Mudança a passos lentos

O desenvolvimento sustentável está no discurso de empresas, mas, no dia-a-dia, agir desse modo ainda é desafio

Giovana Girardi,

03 Setembro 2008 | 23h59

A palavra está na boca do empresário, do banqueiro, do distribuidor de combustível. Está registrada em alimentos, cosméticos, propaganda dos mais diversos produtos e em mais de 4 milhões de páginas na internet. Sustentabilidade. O consumidor tem ficado atento e quer produtos que tenham essa "marca", enquanto as empresas já notaram que podem aumentar seu valor de mercado com isso. Mas será que a palavra, e o conceito que ela carrega, são bem compreendidos? E, mais do que isso, o que de fato é atitude concreta e o que é apenas marketing para ficar bem diante do mercado consumidor?   Produtos verdes conquistam o interesse de brasileiros Atual matriz de produção pode levar a colapso  Por um modelo que estenda benefícios  ‘Estava pilhando o planeta e não queria deixar esse legado’  Bônus para carro menos poluidor  Critério ambiental na lista de compras  Parece, mas não é: como identificar o falso sustentável  Novo PIB deve incluir indicador de felicidade A história das coisas Quiz - Consumo dos recursos naturais Perguntas e respostas sobre reciclagem     Nas últimas semanas, essas perguntas foram levadas pelo Estado a especialistas do mercado financeiro, de empresas e de instituições que estudam o tema e prestam consultoria sobre ele. A resposta em todos os casos foi quase sempre a mesma: é um movimento que vem ganhando espaço no País entre o empresariado e o mercado financeiro, mas que só é bem compreendido por alguns poucos que se aprofundaram na questão.   Os especialistas acreditam que esse entendimento aos poucos está crescendo, mas afirmam que predominam ou projetos pouco impactantes ou uma noção puramente marqueteira ou, ainda, a idéia de que se trata de um mal necessário.   A definição mais simples do conceito diz que, para uma ação ser considerada sustentável, ela tem de se basear no tripé "economicamente viável, socialmente justa e ecologicamente correta". Na prática, no entanto, isso depende de uma reestruturação completa do sistema produtivo e de uma incorporação da mudança no centro do negócio.   "A produção de um produto sempre gera algum impacto social, ambiental e econômico. É sustentável quando esses impactos são benéficos para a sociedade e são equilibrados. Uma empresa estará promovendo a sustentabilidade quando produzir retorno para todos. Se for apenas para o acionista e não para as outras partes que são afetadas pelo seu negócio, então não funciona de maneira sustentável", explica o diretor-executivo do Instituto Ethos, Paulo Itacarambi.   Ele afirma que observar esse comportamento pode ser um caminho para o consumidor separar o joio do trigo. "Consideramos que uma atitude é para valer quando o tema entra na orientação de negócio e a empresa dá os passos para mudar seus processos produtivo, de gestão e de comercialização. É para valer quando deixa de ser uma preocupação paralela ao negócio e entra no seu núcleo, no ponto que dá resultado financeiro para a empresa."   "É quando, nas tomadas de decisão, a empresa passa a olhar para outras variáveis além da econômica. Aborda também as questões sociais e ambientais", complementa a diretora-executiva da Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável (FBDS), Clarissa Lins.   O diretor do Ethos cita como exemplo algumas ações que podem ser tomadas pelo setor financeiro. "Quando um banco coloca como critérios para conceder um financiamento a análise do comportamento socioambiental de seu cliente, então é para valer. Porque está entrando no principal negócio do banco, e força a mudança de comportamento de quem está pedindo o financiamento. Do contrário, é cosmética."   INDICADORES   Segundo o coordenador do Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas, Mario Monzoni, não existe empresa sustentável. "Há, sim, um conjunto de critérios e indicadores, com razoável consenso, que pode servir de ‘régua’ para medir e avaliar se uma empresa adota estratégias e práticas que garantam a remuneração do capital ao mesmo tempo em que contribuem para a promoção do desenvolvimento sustentável", diz Monzoni. "Essa ‘régua’ contempla critérios que podem incluir políticas, instrumentos de gestão e desempenho econômico, social e ambiental; transparência e qualidade da prestação de contas de todos os seus impactos na sociedade e no meio ambiente; eqüidade entre acionistas ou proprietários; e até a natureza de seus produtos."   Ele se refere a uma série de critérios e indicadores que balizam o comportamento das empresas, como os questionários dos índices de sustentabilidade de bolsas de valores. A Bovespa, por exemplo, lista as companhias que obtêm as melhores notas em questionários sobre suas práticas socioambientais e de governança. Levantamento do Ibmec São Paulo observou que empresas incluídas nesse índice têm um valor de mercado até 19% maior do que aquelas que não estão atentas à questão.   Propósito semelhante têm os Indicadores Ethos, que funcionam como uma espécie de "fotografia" das práticas da empresa. "Eles medem o que a empresa faz de concreto para ter uma boa gestão. A idéia é que ela possa fazer uma leitura de suas relações com os vários atores que são afetados pelo seu negócio e, a partir daí, tenha como produzir metas", explica Itacarambi.   Estar no Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE), da Bovespa, ou ter uma boa pontuação no Ethos ou ainda fazer relatórios de sustentabilidade dentro de um padrão de qualidade não garante, no entanto, que a empresa esteja fazendo tudo certo, explicam os especialistas. É só um caminho.

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