Mason Trinca/The New York Times - 21/01/2022
Mason Trinca/The New York Times - 21/01/2022

'Ansiedade climática' relacionada a hábitos de consumo não sustentáveis vai parar na sala de terapia

Professores argumentaram há uma década que as mudanças climáticas teriam um poderoso efeito psicológico não apenas nas pessoas que sofrem seus impactos diretamente. Agora, a eco-ansiedade entra no vocabulário dominante

Ellen Barry, The New York Times

09 de fevereiro de 2022 | 10h00

PORTLAND - Na prateleira de lanchinhos do Trader Joe’s, Alina Black sentiu uma onda de culpa e vergonha que fez sua pele arrepiar. Algo tão simples quanto as castanhas. Elas vinham embrulhadas em plástico, muitas camadas de plástico, que ela logo imaginou saindo de sua casa e viajando até um aterro sanitário, onde permaneceriam por toda a sua vida e pela vida de seus filhos.

Ela queria – queria de verdade – deixar uma pegada menor na Terra. Mas também tinha um bebê ainda de fraldas e um emprego em tempo integral e uma criança de 5 anos que queria lanchinhos o tempo todo. Aos 37 anos, essas forças conflitantes estavam fechando o cerco em torno dela, como um cardume de tubarões.

Nas primeiras horas da manhã, depois de amamentar o bebê, ela entrava na toca do coelho e ficava rolando a tela com notícias de secas, incêndios, extinção em massa. Então ela encarava um futuro sombrio. Foi por isso que, há cerca de seis meses, ela pesquisou “ansiedade climática” e encontrou o nome de Thomas J. Doherty, psicólogo de Portland especializado em clima.

Uma década atrás, Doherty e uma colega, Susan Clayton, professora de psicologia no College of Wooster, em Ohio, publicaram um artigo propondo uma nova ideia. Eles argumentaram que as mudanças climáticas teriam um poderoso efeito psicológico – não apenas nas pessoas que sofrem seus impactos, mas também nas pessoas que as acompanham por meio de notícias e pesquisas. Na época, a noção foi recebida como algo questionável.

Agora esse ceticismo está desaparecendo. A eco-ansiedade, um conceito introduzido por jovens ativistas, entrou no vocabulário dominante. E as organizações profissionais estão correndo para se atualizar, explorando abordagens para tratar uma ansiedade que é tanto existencial quanto, muitos argumentariam, racional.

Embora haja poucos dados empíricos sobre tratamentos eficazes, o campo está se expandindo rapidamente. A Climate Psychology Alliance fornece um diretório online de terapeutas conscientes do clima; a Good Grief Network, uma rede de apoio de pares baseada em programas de dependência em 12 etapas, gerou mais de 50 grupos; e começaram a aparecer programas de certificação profissional em psicologia climática.

Quanto a Doherty, tantas pessoas agora o procuram por causa desse problema que ele construiu toda uma prática clínica em torno delas: uma estudante de 18 anos que às vezes sofre ataques de pânico tão graves que não consegue sair da cama; um geólogo glacial de 69 anos que às vezes afunda em tristeza quando olha para seus netos; um homem de 50 anos que explode de incompreensão com as escolhas de consumo de seus amigos, incapaz de tolerar sua conversa sobre férias na Toscana, Itália.

O surgimento do campo encontrou resistência, por vários motivos. Há muito tempo os terapeutas têm sido formados para manter seus próprios pontos de vista fora de suas práticas clínicas. E muitos líderes em saúde mental sustentam que, em termos clínicos, a ansiedade em relação às mudanças climáticas não é diferente da ansiedade causada por outras ameaças sociais, como terrorismo ou tiroteios em escolas. Por outro lado, alguns ativistas climáticos questionam a ideia de ver a ansiedade climática como um pensamento disfuncional – algo para ser aplacado ou, pior, curado.

Mas Black não estava interessada em argumentos teóricos; ela precisava de ajuda imediata. Ela não era do tipo Greta Thunberg, mas sim uma mãe trabalhadora ocupada e devendo horas de sono. Dois anos de incêndios florestais e ondas de calor em Portland despertaram algo adormecido dentro dela, uma compulsão para se preparar para o desastre. Ela começou a se pegar acordada até tarde da noite, procurando preços de sistemas de purificação de água. Para seu aniversário, ela pediu de presente um gerador de energia.

Ela entende que é privilegiada e descreve sua ansiedade como um “problema de luxo”. Mas, ainda assim, os brinquedos de plástico na banheira a deixavam ansiosa. As fraldas descartáveis a deixavam ansiosa. Ela começou a se perguntar, qual é a relação entre as fraldas e os incêndios florestais? “Sinto que desenvolvi uma fobia ao meu modo de vida”, disse ela.

Uma ideia que se espalha

No outono passado, Black se conectou para seu primeiro encontro com Doherty, que apareceu na tela com uma imensa e brilhante fotografia de sempre-vivas ao fundo. Aos 56 anos, ele é uma das maiores autoridades sobre o clima na psicoterapia e apresenta um podcast, “Climate Change and Happiness”. Em sua prática clínica, ele vai além dos tratamentos padrão para a ansiedade, como a terapia cognitivo-comportamental, e avança para outros mais obscuros, como a terapia existencial, concebida para ajudar as pessoas a combater o desespero, e a ecoterapia, que explora a relação do paciente com o mundo natural.

Ele não seguiu o caminho usual da psicologia: depois de se formar na Universidade de Columbia, em Nova York, ele viajou de carona pelo país, trabalhou em barcos de pesca no Alasca, depois como guia de rafting – “aquela coisa toda de Jack London” – e como angariador de fundos do Greenpeace. Entrando na pós-graduação aos 30 anos, ele caiu naturalmente na disciplina de “ecopsicologia”.

Na época, a ecopsicologia era, nas suas palavras, uma “área meio esotérica”, com colegas mergulhando em rituais xamânicos e ecologia profunda junguiana. Doherty tinha um foco mais convencional, nos efeitos fisiológicos da ansiedade. Mas ele partiu de uma ideia que, na época, era nova: que as pessoas poderiam ser afetadas pela degradação ambiental mesmo que não fossem fisicamente atingidas por um desastre.

Pesquisas recentes deixaram poucas dúvidas de que isso está acontecendo. Uma pesquisa em dez países com 10 mil pessoas com idades entre 16 e 25 anos publicada no mês passado no periódico The Lancet encontrou taxas surpreendentes de pessimismo. Quarenta e cinco por cento dos entrevistados disseram que a preocupação com o clima afeta negativamente sua vida diária. Três quartos disseram acreditar que “o futuro é assustador” e 56% disseram que “a humanidade está condenada”.

O golpe na confiança dos jovens parece ser mais profundo do que no caso de ameaças anteriores, como a guerra nuclear, disse Clayton. “Definitivamente, já enfrentamos grandes problemas antes, mas as mudanças climáticas são descritas como uma ameaça existencial”, disse ela. “Isso mina fundamentalmente a sensação de segurança das pessoas”.

Caitlin Ecklund, 37 anos, terapeuta de Portland que terminou a pós-graduação em 2016, disse que nada em sua formação profissional – em assuntos como trauma, sistemas familiares, competência cultural e teoria do apego – a preparara para ajudar os jovens que começaram a procurá-la mencionando desesperança e tristeza sobre o clima.

“As coisas do clima são realmente assustadoras, então tentava mais acalmar e normalizar”, disse Ecklund, que faz parte de um grupo de terapeutas convocado por Doherty para discutir abordagens ao clima. Isso significava, disse ela, “desconstruir parte daquele aconselhamento formal que implicitamente transformava as coisas em problemas individuais das pessoas”.

“Obviamente, seria muito bom ser feliz”

Muitos dos pacientes de Doherty o procuraram depois de achar difícil discutir o clima com algum terapeuta anterior. Caroline Wiese, 18 anos, descreveu seu terapeuta anterior como “um típico nova-iorquino que gosta de acompanhar política e ler o New York Times, mas também não sabia o que era uma curva de Keeling”, referindo-se ao registro diário da concentração de dióxido de carbono.

Wiese tinha pouco interesse nos “papos freudianos”. Ela procurou Doherty para ajudá-la com um problema concreto: os dados que ela vinha lendo estavam provocando “episódios de pânico de vários dias” que interferiam em seu rendimento acadêmico.

Em suas sessões, ela trabalha para gerenciar cuidadosamente o que lê, algo de que ela precisa para encarar uma vida inteira de trabalho sobre o clima. “Obviamente, seria muito bom ser feliz”, disse ela, “mas meu objetivo é só ser funcional”.

Frank Granshaw, 69 anos, professor aposentado de geologia, queria ajuda para manter o que chama de “esperança realista”. Ele se lembra de uma manhã, anos atrás, quando sua neta engatinhou até seu colo e adormeceu, e ele se viu dominado pela emoção, considerando as mudanças que ainda ocorreriam na vida dela. É mais fácil falar desses sentimentos com um psicólogo que conhece bem as questões do clima, disse ele. “Gosto do fato de que ele está lidando com emoções que estão ligadas a eventos físicos”, disse ele.

Quanto a Black, ela não aceitava as tentativas vagas de seu terapeuta anterior. E ficou contando os dias para a consulta com Doherty. Ela tinha esperança de que ele dissesse algo que simplesmente fizesse aquele peso todo diminuir.

Mas não foi o que aconteceu. Boa parte da primeira sessão foi dedicada ao seu hábito de ficar rolando a tela do celular atrás de notícias catastróficas, especialmente durante a noite.

“Será que preciso mesmo ler este décimo artigo sobre a cúpula do clima?”, ela ficou perguntando a si mesma. “Provavelmente não”.

“Também teremos dias bons”

Várias sessões se passaram antes que algo acontecesse de verdade. Black se lembra de chegar a uma sessão se sentindo particularmente perturbada. Ela estava ouvindo na rádio a cobertura da reunião do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas em Glasgow, Escócia, e ouviu a entrevista de um cientista. O que ela percebeu em sua voz foi uma espécie de resignação.

Naquele verão, Portland ficou presa sob um sistema de alta pressão conhecido como “domo de calor”, o que elevou as temperaturas até 46 graus. Olhando para os filhos, imagens terríveis passaram por sua cabeça, como um campo de fogo. Ela se perguntou em voz alta: será que eles estão condenados?

Doherty ouviu em silêncio. Então ele disse, escolhendo as palavras com cuidado, que a velocidade das mudanças climáticas sugerida pelos dados não era tão rápida quanto ela estava imaginando.

“No futuro, mesmo nos piores cenários, também teremos dias bons”, ele disse a ela, segundo suas anotações. “Alguns desastres vão acontecer em alguns lugares. Mas, em todo o mundo, haverá dias bons. Seus filhos também terão dias bons”.

Black começou a chorar. Ela é uma pessoa contida – e tende a desviar pensamentos assustadores com humor sarcástico – então isso era incomum. Depois ela relembrou a conversa como um momento de transformação, o ponto em que o nó de seu peito começou a afrouxar.

“Eu realmente confio quando ouço informações dele, porque essas informações estão vindo de um poço profundo de conhecimento”, disse ela. “E isso me dá muita paz”.

Doherty caracterizou a conversa como “fundamentalmente catártica”. Não era incomum na prática clínica dele. Muitos clientes nutrem medos sombrios sobre o futuro e não têm como expressá-los. “É um lugar terrível para se estar”, disse ele.

Grande parte de sua prática é ajudar as pessoas a gerenciar a culpa pelo consumo: ele tem uma visão crítica da noção de pegada climática, uma construção que ele diz ter sido criada pelas corporações para transferir o fardo para os indivíduos.

Ele usa elementos da terapia cognitivo-comportamental, como treinar os pacientes para gerenciar seu consumo de notícias e analisar criticamente suas ideias.

Ele também se baseia na logoterapia, ou terapia existencial, um campo fundado por Viktor E. Frankl, que sobreviveu aos campos de concentração alemães e depois escreveu Man’s Search for Meaning, livro no qual descreveu como os prisioneiros em Auschwitz eram capazes de viver vidas plenas.

“Você sabe que a coisa está feia quando você tem que trazer o Viktor Frankl”, disse ele. “Mas é verdade. É exatamente isso. A escala é esta mesmo. E o consolo também é este: em última análise, temos que construir o sentido, mesmo em um mundo sem sentido”.

Nos últimos meses, Black sentiu o estresse diminuir um pouco, às vezes. Nos fins de semana, ela faz caminhadas na floresta com a família sem permitir que sua mente vagueie para o futuro. Suas conversas com Doherty, disse ela, “abriram minha cabeça para a ideia de que não cabe a nós, como indivíduos, resolver o problema”.

Às vezes, porém, ela não sabe ao certo se o que quer é mesmo alívio. Acompanhar as notícias sobre o clima parece uma obrigação, um fardo que ela precisa carregar, pelo menos até que esteja confiante de que as autoridades eleitas estão fazendo o necessário.

Seu objetivo não é se livrar de seus medos sobre o aquecimento do planeta, nem ficar paralisada por eles, mas algo no meio do caminho: ela se compara a alguém com medo de viajar de avião que aprende a administrar seu pavor o suficiente para voar.

“No nível muito pessoal”, disse ela, “a pequena vitória é não pensar nisso o tempo todo”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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