Lalo de Almeida/The New York Times
Sistema privado de monitoramento do desmate via satélite chegou a ser usado pelo Pará, mas depois foi abandonado pelo governo por causa do alto custo da tecnologia Lalo de Almeida/The New York Times

Após crise no Inpe, governo já testa monitoramento privado de desmate

Bolsonaro tem apontado falha no controle de devastação da Amazônia; embate causou demissão do chefe do órgão federal

André Borges, O Estado de S.Paulo

15 de agosto de 2019 | 06h58

BRASÍLIA - O sistema privado de monitoramento que o governo pretende usar para fiscalizar desmate na Amazônia já é usado como um “teste gratuito” dentro do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). O sistema, conforme apurou o Estado, é o mesmo que começa a rodar no Estado do Mato Grosso e já foi testado no Pará.

O Planet, um sistema de mapeamento em alta resolução que pertence a uma companhia dos Estados Unidos, é fornecido localmente pela empresa brasileira Santiago & Cintra, do interior de São Paulo. Essa empresa, que é responsável por processar as imagens e interpretá-las, já realizou diversas reuniões com representantes do Ibama e do Ministério do Meio Ambiente neste ano. 

O monitoramento do desmate motivou uma crise no governo após o presidente Jair Bolsonaro e integrantes de sua equipe questionarem os dados medidos pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Em maio, reportagem do Estado mostrou que a Amazônia perdia 19 km² de floresta por hora. A partir daí, a divulgação sucessiva dos dados levou Bolsonaro a dizer que o Inpe divulgava dados mentirosos. A crise resultou na exoneração do presidente do instituto, Ricardo Galvão, que rejeitou qualquer tipo de manipulação. A demissão do chefe do órgão federal também foi alvo de críticas de cientistas.

Desde o início do ano, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, tem dito que pretende usar um sistema privado. Em julho, ele usou imagens da tecnologia privada para contrapor captações feitas pelo Deter – sistema de alertas de desmate do Inpe – e exibir o que seriam imprecisões nas medições.

Questionado sobre o uso da tecnologia privada, o Ibama não comentou. Salles também foi questionado sobre os termos do acordo que permitiu fazer o uso prévio da tecnologia privada, mas não deu detalhes.

Neste mês, o Ibama nomeou, por meio de portaria, uma “equipe de planejamento de contratação” para escolher o sistema que será comprado, algo estimado em aproximadamente R$ 7 milhões. A ideia seria realizar licitação pública para escolher o produto. Especialistas em captação e processamento de imagens ouvidos pelo Estado, porém, afirmaram que, da forma como foi descrito o sistema, o único fornecedor brasileiro capacitado é a Santiago & Cintra.

A reportagem procurou a empresa para comentar o assunto, mas não obteve resposta. O responsável pelo “planejamento da contratação” do Ibama, o diretor Olivaldi Alves Borges Azevedo, disse que não tinha tempo para tratar do assunto.

Mato Grosso

O governo do Mato Grosso decidiu que deixará o mapeamento do Inpe e adotar o Planet. A informação é do governador do Mato Grosso, Mauro Mendes (DEM). “Vamos usar a melhor tecnologia. Não vou usar duas tecnologias, não faz sentido”, disse ao Estado. “Já começamos a usar o sistema imediatamente. Agora, é essa tecnologia que vai apoiar nossas ações de fiscalização.” 

Procurado pela reportagem, o Inpe não se pronunciou. O Estado, porém, não deixará de ser coberto e monitorado pelas tecnologias governamentais.

“Os sistemas do Inpe não têm a mesma precisão e rapidez. Em menos de 24 horas, saberemos exatamente o que está acontecendo em qualquer terreno do Estado”, disse Mendes. O contrato de R$ 5,9 milhões, que trata da prestação do acesso à tecnologia e seus serviços por um ano, não foi bancado pelo Mato Grosso, mas sim pelo banco de desenvolvimento alemão KFW, o mesmo que faz as doações por meio do Fundo Amazônia, do governo federal.

A compra e a escolha do sistema Planet, segundo o governo do Mato Grosso, foi feita diretamente por outro fundo financiado com recursos alemães, o Global REDD for Early Movers (REM). Criado em 2012, essa iniciativa é bancada de forma conjunta pelos governos da Alemanha e do Reino Unido. 

Pelas regras, Mato Grosso recebe valores se mantiver o desmatamento abaixo da linha de 1.788 km² por ano. O gestor financeiro e operacional do programa é o Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio), uma associação civil sem fins lucrativos. “Não houve licitação, porque não houve dinheiro público nisso. Para o Estado, é custo zero”, disse Mendes. 

O Estado mostrou no domingo que vários Estados da região amazônica estão buscando acordos diretos com países europeus para financiar projetos de proteção ao meio ambiente. 

Pará

O sistema Planet já chegou a ser utilizado como teste pelo governo do Pará. Em 2016, segundo o governador do Estado, Helder Barbalho (MDB), o uso da tecnologia foi feito por meio de uma doação pela própria empresa. Depois, em 2017, um acordo anual foi firmado, com apoio do Fundo Amazônia.

“Nós chegamos (ao governo, no início de 2019) e tomamos a decisão de não comprar”, disse Barbalho ao Estado. “Os sistemas que temos hoje já nos são suficientes para fiscalizar e monitorar o desmatamento.”

Notícias relacionadas

    Encontrou algum erro? Entre em contato

    Sistema privado para monitorar desmate tem alta resolução e alertas diários

    Ministério do Meio Ambiente já testa tecnologia particular de monitoramento de desmate; satélite repete imagens várias vezes sobre um mesmo lugar

    Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

    15 de agosto de 2019 | 03h00

    O Ministério do Meio Ambiente tem testado uma tecnologia de monitoramento privado do desmatamento da Amazônia. Essas imagens, do sistema Planet, trazem vantagens para a produção de alertas de perda florestal porque são feitas com frequência diária e apenas 3 metros de resolução, ante 10 a 30 metros dos satélites Sentinel e Landsat, os principais usados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe)

    O instituto federal faz o acompanhamento da Amazônia hoje. Questionamentos da gestão Jair Bolsonaro ao trabalho do Inpe levaram à demissão de Ricardo Galvão, diretor do órgão. A saída de Galvão do cargo motivou críticas de cientistas do Brasil e do exterior ao governo. 

    O satélite Planet repete imagens várias vezes sobre um mesmo lugar, aumentando as chances de se registrar um determinado desmatamento sem a cobertura de nuvens, e pode vê-lo com muito mais detalhes.

    Mas a desvantagem é que se trata de um serviço pago, e caro, diferentemente dos outros dois, que são de graça. E que demanda uma alta capacidade de processamento.

    “Ele tem alta resolução e alta frequência, permite ver detalhes e a sequências das coisas. Mas tem tanta resolução que acaba gerando muito dado. É preciso muito mais capacidade de processamento para poder avaliar tudo”, explica o engenheiro florestal Tasso Azevedo, coordenador do MapBiomas, projeto de mapeamento do uso do solo do Brasil que envolve uma rede colaborativa de especialistas de universidades, institutos e ONGs que trabalham com sensoriamento remoto no País.

    A iniciativa trabalha, entre outros, com os dados fornecidos pelo Inpe e utiliza imagens selecionados do Planet para poder validar e qualificar a informação. “Compramos imagens para lugares específicos onde o Deter já identificou um desmatamento. É possível, claro, fazer isso para a Amazônia toda, mas é algo bastante custoso. Se o governo tem recursos para comprar isso, deveria entregar essas imagens para o Inpe. Ninguém tem melhor capacidade para processar isso hoje no Brasil do que eles”, complementa Azevedo.

    Ele também diferencia o que é a compra só de imagens da contratação de todo um sistema para gerar dados sobre o desmatamento – exatamente o que tinha sido oferecido ao Pará e que agora está sendo feito no MT, mas que já é feito pelo Inpe. 

    “As imagens poderiam ser usadas por qualquer órgão público. Hoje o Inpe não compra porque os sensores que usa são o suficientes para o trabalho realizado. O Inpe já envia milhares de alertas por ano. Só no ano passado foram 150 mil e muita coisa nem é averiguada em campo. Com mais resolução, o Planet vai enxergar ainda mais coisas a cada dia. Inclusive coisas que não são desmatamento. No Pará (onde o sistema Planet foi testado) se percebeu isso, que ele alertava até para uma árvore cortada”, aponta Azevedo.

    O pesquisador ressalta ainda que hoje o MapBiomas já faz um uso mais selecionado do Planet para ver com mais detalhes áreas que foram alvo de alerta do sistema Deter, do Inpe. “Pegamos os dados e fazemos um foco em alguma área de interesse, trazendo dados mais refinados para o local. E isso é oferecido de graça para quem quiser usar”, diz.

    Pará

    O secretário de Meio Ambiente do Pará, Mauro Almeida, afirma que esse foi um dos motivos pelos quais o Estado decidiu não comprar o sistema Planet, após um período de testes. Segundo ele, o custo seria de R$ 3,5 milhões iniciais pelo serviço, mais R$ 4,5 milhões por ano em imagens. 

    “Para nós, o que vem do Inpe foi considerado suficiente. Se eu tenho plataformas gratuitas, inclusive com o trabalho do MapBiomas, que contemplam o que eu preciso, não vou gastar essa fortuna”, disse Almeida.

    Encontrou algum erro? Entre em contato

    Mato Grosso troca fiscalização de desmate do Inpe por sistema privado

    Contrato de R$ 5,9 milhões será pago pelo mesmo banco alemão que faz doações ao Fundo Amazônia. Pelas regras, Mato Grosso recebe valores se mantiver o desmatamento abaixo da linha de 1.788 km² por ano

    André Borges , O Estado de S.Paulo

    14 de agosto de 2019 | 19h41

    BRASÍLIA - O governo do Mato Grosso vai deixar de utilizar os sistemas públicos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) que medem os níveis de desmatamento na Amazônia para se basear em informações repassadas por um sistema privado, o Planet, produto fornecido por uma companhia americana. Desde o início do ano, o Inpe tem sido alvo de críticas do presidente Jair Bolsonaro e do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, que apontam falhas no sistema público. 

    A tecnologia do Planet, que oferece imagens de alta resolução captadas por satélites, é representada no Brasil pela empresa Santiago & Cintra, de São Paulo, responsável por processar as imagens. A informação é do governador do Mato Grosso, Mauro Mendes (DEM). “Vamos usar a melhor tecnologia. Não vou usar duas tecnologias, não faz sentido”, disse Mendes ao Estado. “Já começamos a usar o sistema imediatamente. Agora, é essa tecnologia que vai apoiar nossas ações de fiscalização e monitoramento do desmatamento no Mato Grosso.” 

    Por captação de imagens de satélite, o Inpe gera suas informações e repassa aos órgãos interessados para que realizem suas ações de combate. O órgão federal tem dois sistemas. O chamado Deter  é o de alerta, para que os Estados possam realizar suas operações de controle por meio de indicações de focos de desmatamento. Já o Prodes é um sistema que consolida anualmente os dados das áreas que foram desmatadas. O Estado procurou o Inpe para comentar a decisão do governo do Mato Grosso, mas não se manifestou sobre o assunto até as 19h.

    O Estado do Mato Grosso não deixará de ser coberto e monitorado pelas tecnologias do Inpe, mas seu governo, no entanto, afirma que não vai mais utilizar as informações do órgão técnico como base para suas fiscalizações. “Os sistemas do Inpe não têm a mesma precisão e rapidez. A diferença é que essa tecnologia tem imagens em alta definição. Em menos de 24 horas, saberemos exatamente o que está acontecendo em qualquer terreno do Estado”, disse Mendes. “Estamos preocupados com o assunto, porque eventuais barreiras ambientais podem trazer prejuízos enormes ao País”, comentou o governador.

    O contrato de R$ 5,9 milhões, que trata da prestação do acesso à tecnologia e seus serviços pelo prazo de um ano, será pago pelo banco de desenvolvimento alemão KFW, o mesmo que faz as doações por meio do Fundo Amazônia, do governo federal. Neste caso, trata-se de uma doação direta para o Mato Grosso, que diz não ter custos com o novo serviço. 

    A compra e a escolha do sistema Planet, segundo o governo do MT, foi feita diretamente por outro fundo financiado com recursos alemães, o chamado Global REDD for Early Movers (REM). Criado em 2012, essa iniciativa é bancada de forma conjunta pelos governos da Alemanha e do Reino Unido.

    Pelas regras, Mato Grosso recebe valores se mantiver o desmatamento abaixo da linha de 1.788 km² por ano. O gestor financeiro e operacional do programa é o Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio), uma associação civil sem fins lucrativos. “Não houve licitação, porque não houve dinheiro público nisso. Para o Estado, é custo zero. Estamos recebendo essa tecnologia por meio do programa”, comentou Mauro Mendes.

    Pará

    O sistema Planet já chegou a ser utilizado como teste pelo governo do Pará. Em 2016, segundo o governador do Estado, Helder Barbalho (MDB), o uso da tecnologia foi feito por meio de uma doação pela própria empresa. Depois, em 2017, um acordo anual foi firmado, com apoio do Fundo Amazônia, para que a tecnologia americana apoiasse as operações do Cadastro Ambiental Rural (CAR), mas não de desmate. Esse acordo venceu no fim do ano passado. Barbalho disse que, ao chegar ao governo, preferiu não investir a tecnologia.

    “Chegamos e tomamos a decisão de não comprar”, disse ao Estado. Diferentemente do que pensa Mendes, Barbalho afirmou que não vê necessidade na aquisição do produto. “Os sistemas que temos hoje já nos são suficientes para fiscalizar e monitorar o desmatamento.”

    Reportagem publicada no último domingo, 11, pelo Estado demonstrou que vários Estados da região amazônica estão buscando acordos diretos com países europeus para financiar seus projetos de proteção ao meio ambiente. Nas últimas semanas, representantes da Alemanha e da Noruega, os maiores doadores do fundo, se reuniram com integrantes desses Estados para discutir alternativas de repasses diretos, sem a necessidade de passar pelo governo do presidente Jair Bolsonaro. Os encontros e discussões foram confirmados pelos governadores do Pará, Amazonas e Mato Grosso – que está na área de influência da floresta e integra a chamada Amazônia Legal.

    Encontrou algum erro? Entre em contato

    O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.