FABIO MOTTA/ESTADÃO
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Mudança do clima pode pôr em risco área que vale R$ 109 bi no Rio

'Brasil 2040' analisou vulnerabilidade da capital fluminense e de Santos; cidade paulista tem mais de 60% de sua área em alto risco

Giovana Girardi, O Estado de S. Paulo

03 Novembro 2015 | 07h00

Atualizada às 11h21

Uma área avaliada em pelo menos R$ 109 bilhões no Rio de Janeiro pode ser afetada até 2040 por conta da elevação do nível do mar causada pelo aquecimento global. Em Santos, toda a infraestrutura necessária para lidar com eventos climáticos extremos, como hospitais e corpos de bombeiros, está ameaçada por estar localizada nas áreas de maior vulnerabilidade a alagamentos.

Essas são as principais conclusões do capítulo de infraestrutura costeira do estudo “Brasil 2040”, divulgado na última quinta-feira (29) pela Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência. O trabalho é considerado o mais importante já feito no Brasil para avaliar os impactos, pelos próximos 25 anos, que os mais diversos setores da economia vão sofrer diante das mudanças climáticas.

(Ele mostra, por exemplo, que a geração de energia em hidrelétricas pode sofrer uma redução de 20%; Produção agrícola também poderá ser afetada.)

A avaliação costeira foi conduzida no Instituto de Tecnologia Aeronáutica (ITA) pelo oceanógrafo Wilson Cabral e seu aluno de doutorado Vitor Zanetti. Eles mapearam a vulnerabilidade das duas cidades ao aumento do nível do mar em relação ao risco de ressaca, deslizamentos de terra e inundações. 

Foram considerados dois cenários do IPCC (o painel da ONU de cientistas do clima): um mais pessimista, que o mundo não age para combater as mudanças climáticas; e um intermediário, em que ações são tomadas, mas ainda não o suficiente para evitar um aquecimento de cerca de 3°C até o final do século. Nesses dois cenários, as cidades foram, então, divididas em áreas de muito baixa a muito alta vulnerabilidade.

No caso do Rio, os pesquisadores cruzaram o mapa de vulnerabilidade com o de valores imobiliários (veja abaixo). “É ainda uma análise preliminar, qualitativa, mas que aponta que no cenário mais brando, uma área de R$ 109 bilhões pode estar ameaçada nos próximos 25 anos. No pior cenário, o valor sobe para R$ 124 bilhões”, afirma Cabral.

Ele se refere à orla na zona Sul, que inclui bairros como Barra da Tijuca, Ipanema e Copacabana. “Em termos de vulnerabilidade, o risco nessas regiões é médio – há áreas no Rio muito mais vulneráveis, como a Ilha do Fundão e o aeroporto de Santos Dumont – mas como elas concentram os imóveis mais caros, o valor em risco passa a ser mais proeminente”, explica o pesquisador.

A Linha Vermelha, apesar de longe da costa, também pode sofrer com alagamentos mais frequentes, uma vez que os canais sob a via terão mais dificuldade em desaguar num mar com nível mais alto.

Hospitais alagados. Em Santos a maior ameaça é justamente aos setores que precisam agir no caso de um evento extremo. “Mais de 60% do município está em área de alta vulnerabilidade, incluindo a chamada infraestrutura crítica”, diz Cabral. “Com a elevação do nível do mar, se ocorrer um alagamento, observamos que todos os hospitais de Santos podem ficar alagados. E isso nos dois cenários. Unidades do Corpo de Bombeiros também estão em área de risco no pior cenário.”

Uma equipe da USP também avaliou os riscos dos portos do Brasil. Segundo os pesquisadores, a maioria dos portos já sofre com o aumento do nível do mar e passa por uma redução da borda livre – espaço seco entre o cais e a água – e redução do calado (profundidade) por causa de assoreamento. O de Santos, que foi projetado para ter uma borda livre de apenas 1,18 m (quando o recomendável é de 1,58 m), já fica hoje com apenas 0,95 m de borda em momentos de maré baixa. Isso pode cair para 0,72 m até 2040 no pior cenário.

Cabral defende que os governos nacionais e locais precisam começar a inserir a variável das mudanças climáticas no planejamento das cidades e de infraestruturas estratégicas para o País, como os portos. 

“Em Santos, por exemplo, o código de habitações ainda permite construções insulares que são muito vulneráveis, como os estacionamentos em subsolo. Eles já sofrem com inundações e isso tende a ser exacerbado com a mudança climática. O zoneamento urbano e o plano de mobilidade têm de levar isso em conta”, afirma.

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