CLAYTON DE SOUZA/ESTADÃO - 20/02/2019
CLAYTON DE SOUZA/ESTADÃO - 20/02/2019

Mudanças climáticas desestabilizaram os polos da Terra, colocando o resto do planeta em perigo

Com a rápida transformação do Ártico e da Antártida, os níveis dos mares irão subir, os padrões climáticos irão mudar e os ecossistemas serão alterados, estimam cientistas

Sarah Kaplan, Washington Post

21 de dezembro de 2021 | 10h00

A plataforma de gelo estava se rompendo. Pesquisas mostraram que a água quente do oceano a vem erodindo por baixo. Imagens de satélite revelaram fissuras longas e paralelas na extensão congelada, como arranhões das garras de algum monstro. Uma fratura cresceu tanto e tão rápido que os cientistas começaram a chamá-la de “a adaga”.

“Foi extremamente surpreendente ver as coisas mudando tão rápido”, disse Erin Pettit. O glaciologista do estado de Oregon escolhera este local para sua pesquisa de campo na Antártida precisamente por causa de sua estabilidade. Enquanto outras partes da geleira Thwaites desmoronavam, esta cunha de gelo flutuante agia como uma barreira, retardando o derretimento. Era para ser estável, durável e segura.

Mas agora as mudanças climáticas transformaram a plataforma de gelo numa ameaça – para o trabalho de campo de Pettit e para o mundo.

A poluição que aquece o planeta por causa da queima de combustíveis fósseis e outras atividades humanas já elevou as temperaturas globais em mais de 1,1 grau Celsius. Mas os efeitos são particularmente profundos nos polos, onde o aumento das temperaturas vem minando seriamente regiões até então cobertas de gelo.

Numa pesquisa apresentada esta semana na maior conferência de ciências da terra do mundo, Pettit mostrou que a plataforma de gelo Thwaites pode entrar em colapso nos próximos três a cinco anos, liberando um rio de gelo que pode elevar dramaticamente o nível do mar. Levantamentos aéreos documentam como as condições mais quentes permitiram que os castores invadissem a tundra ártica, inundando a paisagem com suas lagoas. Os grandes navios comerciais estão se infiltrando cada vez mais em áreas antes congeladas, perturbando a vida selvagem e gerando quantidades desastrosas de lixo. Em muitas comunidades nativas do Alasca, os impactos climáticos agravaram as dificuldades da pandemia de covid-19, levando à escassez de alimentos entre as pessoas que viveram nesta terra por milhares de anos.

“O próprio aspecto desses lugares está mudando”, disse Twila Moon, glaciologista do National Snow and Ice Data Center e coeditora do Arctic Report Card, um relatório anual do estado do topo do mundo. “Estamos vendo condições diferentes das que víamos antes”.

A rápida transformação do Ártico e da Antártida cria efeitos em cascata em todo o planeta. Os níveis dos mares irão subir, os padrões climáticos irão mudar e os ecossistemas serão alterados. A menos que a humanidade aja rapidamente para conter as emissões, dizem os cientistas, as mesmas forças que desestabilizaram os polos causarão estragos no resto do globo.

“O Ártico é uma forma de olhar para o futuro”, disse Matthew Druckenmiller, cientista do National Snow and Ice Data Center e outro coeditor do Arctic Report Card. “Pequenas mudanças na temperatura podem ter efeitos enormes numa região dominada pelo gelo”.

A edição deste ano do relatório, que foi apresentada na reunião anual da American Geophysical Union na terça-feira, descreve uma paisagem que está se transformando tão rápido que os cientistas mal conseguem acompanhar. O período entre outubro e dezembro de 2020 foi o mais quente já registrado. Este verão viu a segunda menor extensão de gelo marinho espesso e antigo desde o início do rastreamento, em 1985.

Numa outra pesquisa, a Organização Meteorológica Mundial confirmou um novo recorde de temperatura para o Ártico: 37,7 graus Celsius na cidade siberiana de Verkhoyansk, no dia 20 de junho de 2020.

Este ano, três episódios históricos de derretimento atingiram a Groenlândia, fazendo com que o enorme manto de gelo da ilha perdesse cerca de 35 trilhões de quilos. Em 14 de agosto, pela primeira vez na história, choveu no cume do manto de gelo.

“Acho que meu queixo teria caído no chão”, disse Moon, imaginando o que teria sentido se houvesse testemunhado o evento inédito. “Isso muda fundamentalmente o caráter da superfície do manto de gelo”.

Embora a camada de gelo da Groenlândia tenha mais de um quilômetro de espessura em seu centro, a chuva pode escurecer a superfície, fazendo com que o gelo absorva mais calor do sol, disse Moon. Isso muda a forma como a neve se comporta e alisa o topo do gelo.

As consequências para as pessoas que vivem no Ártico podem ser terríveis. Na Groenlândia e em outros lugares, o derretimento de geleiras encheu os rios e contribuiu para inundações. O gelo em recuo expõe penhascos instáveis que podem facilmente desabar no oceano, provocando tsunamis mortais. Estradas se interrompem, sistemas de abastecimento de água se quebram e construções desmoronam à medida que o gelo permanente abaixo delas derrete.

A perda global de gelo contribui para o perigoso aumento do nível dos oceanos. A Groenlândia possui água congelada suficiente para aumentar o nível do mar em 7 metros (embora deva levar milhares de anos para derreter completamente).

A desintegração da plataforma de gelo Thwaites não aumentará imediatamente o nível do mar – esse gelo já flutua sobre a água, ocupando a mesma quantidade de espaço, esteja sólido ou líquido. Mas, sem a plataforma de gelo atuando como suporte, as partes terrestres da geleira começarão a fluir mais rapidamente. Thwaites pode ficar vulnerável ao colapso de penhascos de gelo, um processo no qual paredes de gelo em contato direto com o oceano começam a desmoronar.

Se toda a geleira Thwaites derretesse, o nível do mar aumentaria vários metros. As nações insulares e as comunidades costeiras seriam inundadas.

“Não sabemos exatamente se ou quando terá início o desmoronamento do penhasco de gelo”, disse Anna Crawford, glaciologista da Universidade de St. Andrews que trabalha com modelos do processo. “Mas temos certeza de que a Antártica vai mudar”.

“Existem amplas evidências para promover a redução das emissões”, acrescentou ela, “porque o que vemos aqui já é o suficiente para nos preocuparmos”.

Para alguns no Ártico, esse degelo rápido representa uma oportunidade. A vegetação de tundra floresce no clima mais quente. Os castores migraram para o norte, cavando lagoas no permafrost.

Imagens de satélite mostram que o número de lagoas de castores no oeste do Alasca – formadas quando os roedores constroem represas ao longo dos cursos d’água – pelo menos dobrou desde 2000. Mas não está claro como a engenharia dos castores pode afetar o carbono armazenado no permafrost ou nos ecossistemas a jusante.

As condições mais quentes também permitiram que pessoas se infiltrassem em novos ambientes, e aqui os impactos prejudiciais são mais visíveis. Novas rotas de navegação foram estabelecidas através de áreas antes bloqueadas pelo gelo marinho, prejudicando a vida selvagem e poluindo o oceano com ruídos não naturais.

Os navios que passam também deixam para trás grandes quantidades de lixo; no verão de 2020, centenas de itens foram empurrados para a costa de comunidades do Alasca ao longo do Estreito de Bering. Os moradores – a maioria deles nativos do Alasca – encontraram roupas, equipamentos, embalagens plásticas de alimentos e latas de óleos e inseticidas perigosos nas águas onde pescam regularmente. Etiquetas em inglês, russo, coreano e em vários outros idiomas ilustravam o caráter internacional da ameaça.

Para muitos moradores do Ártico, as mudanças climáticas são um multiplicador de ameaças – agravando os perigos de quaisquer outras crises que venham a surgir. Outro artigo no Arctic Report Card documenta as ameaças à segurança alimentar dos nativos do Alasca causadas pela pandemia de covid. As restrições de quarentena impediram as pessoas de viajar para seus locais de colheita tradicionais. A turbulência econômica e os problemas da cadeia de abastecimento deixaram muitos supermercados com prateleiras vazias.

Mas o artigo, que foi coescrito por pesquisadores dos povos nativos Inupiaq, Hadia, Ahtna e Supiaq, juntamente com especialistas de outras comunidades indígenas, também destaca como as práticas culturais indígenas ajudaram as comunidades a combater a fome. As redes de compartilhamento de alimentos existentes redobraram seus esforços. As práticas de colheita foram adaptadas tendo em mente a saúde pública.

“O fato de essas redes e programas funcionarem bem sob o estresse adicional criado pela covid ressalta sua importância e a importância de continuar a apoiá-los”, escrevem os autores.

Para Moon, este estudo sobre a resiliência traz lições para o resto do mundo.

“Construímos uma sociedade que encara muitos limites rígidos, sejam limites políticos, expectativas de que certos alimentos cresçam em determinado lugar ou que construções possam existir no mesmo local por centenas de anos”, disse ela. “Agora a mudança global está desafiando esses pressupostos”.

Moon continuou: “Devemos olhar para essas comunidades que vêm resistindo com sucesso por muitos milênios (...) e com elas aprender a nos comunicar e cooperar melhor para nos adaptarmos rapidamente num ambiente em rápida mudança”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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