricultura em queda, aumento da fome e menor acesso a água levará a conflitos

Com a queda da produção agrícola, o fornecimento de alimentos ficará imediatamente ameaçado. Os riscos de perdas das colheitas causadas por eventos extremos aumentarão exponencialmente se as emissões não forem reduzidas rapidamente, de acordo com o relatório. Isso associado à escassez de água deve levar ao aumento do risco de agitações sociais e guerras. Para culturas como a do milho, a probabilidade de perder 10% ou mais da safra em vários lugares do mundo em um mesmo ano chega a 86%. No Brasil, a produção agrícola, principal impulsionadora do PIB em anos de crise econômica, deve ser duramente atingida. A produção de trigo no País pode cair 21% e a de milho em 10% com a manutenção de altas emissões. No entanto, esses índices também podem ser piores, com queda de até 71% para o milho produzido no Cerrado, por exemplo, e menor produtividade na pecuária e na pesca.

880 milhões de pessoas ficarão expostas nas cidades costeiras

Grande parte da população mundial, atividades econômicas e infraestrutura crítica estão concentradas perto do mar, com quase 11% da população global, ou 896 milhões de pessoas vivendo em costas baixas diretamente expostas a riscos costeiros climáticos e não climáticos interativos. Os cientistas reunidos pelo IPCC veem grande probabilidade de que as cidades e as planícies costeiras estejam expostas ao aumento do nível do mar na forma de inundações costeiras e erosões. Esses perigos podem afetar assentamentos humanos, portos, indústrias e outras infraestruturas. Se processos de adaptação e mitigação de riscos não forem adotados, os riscos para essas áreas e as pessoas aumentarão substancialmente até 2100. De acordo com estudos listados pelo relatório, até 880 milhões de pessoas terão maiores riscos até o final do século. Resultado desse processo, inundações com maior frequência e tempestades mais fortes também afetarão o estuário do Rio da Prata e delta inferior do Rio Paraná, onde está localizada a região metropolitana de Buenos Aires.

44% das espécies nativas entrarão em risco se temperatura não parar de subir

O risco de extinção de espécies aumenta com o aquecimento em todas as projeções de mudanças climáticas feitas pelo IPCC, sendo cerca de dez vezes maior para espécies endêmicas com a elevação de 1,5°C a 3°C acima dos níveis pré-industriais. Das 6.116 projeções analisadas pelo IPCC para mais de 2.700 espécies avaliadas nos chamados hotspots de biodiversidade cerca de 44% foram encontrados em alto risco de extinção e cerca de 24% em risco de extinção muito alto devido às mudanças climáticas. O Brasil está no centro desse cenário. Na Amazônia brasileira, por exemplo, metade das espécies de peixes avaliadas foram considerados sensíveis ao aumento da temperatura e redução do oxigênio devido às mudanças climáticas.

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